Criar na crise: empreendedoras apostam em novas ideias para driblar a pandemia

Foto destaque por Benita Rodrigues: Clarissa e Maria Helena Veiga

‘Não está fácil para ninguém’. Quem nunca se pegou dizendo essa frase nesse tempo de pandemia? É como se de repente a vida tivesse virado de cabeça para baixo e exigido das pessoas mudanças até então inimagináveis. E o que dizer de quem vive do próprio negócio, teve que fechar as portas, em cumprimento ao isolamento social, e buscar alternativas de vendas e de sobrevivência? Foi exatamente isso o que aconteceu com as empreendedoras que têm agora na palavra reinventar uma espécie de mantra.

Aline da Rocha Soares está entre as que apostam no empreendedorismo como fonte de renda e de vida e teve que buscar alternativas para sobreviver na pandemia. “Sempre acreditei no empreendedorismo, mesmo sendo tão complicado aqui no Brasil devido aos altos impostos e várias outras complicações. Já tenho uma empresa antes de começar a pandemia e a ideia de abrir uma pâtisserie (especializada em bolos e doces) já existia, mas resolvi antecipar a abertura pelo fato de as pessoas estarem em casa e ainda mais ansiosas”, ela diz.

Mas ela não parou por aí! Para aumentar o lucro, montou uma confeitaria “com várias opções, até mesmo para aproveitar o Dia dos Namorados. Investi em média R$ 1.000,00. Só trabalho com chocolate belga e bons produtos, isso acaba aumentando meu custo de produção”, conta Aline.

A empreendedora diz que a insegurança existe, mas segue em frente. “Medo sempre temos. São muitas incertezas, mas melhor errar arriscando do que nem tentar”, ela afirma.

Aline trabalha sozinha, “desde a compra dos produtos, produção, entrega e recolha de feedbacks. A produção é feita em casa e aprendi tudo com minha mãe que sempre foi excelente cozinheira e no dia a dia”, ela conta ao dizer que “o movimento varia. Tem dias que são excelentes, outros medianos e outros pouco produtivos”.

Nesse período de isolamento social, os pedidos são feitos através das redes sociais (Instagram, whatsap) e também através de ligação (número nas redes sociais). “Os preços para o tipo de produto que trabalho, infelizmente não consigo diminuir. Ainda não trabalho com promoções, mas já estou estudando sobre. Planejo expandir o negócio e conquistar ainda mais clientes. Hoje em dia nossa maior ferramenta de vendas são as redes sociais”, diz Aline.

Bolo, milho, canjica..delícias na quarentena

A jornalista Gabriela Damacena e a mãe Risoleide Barros sempre gostaram de cozinhar. Nesse momento de isolamento social, tiveram a ideia e botaram literalmente a mão na massa. Estão fazendo comidas típicas do Nordeste. “Pensando em não deixar os festejos juninos passarem em branco, resolvemos criar a Festa Junina na Caixa para levar um gostinho do São João no conforto e segurança da sua casa”, elas anunciam no Instagram.

As duas contam com o reforço de Isadora e Beatriz, as outras duas filha de Risoleide que moram em São Paulo, mas estão passando a quarentena com a mãe em Maceió.

“Há muitos anos a gente já vendeu ovos de Páscoa, mas faz muito tempo mesmo. Eu ainda era criança, lembro de ajudar ela, lembro de cheiro de chocolate que ficava na casa, um monte de forma na cozinh. Minha mãe ama cozinhar, cozinha muito bem e eu acabei pegando o gosto por fazer sobremesas”, conta Gabriela.

Em casa, no isolamento social, ela descreve que o clima era de tristeza. “Aí nós mesmas estávamos muito tristes por esse ano não podermos ir em quermesses e festas juninas, por conta da pandemia. E é uma época do ano que a gente ama, a gente gosta de ir nas festas só pra comer. Minha mãe é do interior, sertaneja, como ela mesma gosta de dizer, e temos memórias lindas dessa época, da fogueira na porta da casa da minha avó, do meu bisavô puxando quadrilha, do friozinho que faz no interior”, lembra.

Foi dessa tristeza e nostalgia que surgiu a ideia. “Acabamos tendo a ideia de fazer as comidas típicas e pôr em caixas para levar a quem também ama essa época e obviamente por causa da situação em que estamos não vai poder ir a quermesses e festas para confraternizar e comer as gostosuras da época. Como sabemos que haverá lives de arraiás e forrós, também é uma ideia pra curtir em casa”, diz Gabriela.

