Empoderamento feminino diante dos bisturis cresce em AL: médicas chegam aos centros cirúrgicos dando fim ao preconceito

Mãos que executam um trancado rápido.

Mãos de artesã, precisas.

Cortando.

Fechando.

Salvando.

Mãos que beijo, que abençoo.

Mãos que bailam num vai e vem ,

sem sombras, figuras.

Generosas criam linhas certas;

Cicatrizes sem dor.

Femininas, coloridas, iluminadas.

Mãos sem preconceito.

Mãos de cirurgiã.

As técnicas jornalísticas, compostas por regras, nem sempre são suficientes para expressar o conteúdo que vai além dos fatos. Nunca comecei um texto pela poesia nesses meus quase 40 anos de profissão. Mas há uma primeira vez. Falo de fatos e de emoção. Falo de mulheres que escolheram uma especialidade médica, a cirurgia. Difícil, tensa e até bem pouco tempo, um campo árido para elas.

E porque a poesia?  Porque , como mãe, encontrei nas rimas uma forma de homenagear a filha e, através dela, as médicas cirurgiãs. Porque elas são assim… se diferenciam pela paciência, o querer correto, a habilidade.

E pensar que em 1875 o médico francês Lucas Championnaire teve a indecência de dizer que  “ as mulheres médicas eram ambíguas, hermafroditas ou assexuadas, monstros sob todos os pontos de vista”. Demorou, e ele não pode engolir suas palavras. Mas uma pesquisa da Universidade de Toronto, no Canadá, publicada na revista científica British Medical Journal, provou o que se percebe e sente: se tornaram não apenas melhores, mas excelentes!

Pesquisas do médico Raj Satkunasivam, com 104.630 pacientes e 3.314 cirurgiões, sendo 2.540 homens e 774 mulheres, chegou a conclusão que pacientes de cirurgiãs operados na cidade canadense entre 2007 e 2015 tiveram 12% menos risco de morrer entre o procedimento e os 30 primeiros dias do pós-cirúrgico em relação a quem foi operado por médicos homens, considerando-se todas as variáveis. É uma pesquisa antiga, é verdade, mas foi um referencial importante que continua servindo como fonte.

A prática cirúrgica adequada depende de conhecimento, capacidade de comunicação, julgamento e técnica – habilidades que diferem cirurgiões de outros especialistas e, no caso das mulheres, mesmo ainda com poucas informações científicas, o estilo de aprendizagem, a adequação e os resultados as diferencia.

A cirurgia ainda é uma especialidade muito masculina. A mulher geralmente tem um segundo e um terceiro empregos, além de casa e filhos. A cirurgia demanda mais. E uma mulher cirurgiã precisa MAIS. Estudar mais, trabalhar mais , provar mais. O empoderamento feminino diante de bisturis é novo, mas cresce.

No Colégio Brasileiro de Cirurgiões, por exemplo, que contabiliza o cadastro de  especialistas no país, apenas 20% são mulheres. No diretório nacional da instituição, dos 21 integrantes, 19 são homens. Na Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular, apenas 47 dos 925 membros registrados são mulheres. Ao todo, a SBCCV estima que existam 2.220 cirurgiões cardiovasculares atuando hoje no país, dos quais apenas 205 do sexo feminino. Os dados não estão atualizados.

Dados do Conselho Regional de Medicina de Alagoas- Cremal – apontam que apenas 37 médicas têm CRM ativo como cirurgiãs. Inez Maria Barreto Rodrigues de Menezes e Marisa Vieira da Silva Montoro são as pioneiras.

A primeira médica brasileira foi a Maria Augusto Generoso Estrela, formada em 1881 nos Estados Unidos, e a primeira médica a se formar no Brasil foi a Rita Lobato em 1887. As professoras Talita Franco e Angelita Gama, foram as primeiras mulheres no Brasil a invadir o centro cirúrgico e abrir as portas para as tantas que vencem e ainda superam preconceitos.

