Jovens criam projeto para incentivar mulheres a ingressarem na Ciência da Computação

Quem pensa que informática é exclusivamente para homem está redondamente enganado. Cada vez mais mulheres buscam ocupar espaço neste universo antes masculino. As jovens mostram que o mundo da ciência da computação é coisa de mulher, sim, e vão à luta para se estabelecer no mercado como profissionais e romper a barreira do preconceito, que começa na banca universitária.   

Com essa determinação, criaram o projeto Katie, para desmistificar a área de computação para estudantes mulheres que desejam ingressar ou já ingressaram na graduação em Engenharias e/ou Ciência da Computação e que possuem dificuldades em acompanhar o curso ou de entendimento dos conceitos associados a esta área, como conta ao Eufemea a professora titular da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) Eliana Silva de Almeida, que coordena a iniciativa. 

“O Katie foi um projeto que surgiu o ano passado após conversas com alunas nas minhas aulas ainda na graduação em Ciência da Computação da Ufal. Conversávamos sobre o fato de ter muitos meninos e sobre discriminações que elas sofriam, onde eu procurava dar um apoio, e me mostrar à disposição”, conta a professora Eliana Almeida.  
Professora Eliana Almeida, coordena a iniciativa: “Projetos como o Katie e vários outros que existem aqui em Alagoas, no Brasil e também no mundo podem reverter essa situação”

“Daí, terminei por sugerir que se elas topassem, poderíamos fazer algo para dar apoio às meninas que ingressam no curso para que nos momentos de dificuldade com as matérias, com os estudos, elas pudessem ter com quem conversar e trocar ideias e até mesmo ter ajuda no aprendizado das disciplinas”. 

A professora relata ainda que passado o tempo, foi procurada “por um grupo de cinco meninas querendo fazer um projeto nessa temática na Ufal e perguntando se eu topava coordenar. Claro que eu topei de imediato e fomos um pouco mais além no sentido de termos um projeto de extensão na Ufal com ações nas escolas do estado, que desmistificasse a computação e a matemática, dizendo sempre que meninas também aprendem essas matérias, com o intuito de termos mais meninas não apenas na computação mas nos cursos de exatas. E assim formatamos o Katie”.  

Entre as ações de apoio, informa Eliana Almeida, “tem-se atividades que envolvem a promoção de um ambiente mais agradável e acolhedor, com palestras e roda de conversas, além de atividades para motivar alunas de ensino médio para ingressar na área da tecnologia, realizadas nas escolas com tutoria das estudantes de graduação”.  

“Claro que anterior a isso, eu já tinha uma pequena história ou uma associação com este tema pois salvo engano, eu fui a primeira alagoana doutora em computação. Tive sim professoras mulheres na minha graduação em Engenharia que me inspiraram, mas no Instituto de Computação, para as meninas do curso, acredito que tenha me tornado uma referência por passar muitos anos como única docente mulher no curso. Hoje não estou mais lá, mas sei que tem dois docentes mulheres no meio de salvo engano 45 docentes homens”.   

Estigma e desestímulo 

A educadora conta ainda que há muito preconceito em relação à presença da mulher no curso, afirma que é possível reverter esse quadro e cita o que leva muitas jovens a desistirem.  “Projetos como o Katie e vários outros que existem aqui em Alagoas, no Brasil e também no mundo podem reverter essa situação. O caminho é longo mas já percebemos um movimento muito grande nesse sentido”. 

“Vamos lembrar que em geral as meninas não são estimuladas a lidar com tecnologia, a jogar videogame ou qualquer outro jogo que aflora o espirito competitivo,  e sim a brincarem de boneca e de casinha, numa perspectiva mais sonhadora e romântica, de ser cuidadosa com as pessoas,  de ver o mundo em que se prega que o futuro da mulher é ser a dona de casa,  que precisa trabalhar para ajudar na casa,  e  ainda cuidar dos filhos”. 

Além do ambiente familiar, ressalta a professora, “quando se vai para o ambiente escolar em que a computação ainda não faz parte do base curricular, pergunto como estimular essas meninas?  Fica difícil. E como se não bastasse, ainda se cria o estigma de que carreiras como a computação, que é uma disciplina exata, é muito difícil pois é necessário um bom raciocínio lógico, concentração e objetividade e muito conhecimento de matemática”. 

