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Professora do Ceará dá aula na porta da casa de estudantes com deficiência durante a pandemia

O desafio veio com a chegada da pandemia do novo coronavírus e a suspensão das aulas presenciais. O que fazer para não deixar nenhum estudante com deficiência sem conteúdo didático? A maioria, com acesso limitado à internet. A professora Noadias Castro Braz, da comunidade Betânia do Cruxati, no município de Itapipoca (CE), teve uma ideia e decidiu arregaçar as mangas. Elaborou um projeto, apresentou na escola e hoje, pelo menos duas vezes por semana, vai na casa dos alunos para ensiná-los as atividades de grafomotricidade, relacionadas às habilidades gráficas e de escrita, e dinâmicas lúdicas, além daquelas relacionadas à psicomotricidade e afetivo-social.  

Da porta das casas, para que não haja risco de contágio aos estudantes, ela transmite os conteúdos. Para entregar o material, é necessário ir de carro, mas para atender a um dos alunos que mora mais distante, ela vai de bicicleta toda semana que mora distante, um esforço que a professora traduz num: “Viva a inclusão!”.  

“Sou professora do Atendimento Educacional Especializado-AEE na Escola de Educação Básica Alonso Pinto de Castro, uma escola pública municipal. Os alunos que atendo frequentam as salas regulares de ensino do quarto ao nono ano e no contraturno são  atendidos no AEE”, conta Noadias Castro. 

Na porta das casas, o aviso das famílias dos estudantes preocupadas já que são todos do grupo de risco para o novo coronavírus. Foto:  @vaguinhofotografia 

Ela contou ao Eufemea que “no início  da pandemia,  com o fechamento das escolas, houve uma preocupação com o acompanhamento aos meus alunos com deficiência visto que além das dificuldades de comunicação via internet  de alguns alunos  também  existia  a preocupação nos cuidados de saúde  uma vez que os mesmos pertencem ao grupo de risco”. 

Foi então que decidiu elaborar um projeto. “Escrevi um projeto, fui em busca de parceiros na área educacional”, ela informa. Os parceiros, conta ainda a professora, são o núcleo gestor da escola que analisa as ações e avalia o projeto; a área da comunicação, “radialista que através de recados no seu programa estimula  a execução das atividades com as famílias; duas agentes de saúde  comunitária  que dão assistência de estimulação nas atividades e registro da produção das mesmas”. 

Da área da saúde, a professora teve a ajuda de um microbiologista, “que me orienta para higienização e esterilização de todo o material pedagógico  produzido e enviado às famílias, assim como ao uso de EPI [Equipamento de Proteção Individual] e protocolos  da OMS  [Organização Mundial da Saúde] para as minhas abordagens domiciliares. Uma enfermeira que orienta as famílias  pelo WhatsApp acerca dos cuidados com a Covid-19 e uma psicóloga que atende via zap possíveis casos de distúrbios de ordem emocional .  E assim nasceu o projeto  ‘AEE na Quarentena”, ela diz. 

Nas atividades, os alunos desenvolvam  a coordenação, psicomotricidade, raciocínio lógico, afetivo emocional

O material didático, de acordo com Noadias Castro, “é  todo elaborado individualmente para atender as especificidades de  cada  aluno. Com atividades  que desenvolvam  a coordenação, psicomotricidade, raciocínio lógico, afetivo emocional e  etc. As atividades são  entregues por mim esterilizadas e higienizadas, embaladas e etiquetadas  nas residências dos meus alunos”. 

As atividades são  entregues pela professora Noadias Castro esterilizadas e higienizadas, embaladas e etiquetadas  nas casas dos alunos

A educadora informa que atende 13 alunos com várias  deficiências: síndrome  de down, com paralisia cerebral com perda de fala e com movimentos  motores a melhorar, com TDAH e deficiência  intelectual;  multideformação congênita com preservação cognitiva e com deficiência intelectual 

“Tenho alunos que atendo on-line, onde eles já estando com as apostilas fazemos juntos a atividade daquele dia, tenho alunos que não  têm internet  e têm apenas o telefone com antena rural  e são  acompanhados pelas agentes de saúde  da área, que fazem o incentivo à execução  da atividade, registram com fotos  e enviam para mim”. 

