Médica relata drama de lidar com a morte de paciente com Covid: “Misto de tristeza, raiva e frustração”

A realização do sonho de se formar em Medicina chegou  com um desafio que Camila Loredana, de 26 anos, não imaginava jamais enfrentar: lidar com o medo do desconhecido, no tratamento e cuidados de pacientes contaminados pelo novo coronavírus. Da cidade de Fronteiras, no Estado  do Piauí, ela mora atualmente em São Paulo, onde faz residência médica em Infectologia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP).

Quando a pandemia se espalhou pelo mundo não deu outra, Camila foi convocada a atuar na linha de frente do combate da Covid-19 e hoje relata o drama que é ver paciente morrer vítima da doença e ela ter que dar a notícia à família.   

“O Institudo Central do HCFMUSP virou um centro de referência para pacientes com a Covid-19, e então basicamente vários funcionários, dentre eles nós (residentes) fomos “convocados” a atuar na linha de frente de combate a essa pandemia. Fomos escalados pra trabalhar ou no pronto-socorro, ou nas enfermarias ou nas UTIs, com estágios mudando a cada mês e trabalhando em regime de plantão de 12 horas”, ela conta.  

Camila diz que receberam treinamento especial. “Fomos treinados com técnicas de paramentação e desparamentação corretas, e também para atender os casos mais graves. Tem sido uma rotina estressante e cansativa, mas o hospital nos dá o suporte necessário e como colegas nós nos ajudamos mutuamente. Isso faz com que as coisas sejam mais fáceis”, diz.  

Noiva, ela revela que os pais moram no Piauí e ela seguiu para o Rio Grande do Norte, onde cursou Medicina na UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), seu sonho desde a infância. Em 2018 se formou e partiu para São Paulo em busca da especialização.   

“Não me lembro exatamente quando comecei a desejar ser médica, mas desde criança falava que era meu sonho. Cresci e o sonho de entrar na faculdade e me formar se tornou ainda mais forte e graças a Deus e aos meus pais eu consegui realizar esse sonho”.  

Do sonho, veio o desafio lançado com a pandemia. “Nunca imaginei que durante a residência médica, na verdade em algum momento da minha carreira médica, iria viver algo assim”, afirma Camila, que fala sobre medo.  

“A princípio não tive medo, eu (e acredito que meus colegas residentes em infectologia também) me senti realizada de não somente ter a oportunidade de atuar na linha de frente de algo histórico, mas também e principalmente ajudar a cuidar de pessoas e ajudar a salvar vidas. Porém, conforme as coisas foram acontecendo e vi conhecidos e colegas (médicos e outros profissionais de saúde) também ficarem doentes, pacientes graves e tantas mortes, tive medo por minha família, por meus amigos e também por mim”.  

Vida e morte: frente a frente 

E ela segue relatando o drama enfrentado no hospital, onde vida e morte estão muitas vezes frente a frente. “Nunca tinha parado para pensar como o profissional de saúde arrisca sua vida todos os dias, ainda mais diante de uma doença desconhecida, e isso me chocou”.  

Camila diz que um dos episódios que a deixaram em choque se passou num grupo de bate papo.  

“Teve um episódio que abriu meus olhos para isso. Temos um grupo de WhatsApp com todos os residentes em infectologia do HCFMUSP e um certo dia alguém sugeriu que fizéssemos uma lista com nomes e telefones de contatos de emergência caso algo nos acontecesse. Precisei de um tempo pra assimilar isso. É realmente algo difícil de lidar. Agora acho que estou melhor com isso, o importante é sempre estar atento e não relaxar nos cuidados e medidas de proteção”.  

Acompanhar a morte de um paciente é um drama que Camila descreve como frustrante. 

“Já tive a oportunidade de cuidar de diferentes pessoas, homem ou mulher, várias idades, gente com ou sem fatores de risco (morbidades prévias). Infelizmente vi muitas pessoas falecerem, e independente da idade ou da condição de saúde de base, sempre é difícil. Não há nada pior que perder um paciente. É um sentimento misto de tristeza, raiva e frustração”.  