Todas as vendas são feitas on-line. “Instagram e WhatsApp são as ferramentas que usamos. E o cardápio oferece o bolo de milho, bombocado (que é um bolo que leva milho, coco e até queijo parmesão – meu preferido!), canjica, pamonha, brigadeiros de paçoca, pé de moleque, amendoim torrado, cocada de forno e o milho cozido”, ela diz.

Todas as caixas, destaca a jornalista-empreendedora, “vêm com as mesmas opções, só muda a quantidade. Mas podemos trocar um produto que a pessoa não goste por outro. Ou se a pessoa quiser encomendar só alguns quitutes específicos a gente faz também”.

Máscaras personalizadas

Talita Moureira é proprietária de uma loja de roupas e acessórios femininos. Quando o isolamento social foi decretado, as lojas fechadas, ela teve que pensar rapidamente em uma saída, já que as vendas on-line não eram satisfatórias.

“Desde quando tudo começou, que eu tive que manter a loja fechada, vi que estava sendo muito difícil lidar com as vendas das peças de roupas, acessórios, calçados. Muita gente em casa, em isolamento, não estava saindo. Mas depois que algumas empresas foram reabrindo, eu pude ver que a necessidade passava a ser mais a questão de roupas para trabalho. Vi que estava sendo muito difícil na questão da produção das lojas em si”, conta Talita.

Bateu a insegurança. “E eu disse: meu Deus, e agora, o que é que eu vou fazer? Passei um bom tempo parada, realmente sem saber o que fazer, mas eu lia muito, estava sempre pesquisando”.

E nas pesquisas, ela descobriu as máscaras, agora tão necessárias e utilizadas. “Pode até parecer, ah todo mundo já estava fazendo, mas a única saída que eu tive, porque o comércio é assim você vende aquilo que de fato o povo precisa, foi produzir máscaras. Então foi mais pela necessidade. Decidi confeccionar máscaras personalizadas com a minha logomarca. Quis fazer o diferencial de ser dupla face, ter minha logomarca e como muita gente estava reclamando da questão do elástico, fui em busca de qualidade”, conta Talita.

Loja colaborativa

Maria Helena Veiga tem uma loja colaborativa. Com a pandemia, ela precisou recorrer ao sistema on-line. “A gente montou, construiu o nosso modelo de negócio. Montamos uma loja e alugamos os espaços nessa loja, onde cada criativo, que tem essa necessidade de expor, de colocar o produto à venda, paga um valor mensal, e deixa os seus produtos sob os nossos cuidados, tipo uma consignação”, explica Helena Veiga, ao dizer que o trabalho funciona como uma curadoria.

O público, ela conta, é formado 90% por mulheres, a partir dos 30 anos. “São os pequenos empreendedores alagoanos e região. Nossos produtos são exclusivos, não somos loja de artesanato, mas de produtos criativos, de diversos segmentos. Acessórios, moda, papelaria, livros. Uma diversidade grande”.

Com a chegada da pandemia, a história mudou, mas não desanimou a empreendedora. “Foi um desafio imenso para a gente, porque assim como a maioria das empresas a gente precisou tornar o nosso negócio digital, até então era só o Instagram e o WhatsApp. Nunca nos dedicamos tanto à rede social”, ela diz.

A proposta da loja colaborativa, ressalta Helena Veiga, “era de fato era o estar junto, fazer com que as pessoas fossem até lá conhecer de perto e tocar nos produtos. E essa continua sendo a nossa essência, mas fomos obrigados a nos readaptar, senão ficaria impossível manter as vendas, o giro dos negócios se a gente não se readaptasse”.

“Hoje faz 30 dias que a gente montou a nossa loja virtual, intensificamos o nosso Instagram, começamos a estudar de fato toda essa questão de transformação digital, do que é vender pelo Instagram e WhatsApp e estamos caminhando, está dando certo. Acredito que toda transformação é feita de pouquinho, ninguém consegue readaptar o seu negócio da noite para o dia, principalmente se você quer fazer bem feito, quer ter um futuro com essa transformação, não apenas uma coisa para o momento, que é o que a gente pensa”, diz Helena Veiga.

A empreendedora afirma que prefere falar no hoje, em vez de se concentrar no pós-pandemia. “Não gosto muito de falar do pós-pandemia, porque acho que muitas águas vão rolar ainda. Não crio muitas expectativas, toco o negócio, quero investir no virtual. Comprar uma história pelo virtual é bem mais difícil do que fazer o cliente comprar pessoalmente. Acho que as pessoas vão continuar consumindo presencialmente, mas com muito mais significado a partir de agora a gente já está sentindo isso”.