Segundo ela, três dos estudantes atendidos “não  têm ou a  comunicação via internet ou com grandes dificuldades  de convívio familiar que eu faço  o atendimento na frente de suas casas tomando todos os cuidados da OMS e sem nenhum contato ou aproximação física. Na verdade, não  é  na calçada,  é  na rua mesmo, na frente  das suas casas”. 

Percurso é feito por Noadias Castro muitas vezes de bicicleta, até a casa de um dos alunos

Os atendimento em geral, ressalta a professora, “são  de segunda a sexta e os que acontecem na frente de suas residências  são: segunda feira, onde vou de bicicleta para uma localidade chamada Pedrinhas, a 5Km aproximadamente onde mora meu aluno, e quarta-feira, onde atendo dois alunos aqui em Betânia mesmo”. 

O esforço, a dedicação e o amor ao trabalho que realiza são recompensados com os resultados.  

“O resultado está  sendo surpreendente. Como os conteúdos  são  elaborados  para cada aluno individualmente  e levando em conta o nível de aprendizagem e habilidades  a serem trabalhadas, as famílias têm se empenhado e executam junto com os estudantes as atividades. Tenho uma mãe de uma aluna que pediu  que eu elaborasse  uma apostila para ela pois queria estudar  junto com a filha, e hoje elas estudam juntas”. 

A chegada da pandemia, que se espalhou pelo mundo, obrigando a mudanças em todos os aspectos da vida, foi um abalo para a profissional da educação, mas o ensinamento que ela considera ter seu lado positivo. 

“Nunca tinha passado pela cabeça  ter que viver  tal situação, mas  tenho aprendido mais do que ter ensinado. Os meus alunos a cada dia me ensinam que na vida devemos respeitar as diferenças, olhar de forma mais positiva para as  dificuldades da vida e tentar superá-las”. 

Quanto à retoma das aulas presenciais, a professora informa que no Ceará  ainda  continuam suspensas, “com possibilidades  de retorno no mês  de setembro, não  definitivo ainda,  com alguns  cumprimentos de pareceres  e protocolos sendo  elaborados e discutidos. Tudo indica que um ensino híbrido será implantado, porém os alunos com deficiência e comorbidades serão  mantidos na metodologia atual. Portanto, a perspectiva do AEE na Quarentena perdurar por todo  o ano letivo é  grande”, informa Noadias Castro. 

As crianças que possuem acesso à internet recebem aulas on-line, também dadas pela professora
“Nós  seres humanos não  fomos feitos  para vivermos  isolados.  Aprendemos na interação com o meio, com o outro, enfim. Mas temos uma grande capacidade  de adaptação e superação. Então  acredito  muito que nesses tempos de afastamento  de sala de aula temos  encontrado ou reencontrado  outra  maneira de ressignificar  a aprendizagem.  O professor capacitado e disposto a promover uma ação realizará maravilhas na sua comunidade”. 
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Estilo de vida Interna Notícias

Atletas alagoanas relatam vitórias em competições, lições e paixão pelo esporte

Superação, força e determinação marcam as mulheres alagoanas que se dedicam às práticas esportivas. Nelas, as mulheres encontram um estilo de vida movido ao amor. O Eufemea traz relatos de atletas alagoanas que são vitoriosas e que contam sobre a rotina, os prêmios e os ensinamentos que esporte oferece.

A jornalista Deisy Nascimento, de 37 anos, encontrou a paixão pela atividade física ainda quando criança. “Quando cresci era só musculação e algumas atividades aeróbicas, mas quando comecei a fazer treino funcional me convidaram para participar de uma competição de trekking”.

Deisy Nascimento durante uma competição

Deisy confessa que foi com a cara e a coragem. Entretanto, o que ela encontrou no trekking foi aventura, contato com a natureza e superação. 

“Depois dessa prova comecei a me esforçar mais para ficar no mesmo nível dos meninos da minha equipe na corrida. Investi nos treinos e comecei a me destacar no esporte”, contou.

Atualmente, Deisy faz trekking e trail run. Mas não deixa a musculação e a corrida de fora. Para treinar, Deisy tenta encaixar os horários dos treinos nos intervalos do trabalho. “Tento treinar logo cedo ou pela noite e nos finais de semana”.