No Instagram do projeto, as alunas mostram por que da existência do Katie: em 2019, apenas 12,85% das vagas nos cursos de Computação e Engenharia da Ufal foram ocupadas pro mulheres

Ela diz ainda que “as poucas que mesmo assim se aventuram por gostarem da tecnologia, chegam na universidade e já se deparam com disciplinas como cálculo, física e até mesmo lógica e programação, onde é necessário ter espírito competitivo, e aqui eu falo você competir com você mesmo, na solução dos exercícios que são postos. Daí, vêm as primeiras avaliações e muitas vezes as notas são baixas, fazendo com que elas se sintam incapazes, desestimuladas, achando que não vão conseguir superar esse momento inicial”. 

Em 2018, o número de mulheres em Engenharia e Ciências da Computação na Ufal era ainda menor: apenas 10% do total ofertado foi ocupada por elas

Para completar, muitas vezes ao chegar em casa, a liberdade para escolher ficar na frente do computador estudando, programando é retirada, sendo exigido dessas meninas que ajudem nos serviços de casa, a cuidar do irmãozinho, afinal, são meninas. Então, o caminho mais fácil é desistir do curso e seguir carreiras que não exijam tanto a base matemática e nem precisem ficar resolvendo tantos exercícios, cálculos, exercitando o raciocínio lógico. Já no caso dos meninos, eles também tiram notas baixas e possuem muitas vezes a mesma dificuldades mas  já acham que por já utilizarem bem o videogame, e estarem mais familiarizados com a tecnologia, o seu espírito competitivo já traz a autoconfiança de que as notas baixas serão superadas, e o restante do curso ficará mais fácil”, conta Eliana Almeida.    

Questionada de que forma esperam contribuir com a sociedade, com o ensino de um modo geral, ela responde: “O projeto Katie é uma ação nesse sentido. Acredito que uma forma de contribuir com a sociedade é dando o nosso exemplo e mostrando através das nossas experiências e trajetória de que é possível trabalhar nessa área. Inclusive o nome do projeto, Katie, é em homenagem a pesquisadora Katie Bouman, que é professora assistente de ciência da computação no Instituto de Tecnologia da Califórnia e se destacou recentemente por ser uma das pessoas responsáveis pela reprodução da primeira imagem de um buraco negro”.   

Professora Eliana Almeida

E os resultados vêm. “Apesar de ser um projeto com menos de um ano de execução, fizemos algumas ações em uma escola pública, de ensino médio, e outras instituições de ensino superior. As ações variam desde palestras motivacionais a oficinas para aprendizagem de linguagem de programação e rodas de conversa sobre o tema”.

“Os resultados destas ações foram descritos em artigos e submetido a dois eventos nacionais, o primeiro Simpósio Brasileiro de Mulheres na STEM, promovido pelo ITA, e o segundo foi o WIT – Women in Information Technology, que é uma iniciativa da Sociedade Brasileira de Computação (SBC) para discutir os assuntos relacionados a questões de gênero e a Tecnologia de Informação (TI) no Brasil”, diz Eliana Almeida, que se aposentou, mas continua na Ufal como professora voluntária na Faculdade de Medicina (Famed), participa de dois programas de mestrado, o de Modelagem Computacional de Conhecimento, onde orienta um aluno, e o Mestrado Profissional em Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia para Inovação (Profinit), onde oriento cinco mulheres e um homem”. 

Segundo ela, o que tem despertado nas mulheres o interesse pela Ciência da Computação em linhas gerais “é a presença da tecnologia em nossas vidas. E, claro, que a existência de toda essa tecnologia depende e muito do trabalho dos cientistas da computação e é uma área onde existem oportunidades profissionais excelentes. A questão no caso das mulheres é a trajetória até chegar em um curso de graduação, bem como os desafios a serem enfrentados durante o curso e o ambiente de trabalho que ainda é dominado por homens”. 

No portal criado por elas no Instagram (@katie.ufal) dão dicas e informações sobre os vários sistemas e programas

Atualmente, as jovens tentam integrar o projeto Meninas Digitais. “É um programa que teve início no Mato Grosso em 2011, coordenado pela Secretaria Regional da SBC de lá. Em 2015 a SBC institucionalizou este programa como de interesse da comunidade nacional. O nosso projeto Katie, segue a mesma linha deste programa, que é divulgar a área de Computação e despertar o interesse de estudantes das escolas para que conheçam melhor a área e, desta forma, motivá-las a seguir carreira em Computação. E suas ações também são diversificadas e vão desde oferta de minicursos e oficinas à  realização de palestras com estudantes e profissionais que já atuam na área compartilhando suas experiências, etc. E por ter sido institucionalizado, hoje este programa tem um evento anual que faz parte da programação do congresso nacional da SBC”. 