Até a década de 1960, as poucas cirurgiãs existentes encontravam ambiente hostil. Não havia vestiário feminino, roupas adequadas ou quaisquer outras facilidades. Eram sempre confundidas com enfermeiras ou instrumentadoras. Nunca se pensava nelas, em princípio, como cirurgiãs e também eram alvos de comentários desagradáveis. Os pacientes freqüentemente diziam preferir operar com homens. Não havia cirurgiãs bem sucedidas que servissem como exemplo e estímulo

Segundo Pringle10, o fenótipo masculino inspira 25% a mais de confiança do que o feminino. Isto significa que, para qualquer cargo que pleiteie, uma mulher precisa mostrar ser pelo menos, 25% mais capacitada do que seu concorrente masculino mais próximo, para ter as mesmas chances de sucesso. Aspectos pessoais considerados favoráveis para os cirurgiões, tais como personalidade forte, auto-controle, mente questionadora, capacidade de liderança e uma certa agressividade são vistos como qualidades nos homens e como componentes estranhos à personalidade feminina, gerando muitas vezes dúvidas quanto à sua feminilidade

Em apenas dois Estados do país o número de mulheres médicas já supera o de homens: Rio de Janeiro, com 50,8% de mulheres na profissão, e Alagoas, em primeiro lugar na proporção de mulheres médicas em relação aos homens, com 52,2% profissionais. O dado está na pesquisa “Demografia Médica 2018”, feita pela Faculdade de Medicina da USP, com dados da AMB, do IBGE, do MEC e da CNRM, disponível na internet.

Homens e mulheres têm diferente motivações e preferencias na escolha pela especialidade, mas, o certo é que as mulheres preferem mais as clínicas às cirúrgicas, como acontece em todo o mundo. Com a crescente feminização da medicina se discute o futuro de especialidades cirúrgicas em que mulheres estão desproporcionalmente representadas.

Ana Carolina Pastl Pontes, cirurgiã, 12 anos de formada, desses 7 na especialidade cirurgia de cabeça e pescoço se espelhou na cirurgiã pediátrica, Juliana Malta, sua tia. A abertura de uma especialidade bem masculina aconteceu mas…não foi fácil. “A força e vontade sempre superaram todos problemas”, diz, totalmente plena após enfrentar barreiras desde a descrença de que não conseguiria executar um procedimento de sua especialidade, até o de que o lugar de mulher seria em casa e não no centro cirúrgico. Sem bandeiras, acha que a mão da mulher é uma mão de fada, sim, mas não exclusivamente delas.

Ana Carolina Pastl Pontes especialidade cirurgia de cabeça e pescoço se espelhou na cirurgiã pediátrica, Juliana Malta, sua tia: “A força e vontade sempre superaram todos problemas”

Médica, cirurgiã, esposa, mãe, filha, sim… porque a mulher é multifuncional.. É difícil organizar tudo mas saber conciliar também é uma das qualidades da mulher. “Nunca foi fácil mas com equilíbrio, calma, identificando onde ser mais necessária, esquecendo as culpas, sabendo que não somos super-heroínas e sim humanas, cheias de falhas descobri a fórmula do saber viver.”

Quando não se tem exemplos, mas o saber da vocação, optar pela Medicina não é escolher um curso da moda , ou que lhe garanta um futuro seguro, economicamente falando. Mas uma vez, saio das técnicas jornalísticas e falo da opção de uma jovem chamada Larissa Cavalcanti Barros, minha filha. Ela até que tentou negar a vocação escolhendo outra área, a fisioterapia, mas foi só colocar os pés no maior hospital de Alagoas, o HGE, que despertou e começou tudo outra vez. Incontáveis dias e noites de estudo…seis anos, depois mais dois fora de casa. E uma saga que não se finda nunca, porque o aprendizado não se conclui com diplomas.

Foi tecendo sua carreira, como tecia os fios, pacientemente, aprendendo o melhor jeito, para ser uma cirurgiã respeitada. Confesso que também gostaria que a escolha fosse outra. Mas nada para nós, mulheres, precisa ser fácil. Não é?

Por Zélia Cavalcanti – jornalista