A paixão de Deisy pela atividade fez com que ela conquistasse títulos importantes. “Conquistei títulos por equipe como o campeonato do Circuito Alagoano de Trekking em 2018 pela equipe dos Bombeiros na categoria hard de 25km, em 2019 pela equipe Os Klouros também na categoria hard de 25km no mesmo campeonato, em ambos a equipe conquistou o lugar mais alto do pódio. Em 2018  recebi o troféu de atleta destaque da Liga Alagoana de Aventura”, destacou.

Outras boas colocações foram: por dois anos seguidos, Deisy Nascimento junto à equipe Os Klouros obteve a 3ª colocação geral na categoria extreme até 25km da Liga Alagoana de Aventura.

Paixão pela corrida

Juliana Jardim, 40 anos, é dentista. Mas é fora do consultório que ela encontra no esporte a terapia diária dela. “Quando servi ao exército como dentista temporária, de 2005 a 2010, descobri uma grande paixão, a corrida, então comecei a participar de algumas competições e assim me motivar cada vez mais a treinar”.

Juliana durante uma competição

No ano de 2008, Juliana foi convocada pela Comissão de Desportos do Exército (CDE) para compor a equipe feminina de corrida de orientação do EB.

Em 2016, juntamente com o marido e dois amigos, Juliana formou uma equipe de trekking chamada Vamo que Vamo para participar da Liga Alagoana de Aventura, conseguindo conquistar o bicampeonato 2016/2017 na categoria Adventure. “Em 2017, começamos a participar de competições de corrida de aventura e em 2018 iniciamos no triathon”.

“O ano de 2019 foi sem dúvida um ano glorioso para mim, pois participei do Ironman 70.3 e juntamente com minha equipe de corrida de aventura, a TREMITERRA, conquistamos o bicampeonato nordestino de Aventura 2018/2019 e a Copa Brasil de Corrida de Aventura”, contou.

Para ela, o esporte a desafia e a fortalece. “Me torno cada dia mais resiliente para enfrentar as dificuldades da vida. Através da atividade física eu descubro cada dia que meus limites eu ainda não conheço, e que posso ir muito além do que imagino”.

A ninja das corridas

A operadora de caixa Severina Alves de Lima, de 39 anos, é conhecida como Sil Ninja no mundo das corridas. Ela se apaixonou pela corrida após conhecer uma mulher dentro de um ônibus que a contou que corria por lazer com um grupo e a convidou.

“Eu era sedentária”, contou. “Mas fui e gostei. Me inscrevi na primeira corrida do doador Hemopac e ganhei o 1º lugar no 2,km”.

Sil com seu manto

Segundo Sil, daí o amor só aumentou. Ela conheceu o trekking e depois o trail run. A operadora de caixa tem uma grande lista de vitórias quando se fala em corrida.

Mas para garantir a boa forma, a rotina dela começa cedo. Todos os dias, Sil acorda às 4h da manhã para treinar. “Às 7:00h preciso estar pronta para ir ao trabalho”. E Sil continua seu treino indo para o trabalho. Ela caminha da praça Centenário, no bairro do Farol, até a Levada. 

Para ela, ser atleta é ser um estilo de vida. O fato de ser mulher, de acordo com Sil, não muda nada. “As mulheres não sabem a força e garra que tem”. Por fim, Severina disse que escutou que ela estava velha para a rotina. “Mas ser feliz é o que verdadeiramente importa”.
Esporte traz ensinamentos

A professora de zootecnia do Instituto Federal de Alagoas (IFAL), Carla Cordeiro, de 38 anos, não tem histórico de atleta na família. Mas o amor pelo esporte surgiu de maneira natural. “Nunca tive incentivo para tal, mas sempre pratiquei o esporte desde criança por hobby”.

Carla Cordeiro, de 38 anos

Musculação, muaythai, corrida, ciclismo, natação (triathlon) e corrida de aventura. Essas são algumas das atividades físicas que ela pratica. “O remo também entra pra conta”, acrescenta.

Carla confessa que já foi uma atleta mais dedicada e competitiva, já que antes tinha mais tempo. “Mas depois de ser mãe, precisei me organizar quanto a isso e me cobrar menos no quesito competitividade, mas ainda consigo sentir o prazer de estar em alguns pódios”.