“Ainda não integramos pois, no nosso caso, começamos oficialmente no ano passado, mas é uma pretensão nossa ter a chancela da SBC e, se tudo der certo, ser um projeto parceiro das Meninas Digitais. Os critérios de seleção se resumem basicamente a ter as ações e atividades em consonância com o Meninas Digitais e a chancela da SBC que é fundamental”.  

A equipe básica do projeto Katie hoje conta com cinco estudantes, as que começaram e estão lá cadastradas. “Mas nos eventos esta participação é bem maior, inclusive com participação de meninas de outras instituições. Os cursos que focamos são de exatas, ou os da área de STEM (Sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). O projeto ainda tem na sua equipe básica mais duas professoras, além de mim, e uma ex-aluna nossa da computação, que hoje tem cargo técnico no Núcleo de Tecnologia da Informação da Ufal e pretende fazer o seu doutorado neste tema de Mulheres na STEM”, ressalta Eliana Almeida. 

Piadinhas por ser mulher 

Kelly Bianca Araújo Silva, 20, cursa Ciências da Computação há dois anos. Ela conversou com o Eufemea a quem contou o que a levou à área.   

Kelly Bianca Araújo se apaixonou pela Computação depois de fazer um curso técnico o Ifal: “Muitas vezes elas se sentem pressionadas a escolher as áreas mais “femininas”, pois isso é o que a sociedade impõe”

“O que me levou foi o curso técnico em informática que eu fiz no IFAL [Instituto Federal de Alagoas]- Campus Rio Largo. Ele me mostrou várias oportunidades e novas áreas que eu poderia seguir, além de todos os conhecimentos adquiridos”, ela revela. 

A mudança de planos sobre a carreira que gostaria de seguir veio justamente do curso técnico. “No ensino médio eu sempre quis fazer Nutrição ou alguma área da saúde. Quando terminei, eu passei para o Ifal, nunca foi a minha opção mas eu quis experimentar um pouco dessa nova área, e assim comecei a gostar de computação”, conta Kelly. 

“Ainda temos muitas dificuldades por sermos mulheres, ouvimos algumas piadinhas e ações de alguns alunos. Já presenciei de um certo professor, obviamente não são todos, a maioria dos professores apoia a gente por tá no curso e tenta nos ajudar”.  

Kelly relata ,sobre as dificuldades no curso. “Algumas vezes se sentimos muito incapacitadas, um pouco sobre a falta de motivação mesmo e por não conseguir fazer alguma tarefa que algum menino se sai melhor, mas a gente tem que ser forte e lutar para que isso não aconteça com as próximas meninas”.  

Questionada sobre de que forma acredita que é possível vencer a barreira do preconceito e se colocar no mercado de trabalho, ela responde:  “O preconceito ainda é algo enraizado. Acabar com ele vai ser um pouco difícil, mas estamos aqui pra isso. Nós tentamos vencer essa barreira ministrando cursos, palestras, workshops e demonstrando que as meninas também podem ocupar um lugar nas áreas de STEM”.

Kelly Bianca Araújo Silva, 20 anos

A estudante diz ainda que “muitas vezes elas se sentem pressionadas a escolher as áreas mais “femininas”, pois isso é o que a sociedade impõe, e queremos que elas saibam que tem várias oportunidades no mercado de trabalho, várias mulheres fizeram grandes marcos na história da tecnologia, algumas não são lembradas, mas estamos aqui pra acabar com esse tabu, e tentar fazer  com que mais meninas consigam fazer parte dessa nova era, que é a era da tecnologia” 

“O projeto foi muito importante pra mim, ele conseguiu com que as meninas ganhassem mais visibilidade e conseguiu com que levássemos a tecnologia pra outras meninas com ações e palestras. Ele é mais importante, pelo fato que só tem meninas e a gente se apoia, se algo dá errado, sempre damos um jeito de conseguir ajudar a outra, e isso acho que é o que mais importa, o apoio, suporte que temos umas com as outras”. 

Kelly destaca como trabalho marcante no Katie “a palestra que demos no Pontal da Barra, pras meninas da Escola Silvestre Péricles. Foi muito interessante e uma ótima experiência falar sobre a área da Computação, elas ficaram muito animadas, visto que nunca tinham ouvido falar dessa área. No final elas escreveram um “Hello world” e ficaram muito felizes, inclusive queriam mais. Esse ano iríamos tentar dá outra palestra com elas aqui na Ufal”. 

Sobre o Meninas Digitais, ela fala da expectativa: “Estamos todas muito ansiosas para o evento.  Ficamos muito felizes que nosso artigo foi aceito no WIT e queremos novas parceiras, aumentar nosso networking e conhecer outras meninas que lutam como a gente nas áreas de STEM”.