Vítima de abuso sexual na infância usa rede social para ajudar jovens: “Que consigam se curar”

Os abusos sexuais aconteceram na infância e marcaram a vida da advogada Vanessa Monteiro dos Santos, 33 anos, que mora em Curitiba (PR), e hoje busca alertar outras jovens vítimas do mesmo crime a denunciarem, se libertarem da dor que as oprime. Ela usou a rede social Twitter para desabafar e ao mesmo tempo contar a história que tem como algoz o padrasto. A postagem ganhou repercussão, viralizou, e ela decidiu criar um portal no Instagram (@doresdalma.oficial) onde compartilha sua história com outras vítimas para ajudá-las.  

Hoje, Vanessa é casada, mãe de três filhos e falou com o Eufemea, a quem contou como tudo aconteceu. No Instagram, Vane, como é conhecida, relata ser uma sobrevivente de abuso sexual infantil. 

“Quero compartilhar minha história com outras vítimas, homens e mulheres, para que assim como eu consigam contar o que aconteceu e tentar se curar desse fardo, dessa dor tão grande que a gente carrega na alma. Só de imaginar que agora, nesse momento, tem uma criança passando pelo que eu passei, me deixa muito angustiada”, diz Vanessa. 

Segundo ela, os abusos começaram quando tinha seis anos. “Com essa idade eu tenho mais recordação da minha infância. É o período que fui para a escola, então tudo isso me marcou muito. Então eu comecei a ter mais recordação a partir dos seis anos. Mas pode, sim, ter começado antes e eu não lembrar por ser muito pequena”. 

Vanessa criou uma página no Instragram onde posta sua história e tenta ajudar outras vítimas de abuso sexual

Ela conta que os abusos aconteceram até seus 12 anos de idade. “Que foi quando meu corpo começou a mudar, fazer a transição de um corpo de criança para o de adolescente. Quando fui ficando mocinha o abusador foi, provavelmente, perdendo o interesse e parou”, diz Vane, ao revela que o abusador era o padrasto. 

“Ele nunca me ameaçou. Eu tinha ele como uma figura paterna. Chamava de pai, porque quando ele se juntou à minha mãe eu tinha um ano de idade. E isso é uma coisa complicada porque quando o abusador é uma pessoa da família e não um estuprador, que envolve violência, é uma questão muito complexa para o psicológico da vítima porque a gente sobrepõe a figura paterna ou do tio, do irmão acima da figura do abusador. É um manipulador por essência”, diz Vanessa. 

O abusador ia no quarto dela à noite, sempre. “Ou então quando eu estava no sofá. A minha mãe trabalhava muito então ele aproveitava esses momentos. Um pedófilo, um abusador, ele nunca para. Só precisa da ocasião, do momento perfeito, de uma criança vulnerável”, relata Vanessa, ao dizer que “nunca houve penetração. Ele fazia outras coisas para se satisfazer, usava o meu corpo de outras maneiras, mas nunca houve a penetração”. 

Advogada, ela afirma que não trabalha na área criminal, mas que acabou estudando um pouco mais para tentar entender.  

“Ele não poderia ser denunciado no ano que eu revelei para a família porque na época não era um estupro, não houve conjunção carnal. Hoje é sim. Se você tocar em uma pessoa de maneira sexual, que era o que acontecia, já é considerado estupro, depois da mudança do Código Penal”. 

“Eu não tinha a quem contar” 

Era num diário que ela contava o que se passava. “Era muito comum as meninas da minha geração ter um diário, e ele leu. E falou que se eu contasse nunca ninguém ia acreditar. E isso é uma coisa que os abusadores falam. Aquilo você internaliza e carrega para a vida. Eu era uma criança muito vulnerável. E para quem vai pedir ajuda?”, ela indaga. 

“O meu sentimento era: eu estou num campo, numa floresta e eu vou gritar, mas ninguém vai me ouvir porque eu estou sozinha. Eu não tinha para quem contar. A minha mãe era uma figura ausente. Eu não tinha apego com nenhuma pessoa nem confiança para chegar ao ponto de contar. Por isso que eu falo para as mães, para os pais: sejam presentes na vida das crianças, mas não é a presença só física. Você tem que ter presença psicológica, emocional, tem que se conectar com aquela criança a ponto dela se sentir segura em te contar. Eu nunca me senti, porque eu não tinha ninguém ali”, diz. 

Nas ilustrações do Instagram, ela usa imagens para falar da criança interior, ferida que um dia foi, como descreve

Foi somente aos 30 anos, ela relata, que contou o que se passou. “E teve gente que não acreditou. Então, se não acreditaram em uma mulher, por que acreditariam em uma criança? É isso o que eu penso hoje depois de todo meu processo de cura e libertação, que a questão de contar é muito complicada, mas existem sim meios de fazer uma criança contar. Talvez se eu tivesse participado de educação sexual na escola, ouvido palestras, professores me sentisse mais à vontade, porque a criança dá sinais, fica nervosa, aflita, quer sair daquele lugar que estão falando sobre aquilo. Os sinais são gritantes”. 