Aos pacientes internados com a Covid-19, Camila diz que o mais difícil é a solidão. “Eu os atendo e/ou os acompanho durante a internação hospitalar, seja na enfermaria ou na UTI.  Acredito que o mais difícil para os pacientes, e também para a família deles, é a solidão que essa doença causa. Os pacientes não podem receber visitas por questão de segurança, o contato é feito por telefone (ligações, videochamadas), e isso torna tudo mais doloroso, a saudade aperta e o que todos mais desejam é reencontrar as pessoas que amam”, ela relata.  

Aos médicos e profissionais da linha de frente, Camila fala da angústia do momento de dar a notícia da piora do quadro de saúde do paciente por telefone ou da morte.  

“Pra gente também é difícil dar notícias por telefone. Não é fácil dar a notícia a um filho que seu pai piorou ou precisou ser intubado sem olhar no olho, sem pegar na mão, sem demonstrar fisicamente empatia. Acho que todos sentem medo de que algo pior aconteça, mas cada pessoa tem sua forma de demonstrar. Com certeza o que todos pedem é que melhorem e possam voltar para casa”.  

“É algo que te marca pra sempre. Já tive que fazer muitas vezes, e por mais vezes que você faça nunca fica mais fácil. Não é algo que você aprende nos livros ou que tem uma fórmula mágica, é doloroso e você sofre junto com a família. É um dos grandes ensinamentos da medicina. É algo que te torna mais humano”.  

O Eufemea questionou se tem algum caso especificamente que tenha marcado a vida dela.  “Sim. Tenho minha paciente que eu chama de “meu xodó”. Ela foi uma guerreira, passou mais ou menos dois meses internada, foi intubada e traqueostomizada, em muitos momentos chegamos a achar que ela não saíiia dessa, mas ela deu a volta por cima e hoje está bem e em casa junto com sua família”.  

Quanto as dificuldades ainda enfrentadas pelos médicos no tratamento dos pacientes de Covid-19  nos hospitais, Camila diz: “Acredito que ainda existem muitas dificuldades, desde a falta de infraestrutura de alguns lugares até o cansaço dos profissionais, não falo apenas de cansaço físico, mas também mental e emocional”.  

A profissional conta ainda das consequências emocionais de tanto desgaste  que sofre. “Não é natural pra mim ver colegas na posição de pacientes. Além de ser muito difícil lidar com isso, você pensa “poderia ser eu…”, então você precisa trabalhar muito bem seu psicológico. Tive crises de choro e ansiedade, pensei em desistir algumas vezes, mas com o apoio profissional, da família e amigos as coisas vão melhorando. Todo dia é um dia a ser vencido”.  

Camila lança apelo às pessoas que começam a relaxar nos cuidados com a Covid-19, mas ao mesmo tempo faz a crítica àqueles que insistem em ignorar a letalidade do vírus. 

“Eu não sei se é ignorância ou falta de empatia. Talvez seja melhor acreditar na primeira opção, porque dói imaginar que as pessoas sejam tão egoístas a ponto de esquecer que já perdemos milhares de vidas para essa doença. Sei que muitos precisam trabalhar, que existem questões econômicas e sociais importantes, mas o que eu não consigo entender é agir como se nada tivesse acontecendo, as aglomerações desnecessárias, a não adesão ao uso de máscaras e outros cuidados”.  

“Peço que as pessoas continuem se cuidando e acreditando que as coisas vão melhorar, e que tenham respeito por todas as pessoas doentes, pelas famílias que perderam entes queridos e pelos profissionais que trabalham na linha de frente”.  

Para você, já é possível pensar num “novo normal?”, questionou o Eufemea. “Acho que já estamos vivendo um “novo normal” e temos que aprender a lidar com isso. As coisas ainda vão melhorar, mas por enquanto temos que continuar nos cuidando e cuidando do próximo”, diz Camila.