Fora da “modinha musical”, mulheres se unem por empoderamento e igualdade no palco: “Não desista”

A música sempre foi paixão de Íris Ventura, Jucélia Gomez e Kelly França, que batalham desde cedo para se colocarem profissionalmente no mundo musical. O que elas não imaginavam é que teriam de enfrentar tantas barreiras para fazer valer o amor pela arte e dela se manterem.  Entraves como o simples fato de ser mulher, assédio, falta de apoio e mais ainda a desvalorização financeira, são barreiras que precisam transpor todos os dias num mercado de muitas dificuldades, principalmente quando a música que tocam foge dos padrões atuais, como relatam ao Eufêmea. 

Íris canta xote, não veio de família de artistas e diz que a dificuldade de se colocar no mercado é “não ser do grupo da “modinha”, principalmente. As pessoas não valorizam um trabalho bem elaborado e voz que não precise de filtro, e tenho dificuldades em entrar nesse mercado. Percebo pouca ou nenhuma procura. Ou caso sim, em sua grande maioria, propostas indecentes para poder conseguir espaço e ser conhecida”. 

Ser mulher e música não é empecilho, considera Íris, que aponta para a “falta de entendimento e oportunidade que não é dada”. 

“Existem cantoras excelentes em Alagoas, e que estão em suas casas, sem oportunidades, e quando surge alguma, querem pagar qualquer valor, desmerecendo nossos trabalhos. Se prestar bem atenção nas programações locais, uma média de 80% das apresentações são masculinas”.  

Íris diz que nunca ouviu diretamente um não no fechamento de algum contrato por ser mulher, mas indiretamente sim. “Ficavam de dar a devolutiva, mas nunca retornavam”. Quanto ao cachê, ela relata que existe diferença.  

“Com certeza. R$ 1.000,00 para homem e R$ 600,00 para mulher. Um exemplo claro que vivenciei. Eu não saio da minha residência por qualquer trocado, porque é uma profissão como qualquer outra, onde tem ensaios, gastos, estudos, e merecemos respeito. Respeito esse sendo financeiro ou pessoal, que pelo fato de estar no palco não quer dizer que estou à venda ou à disposição”, diz Íris, segundo a qual também já sofreu assédio sexual. “Já. Pedidos de saídas (pessoalmente, telefone ou redes sociais) e por não sair, não fechava contrato”. 

Íris Ventura
Íris Ventura canta xote: ““Estou com uma produção (que tem mulheres também engajadas e trabalhando esse empoderamento)”

Superar essas barreiras é desafio diário. “Estou com uma produção (que tem mulheres também engajadas e trabalhando esse empoderamento), onde nas redes sociais e nos projetos, que a mulher pode e sabe desempenhar esse trabalho tão gratificante nos palcos e com muito talento como os homens. Não quero e nem vou jamais desmerecer os homens, mas sim, buscar oportunidades que merecemos. 

Sem conseguir se manter da música, Íris revela que tem outra atividade, já que não tive a oportunidade que almejei”.  

Nesse período de pandemia, ela conta que a situação piorou. “Ficou bem difícil, apesar de ter outra atividade. Porque não penso só em mim, mas também na equipe que faz parte da minha banda. Pais e mães que precisam desse trabalho para manter o mínimo de dignidade familiar”, afirma, ao dizer que para a retomada vem fazendo lives para divulgar o trabalho, “já que ainda estamos em um momento tão delicado e difícil”. E os planos são de “trabalhar com música autoral, gravação de clipe e fortalecer a minha marca”. 

Às mulheres que amam a música, mas temem entrar nesse mercado, ela orienta.

“Não somos coitadas, frágeis e nem tampouco incapazes. Somos mulheres que lutam diariamente para conquistar o espaço que queremos e merecemos ocupar, de forma igualitária e justa. Dificuldades e barreiras sempre existirão, mas cabe a cada uma focar, acreditar e realizar. Não desistam, porque no final, o sucesso é garantido”. 

Superação 

Há 21 anos no mundo da música, Jucélia Gomez canta todos os ritmos. Ela conta que começou fazendo backs em estúdio, e que não veio de família de músicos.  