Vanessa relata ainda que apesar do sofrimento, decidiu perdoar. “Seguir a minha vida sem nenhuma amarra, nenhum vínculo. Não desejo mal, mas o perdão não significa convivência. Perdoei, mas nunca mais quero ver o meu abusador. Eu não preciso conviver com alguém só porque eu perdoei”. 

Aos 16 anos, Vanessa conheceu o marido. “E logo ele começou a perceber que eu era maltratada em casa, que sofria violência psicológica. Até então ele nem imaginava que eu passava por abuso sexual. A gente estava muito apaixonado, era o primeiro amor, e ele cinco anos mais velho do que eu. Logo a gente noivou e ele acabou descobrindo uma situação de violência psicológica em que o meu padrasto me chamava de vários nomes, me ofendia muito e eu chorava, então ele me buscou na casa que eu morava e a gente está junto até hoje e temos uma família perfeita. Graças a Deus a gente vai dia após dia tentando superar muitas coisas”. 

Aos 16 anos, Vanessa conheceu o marido: “No dia que contei, ele chorou, passou mal, ficou desesperado”

O marido, no entanto, não sabia do que se passava em relação aos abusos. “Guardei isso a sete chaves, porque eu não queria passar por um processo de ruptura. Eu era uma menina, aos 16, 17 anos não tinha estrutura psicológica nenhuma para passar por aquilo. Toda vítima precisa amadurecer muito para poder contar, porque não é só o contar, é o que se dá depois com toda aquela situação, porque eu sabia que precisava chegar nele de uma maneira pessoal, porque com a minha família eu contei via WhatsApp, um grupo que a gente tinha e meu marido não fazia parte”, recorda Vanessa, ao dizer que chamou o marido para dar uma volta e contou.

“Ele passou muito mal, chorou, ficou desesperado, teve um rompante de raiva contra meu padrasto. Foi um momento muito complicado”. 

“Meu propósito é ajudar” 

Ao decidir tornar público depois de tanto tempo, Vanessa conta que isso não traz mais vergonha.  “Não sinto mais tristeza ao falar. Sei que é uma página da minha história, mas é uma página que superei. Se voltar o meu livro de vida, as páginas vão estar lá, não tem como arrancar, apagar a história, só que é uma história superada. Agora eu me sinto capaz. Eu contei para a família em 2017. Precisei de um período para pode refletir melhor o que eu faria com isso e eu me acho na obrigação de levar a minha história para mulheres, crianças e homens que passam por isso”. 

Quando publicou a história no Twitter, ela diz que recebeu mensagens no privado de homens, de mulheres, de parentes de pessoas que passaram pela mesma situação. “Eu fiquei muito chocada em saber que muitos homens passam por isso. Tem até comentários públicos lá. E ele são um público ali que não chega”. 

Vanessa lembra ainda que “as mulheres têm suas redes de apoio, feminismo, coisas que nos protegem e eu faço parte de todas essas rodas de apoio, mas ali para a vítima homem não tem nada. Eles se sentem desprotegidos e desamparados. No início eu pensava só em trabalhar, ajudar só mulheres, mas depois disso eu percebi que preciso focar também nessa outra parcela, que são os homens e as meninas”.  

“Meu propósito é ajudar. Ajudar mulheres que sofrem com depressão, síndrome do pânico, que tenham algum tipo de sequela grave e que não conseguem viver plenamente a sua vida, ser feliz, ter uma vida sexual feliz, porque carrega os traumas do abuso e isso é muito comum. Quero ser útil. Quero que a minha história, tudo o que eu passei, como eu superei e eu trabalho com isso na minha cabeça, possa ajudar outras pessoas a tentar, de alguma maneira superar isso. É uma marca na alma, mas tem como viver feliz, sim, a partir do momento que a gente entende que nós não somos o que nos aconteceu. Trabalhar no sentido de ver por que, o que aquilo me transformou, como posso ajudar outras pessoas”. 

Mãe de três filhos, ela conta que o mais novo nasceu em 2018. “Eu engravidei dele em 2017, logo quando eu contei os abusos pra família. O meu filho ele veio porque eu precisava mudar o foco. Sempre quis ser mãe de três e eu vi no meu filho, naquela gestação, um motivo para viver, porque acabei entrando em depressão. Eu ia carregar para o resto da minha vida. Eu contei porque a minha prima contou e é um efeito cascata, quando uma vítima conta, outras contam e depois que eu contei outras amigas contaram. É um processo que uma mulher quando conta, impulsiona outras”.