Branco que te quero branco: mulheres dão adeus à tintura e assumem cabelos como eles são

Quem nunca ouviu expressão do tipo: cabelo branco em homem é charme, mas em mulher é velhice, descuido? O tal conceito está ficando para trás. Cada vez mais mulheres de diversas idades estão assumindo os fios do jeitinho que são e dizendo adeus à tintura e tonalizantes. Libertando-se, como afirmam, de horas e horas no salão de beleza para colorir as madeixas.

Algumas tomaram a decisão bem antes da pandemia do coronavírus, quando não havia decreto de isolamento social e os salões ainda eram autorizados a funcionar. Outras, optaram pelo processo de transição durante o isolamento e hoje se sentem bem mais felizes e livres dos cabelos danificados pelo excesso de química.

O Eufemea ouviu mulheres que decidiram deixar o cabelo ficar da cor natural e conta como se sentem hoje.

A jornalista Cristina Sampaio tem 55 anos e fala que escolheu envelhecer de forma saudável.

“Na verdade, deixar os cabelos brancos faz parte de um estilo de vida que decidi adotar e que vai além dos cabelos brancos. Decidi envelhecer de forma mais saudável, natural, buscando novos propósitos de vida, me aproximando mais da natureza, de um estilo de vida mais simples. Isso inclui prestar atenção mais no outro, nos vizinhos, amigos, buscar coerência na forma de gastar meu dinheiro suado, tendo como base a sustentabilidade. Deixar os cabelos brancos é um desses caminhos”, ela afirma.

Cristina Sampaio: “Deixar os cabelos brancos faz parte de um ciclo de vida que decidi adotar. Decidi envelhecer de forma mais saudável, natural”

Tomada a decisão, como se sente agora a jornalista? “Olha, não é algo simples que você decide e pronto. E se acha linda, tudo resolvido. Tudo que a gente resolve fazer que vai de encontro ao que foi imposto socialmente, não é fácil. Ora me acho linda, ora me acho feia. Já tive várias vezes vontade de desistir, já tive medo de perder oportunidades profissionais e pessoais por estar de cabelos caminhando pro branco. Mas todas elas passaram”, relata Cris Sampaio, como é chamada entre os amigos.

E conta: “Sigo em frente e agora, durante a quarentena, tomei a decisão que faltava: parar de fazer as luzes que ajudaram muito nessa transição. Agora deixarei mesmo só os fios naturais. Hoje estou me sentindo ótima com a minha decisão, pois está coerente com o que quero pra minha vida daqui pra frente”.

Ela fala que o preconceito é real. “Tem muito preconceito, de mulheres, de homens, na família, de amigos. Em todos os lugares. Já ouvi de tudo. Perguntaram se estava depressiva. Se meu companheiro aprovava essa “loucura”, que eu tenho um rosto “jovem” por que vou deixar branco pra “entregar” minha idade, que estou desiludida com a vida. E por aí vai. Todo tempo tem comentários negativos”.

As duras palavras não a desanimam. “Eu não deixo isso decidir por mim. Sempre tive personalidade forte, sempre agi pelo que quero. Essa fase não será diferente. Essa construção da mulher perfeita, da mulher “Barbie”, da mulher montada, só serve pra escravizar a gente, a criar padrões neuróticos capazes de inverter o que realmente é essencial na vida. Levei 50 anos pra entender isso. E ainda assim não aprendi a lição por completo. Todo dia é um novo desafio. É uma luta interna diária pra separar o que é meramente consumo imposto socialmente, daquilo que pra mim é realmente importante”.

Hoje, ressalta Cris Sampaio, “o meu desafio é me achar bonita e desejada sem a necessidade de estar de unhas pintadas, botox no rosto, cabelos impecavelmente escovados, roupas de grifes, etc.. estou no caminho da simplificação de tudo isso. Não tem nada de descuido, pelo contrário. Nunca cuidei de mim, como tenho cuidado hoje. Meus investimentos têm sido cada vez mais no que ainda é invisível aos olhos, de quem não está preparado pra ver”.

Para as mulheres que pensam em assumir os brancos, mas temem ser recriminadas, ela orienta: “Viver como mulher é um desafio constante. Quanto mais consciência temos das desigualdades e do câncer social que é o machismo, mais difícil fica não agir. Então o que posso dizer que é libertador mudar os padrões impostos, é desafiador, e pode ser engraçado, tranquilo. Basta que você tenha capacidade de rir de você mesma e encarar o espelho de frente. O espelho da vida. Deixar os cabelos brancos é uma atitude de quem quer se libertar. Tem uma simbologia muito maior do que apenas aparenta. Mas só faça isso se conseguir enxergar beleza na atitude”.

“Quero me aceitar como sou”

A funcionária pública e jornalista Lenilda Luna, a Lua, como é chamada carinhosamente, diz que decidiu parar de pintar no final do ano passado. “Eu já vinha pensando nisso desde que completei 50 anos, mas demorei um pouco amadurecendo a ideia, então, aos 53, achei que já era tempo de assumir essa tendência de assumir os grisalhos”, conta.