“Hoje visam muito o que está na moda no momento, eu sou típica cantora de baile. Não há empecilho algum em ser mulher e musicista. O que há são alguns empresários que ainda insistem em pleno século 21”, ela afirma, ao dizer que a superação vem com o resultado do que leva ao seu público.
Jucélia Gomez: “Devemos buscar nossos sonhos, de forma honesta e transparente, sem querer derrubar o colega de profissão”

“Apresentando um trabalho de qualidade, dentro da minha proposta de banda. Sou sempre bem tratada. Não, não há diferença”, ela pontua em relação ao homens na música. 

Quando ao assédio, Jucélia afirma que sempre tem.  “Algumas festas aparece alguma pessoa alcoolizada, tira uma graça, paquera, homem e mulher também”, conta. 

“Devemos buscar nossos sonhos, de forma honesta e transparente, sem querer derrubar o colega de profissão. Infelizmente não são atitudes machistas que desencorajam as mulheres e sim a desonestidade de alguns “profissionais”. Tanto homens quanto mulheres”, afirma Jucélia, que sobrevive da música. 

Jucélia Gomez
Jucélia canta em bailes e conta que começou fazendo backs em estúdio

Sem apoio governamental, ela diz a situação é muito complicada. “Não temos ajuda dos nossos governantes, fomos os primeiros a parar e seremos os últimos a voltar. No momento não sabemos quando iremos retomar nossas atividades, datas sendo reagendadas e algumas canceladas. É aguardar o momento de voltar à ativa”. 

Desvalorização financeira 

Kelly França está há oito anos no mercado musical. Ela canta forró e toca triângulo. “Meu pai era cantor de vaquejada e meu tio canta sertanejo”, ela conta, ao dizer que “a dificuldade pra se colocar no mercado da música hoje é a ´questão financeira, porque em Alagoas o cantor, o músico, ele é muito desvalorizado, na verdade”. 

Kelly França: “Eu estou cantando em alguns lugares, os que estão pagando melhor, porque tem muitos lugares que têm nome e estão pagando um valor lá embaixo”

Ser mulher e ser cantora, diz Kelly, não foi empecilho. “Foi só no início, quando comecei a cantar em aniversário, casamento. Houve uma dificuldade porque no início tudo é difícil. Mas discriminação por ser mulher eu nunca sofri, não. Nunca tive problema com fechamento de contrato por ser mulher, nunca passei por nenhum constrangimento. E a questão do cachê por ser cantora e ter outro cantor sendo homem, também nunca teve essa diferença não. É porque, na verdade, em Alagoas tem mais cantor do que cantora”. 

Sobre assédio, ela diz que sofreu. “Quando estava cantando recebi aquelas olhadas diferentes, às vezes o pessoal manda bilhetinho, aí eu acho que é música, mas não é. Ou então quando vai tirar uma foto, coloca a mão na cintura, no ombro, onde não é para ser colocado”. 

Artesã, Kelly confessa que para quem tinha uma outra renda durante a pandemia “não foi tão ruim assim. “Mas para quem não tinha, para quem só vivia de música, foi péssimo. Tem muitas pessoas que eu conheci, músicos passando fome. Cantor sempre trabalha em outra profissão. Eu sou artesã, tem outro que é motorista, cabeleireiro, mas quem não tinha outra renda sofreu bastante”. 

“A retomada está sendo difícil, porque a maioria dos lugares está pagando barato, muito abaixo do que a gente cobrava, e está assim, se você não for outro vai, por um valor bem abaixo do  normal. Na verdade, eles estão explorando”. 
Kelly França está há oito anos no mercado musical, canta forró e diz que o cantor, o músico, é muito desvalorizado

Quanto aos planos para o retorno, ela diz que agora “é esperar mais um pouco. Eu estou cantando em alguns lugares, os que estão pagando melhor, porque tem muitos lugares que têm nome e estão pagando um valor lá embaixo. Então eu prefiro não ir. Continuar cantando em poucos lugares, ganhando um valor razoável e tentar me manter. É esperar mais um pouco até o ano que vem para fazer shows em prefeituras, casamentos, shows maiores, revela Kelly”. 

Kelly França

A mensagem para as mulheres que querem ser cantora que Kelly transmite é que “elas não desistam, vão em frente, porque não é fácil, tudo no início não é fácil,  mas tem que pensar positivo, que vai dar tudo certo e seguir em frente, nunca desistir”.