Mesmo com pandemia, nordestinos se reinventam e levam festa de São João para dentro de casa

Reportagem por Niviane Rodrigues e Raíssa França

Foto principal: Cortesia/Myria

A festa de São João é uma das mais tradicionais para o povo do Nordeste e é aguardada com ansiedade para quem ama o mês de junho. Entretanto, por causa da pandemia, as principais cidades precisaram cancelar a festa junina. Mas engana-se quem achou que os nordestinos não iam se reinventar e levar o São João para dentro de casa, respeitando o isolamento social.

O Eufemea trouxe a história de três alagoanos que transformaram a noite do dia 23 em alegria. Teve traje junino, comida típica, decoração, forró e muita alegria.

Junho é mês de alegria na casa da aposentada Myria Azevedo. A tradição das festas juninas é comemorada com arrastá-pé, ao som do forró, comidas típicas e o colorido da decoração da casa, que ela cuidadosamente decora para receber os convidados.

Esse ano, por conta da pandemia do novo coronavírus, o número de pessoas vai se limitar apenas ‘aos da casa’, como afirma, mas nem por isso ela vai deixar de celebrar São João.

“Sempre gostei do mês de junho, o mês mais alegre do ano, o mês onde comemoramos os festejos juninos. Sempre decoro minha casa, faço comidas típicas e curtimos bastante forró”, conta Myria.

Na casa de Myria, a comida típica ganhou espaço

Mesmo com o momento que estamos vivenciando, ela diz, “não deixei de enfeitar minha casa, para ficar mais alegre, tirar um pouco da tristeza que estamos passando. Infelizmente não podemos compartilhar como nos outros anos, com muita gente. Amo receber em minha casa. Mesmo assim vamos comemorar com os de casa mesmo”, diz Myria.

“Este ano, por conta das doenças pulmonares que podem se complicar com a fumaça das fogueiras e dos fogos de artifício, não vamos ter fogueira nem fogos, mas fiz uma bela fogueira fake, pra completar o cenário da noite mágica de São João”, disse.

Casal animado

A advogada Manuella costa, 35 e o empresário Rick Lima, de 37 anos, sabem aproveitar bem a vida e a relação. Os dois tinham costume de viajar na época de São João, mas por causa da pandemia, a viagem ficou para outro momento.

Casal não perdeu a alegria da celebração

Só que nem o atual cenário fez com que o casal deixasse de viver a época junina do jeito que os dois amam. Junto com os dois filhos – sendo um de 14 e outro de 6 anos – Manuella e Rick providenciaram uma verdadeira festa dentro do apartamento que moram no bairro do Farol. E ainda levaram o espírito junino para os vizinhos.

“Onde moro, nós dois e os vizinhos carinhosamente nos presenteamos com quitutes, troca de petiscos. A intenção é que nos sintamos mais próximos. Está sendo animado do mesmo jeito”, contou a advogada.

Ela também destacou que para que eles fiquem mais próximos das pessoas que eles gostam, o casal resolveu fazer chamada de vídeo com os amigos e familiares, com direito a brinde e muito forró.

“Esse é o primeiro ano que passamos em casa, mas aproveitamos e nos divertimos. Precisamos nos adaptar ao momento, né? Afinal, é a melhor festa do ano”, disse a advogada.
Significado especial

É nas memórias afetivas da infância que a jornalista Patrícia Machado encontra as palavras para definir a importância das festas juninas para ela e de preservar a tradição.

“O período junino tem um significado muito especial para mim. Vivo toda a sua magia de diferentes maneiras, cada uma mais incrível que a outra”, diz.

“Primeiro, nas memórias de minha mãe, que é do Sertão e viveu a infância na fazenda, com a casa cheia de gente e a roça do milho quase ao lado da cozinha. Era um tempo analógico, em que a família tinha que preparar sua comida, que era natural, colhida no quintal de casa, temperada com o coco seco ralado na hora e o leite fornecido pelo gado no curral”, lembra Patrícia.

As lembranças, que ela preserva bem vivas e presentes, se traduzem na casa cheia, as roupas e comidas típicas.

“Já nas minhas próprias memórias de criança, a magia do vestido, da maquiagem e das fitas coloridas, chapéu com tranças, bandeiras, fogos e músicas ao vivo, com aquele trio de senhorzinhos que eu mal conhecia, mas era responsável por promover muita alegria e cumpria sua missão com maestria. Aqui também, casa cheia, comida preparada e degustada com a participação de muita gente”, conta.

O tempo, como nosso grande desafio, diz Patrícia, “muda muitos costumes. Aos poucos, o milho vai ficando longe, as pessoas vão morando mais distantes, as festas vão dando mais trabalho para serem elaboradas. Mesmo assim o espírito permanece, e em menor proporção a celebração acontece. Sempre com aquele sentimento de que há uma fogueira aquecendo e nossos corações”.

Então, segue Patrícia em sua narrativa de lembranças do passado e da atualidade, “mesmo com tantos buffets excelentes oferecendo comidas de milho prontas, essa, feita em casa e com a participação de todos, tem o melhor sabor do mundo”.

Esse trabalho coletivo em torno do alimento, afirma, “ajuda a manter as relações saudáveis e nutridas, em corpo e espírito. São uma prova viva de que quando nos unimos em torno de um objetivo, ele vai acontecer e de maneira muito prazerosa. Meu filho é um sortudo de viver esse momento e quero que ele, por si só, perceba a importância e a alegria de se preservar uma tradição saudável”.