Lenilda Luna: “Muitas vezes olhei as raízes brancas no espelho e tive vontade de pintar. Mas depois fui gostando do resultado”

No começo, ela diz que foi difícil acostumar. “Muitas vezes olhei as raízes brancas no espelho e tive vontade de pintar. Mas depois fui gostando do resultado. Não recebi muitos comentários negativos. Umas poucas pessoas criticaram, outras disseram que não tinham coragem, mas gostaram de como ficou em mim”.

Lua lembra ainda que “a mulher é sempre mais avaliada por seus atributos físicos do que por sua inteligência, competência, liderança. São frutos nefastos da nossa sociedade patriarcal e conservadora. Mulheres não podem engordar, não podem envelhecer. E isso é dramático, porque faz parte da vida, com a idade ganhamos alguns quilinhos, rugas e cabelos brancos. A indústria cosmética ganha muito com a nossa luta contra os anos. Eu cansei. Quero me aceitar como sou”.

E manda a mensagem para as mulheres: “Fiquem à vontade, tanto para continuar pintando ou para assumir os brancos, mas seja qual for a escolha, façam isso por vocês mesmas, não por nenhum padrão estético imposto”.

Pandemia e trégua na tinta

A alagoana Zara Costa também é jornalista e mora no Rio de Janeiro há 10 anos. A filha tem 8 anos. Na pandemia, decidiu não pintar os cabelos. “Estou em home office há três meses. Sou diretora em uma agência de comunicação e estou, nesses três meses, em múltiplas funções: atendendo clientes, participando de reuniões (muitas) à distância, cuidando dos afazeres da casa, ajudando a minha filha com as tarefas da escola, além de dar atenção para outras atividades dela também”, ela relata. 

Quanto aos cabelos, Zara fala: “Eu tenho cabelo branco desde nova, acho que com 25 anos eu já tinha, mas eram poucos. Com o tempo, os brancos foram aumentando, especialmente na parte da frente. Eu já tinjo há bastante tempo porque sempre curti ficar loira e as luzes claras também disfarçavam mais os brancos. Nos últimos dois anos, passei só a pintar a raiz para disfarçar os brancos, pois meu cabelo demora muito a descolorir e passei a ficar sem muita paciência para passar mais de 6 horas no salão”. 

Fevereiro deste ano foi a última vez que pintou o cabelo. “Estava em vias de retocar quando começou a quarentena. Meu cabelo cresce muito rápido, então os brancos vieram com força! Meu marido me apoiou em deixar sem tinta nesse período, ficar livre um pouco da maquiagem, esmalte, tinta e outros artifícios que uso corriqueiramente. Ele até brinca me chamando de Mortiça, da Família Adams, já que meus brancos se concentram na frente como uma faixa”, diz Zara.

E relata que não há angústia ao ver os fios ficarem como são. “Confesso que já acompanhei algumas mulheres que fizeram essa transição e achei lindo. Fiquei bem tentada, mas acho que ainda não é meu momento. Acredito que esse período que estou passando sem tinta seja uma espécie de teste de como será quando chegar a minha vez”, afirma Zara. 

“Já ouvi, sim, que precisava pintar. Confesso que em algumas reuniões em que preciso ligar a câmera fico um pouco incomodada com esse mix de cores na cabeça. Eu tenho um spray que uso para disfarçar e tenho usado nessas ocasiões”, confessa a jornalista. 

Questionada como se sente com os cabelos brancos, responde: “Humm, depois que fiz 40 anos eu comecei a enfrentar uma resistência comigo mesma em relação à minha “velhice”. Olhar no espelho e ver em meu rosto a passagem do tempo me deixou nostálgica, com aquela sensação de querer voltar no tempo, ter a mesma pele, a mesma textura de cabelo… O cabelo branco reforça esse sentimento, mas acho que estou aprendendo a lidar melhor com isso nesse período de quarentena. Com o isolamento, passei a olhar mais para dentro de mim, do que já vivi e aprendi, de tudo que já passei. E aí, os brancos ganham novo significado, entende?”. 

“Assim como muitas mulheres estão assumindo seus cachos, vejo aumentar também o número de mulheres que assumem seus brancos. Acredito que a exposição que esses movimentos vêm tendo ajuda muito a fortalecer as mulheres que querem também querem parar de alisar ou pintar seus cabelos. Sempre bom reforçar que a representatividade importa, sim! Então, poder ver mulheres grisalhas empoderadas é muito inspirador. Cito aqui algumas: Cris Guerra (sou muuuuuito fã) ,Cássia Kiss (acho que umas primeiras mulheres que me recordo dessa transição), atriz Helen Mirren e tantas outras”, destaca Zara.

Zara Costa: “Confesso que já acompanhei algumas mulheres que fizeram essa transição e achei lindo. Fiquei bem tentada, mas acho que ainda não é meu momento”