A atividade física ajuda Carla que se considera ansiosa e enérgica. “O esporte sempre me ajudou a controlar a ansiedade. Acredito que o esporte também é essencial para o crescimento pessoal, uma vez que nos faz entender que sempre temos chance de melhorar, superar obstáculos e vencer”.

Por fim, Carla disse “que o esporte também traz a compreensão de que dias ruins existem, que também temos perdas, mas que se não desistirmos já somos vencedores”.
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Cotidiano Interna Notícias

Major do Exército é exposta em redes sociais por militares após revelar ser mulher trans

Major do Exército Brasileiro, Renata Gracin, 38 anos, é uma mulher trans e desde que decidiu  fazer sua transição de gênero, passou a ser alvo de troca de mensagens entre os militares. Renata mora em São Paulo, é divorciada e era a major Seixas, efetiva na corporação. Em julho, ao postar uma foto do antes e depois em suas redes sociais Facebook e Instagram, quando até aí era major Seixas, ela se viu às voltas com os ataques e divulgou uma nota. 

“Hoje acordei com minhas redes sociais lotadas de notificações. O dia que eu sabia que iria chegar, chegou! Estou sendo exposta em grupos de WhatsApp do Brasil todo, o que não me abala. Sou uma lutadora da causa LGBTQI+ e defensora dos direitos humanos. Sou Major do Exército Brasileiro e minha luta continua”, relatou. 

O Eufemea conversou com Renata, que contou sua história de sofrimento até superar uma depressão. “Há 3 anos entrei em depressão por causa dessas questões de gênero. Quando senti que não aguentava mais lutar sozinha, busquei ajuda médica no Exército, onde tive todo o apoio psicológico e psiquiátrico”, ela conta. 

“Há cerca do dois anos entrei em licença médica para tratamento da depressão e ao mesmo tempo iniciei minha transição de gênero. Passei a tomar hormônios e neste ano fiz diversas cirurgias plásticas pra adequar o corpo ao que minha mente buscava. Passei a viver como uma mulher trans, já havia informado ao comando e no meio desse processo todo houve um vazamento de informações para os grupos de WhatsApp de militares do Brasil todo”. 

Ela conta que o comando do Exército a acolheu e em nenhum momento se colocou de forma preconceituosa em relação a ela.  

“Não houve ameaça de expulsão. A intenção do comando foi me acolher e buscarmos uma solução para algo ainda novo no Exército. Eu também tinha consciência de que não poderiam me expulsar, pois sou militar de carreira, com 20 anos de serviço e tenho meus direitos garantidos por ter passado em um concurso público. Outro fator importante é que atualmente transfobia é crime, isso me deu coragem e força”, conta Renata, que é formada no curso de Infantaria da Aman (Academia Militar das Agulhas Negras). 

O mesmo não ocorreu em relação aos colegas de farda. “Depois que me assumi ao comando, fui chamada algumas vezes no quartel onde estou lotada e pediram que enviasse alguns documentos. Creio que alguns militares se surpreenderam ao me ver toda transformada e com isso espalharam a notícia”, diz. 

Segundo ela, o Exército sabia sobre sua transição de gênero. “A parte médica do Exército sempre soube desde o início quando busquei ajuda. Para o comando operacional, decidi revelar quando meu processo de transição já estava bem avançado, às vésperas de realizar a cirurgia de mamoplastia de aumento. Já soube de um caso de uma sargento há cerca de 10 anos, porém ela foi reformada (aposentada). Sou a primeira oficial combatente a se assumir transexual”. 

Renata  diz ainda esperar contribuir com a mudança de comportamento das pessoas. “As Forças Armadas seguem as leis existentes em nosso país. Quem precisa mudar o pensamento são as pessoas. Eu espero contribuir na luta contra o preconceito, porém sou uma das pioneiras nesse caminho, então pra mim tudo também é novidade. Tento fazer o que estiver ao meu alcance. Busco estudar sobre esses assuntos para que eu tenha melhores condições de contribuir nessa luta”, afirma. 

Na rede social, Renata fala sobre a criminalização da transfobia e busca combater preconceito

Como lhe tratavam no Exército antes de saber que você é trans e o que mudou quando você se revelou, questionou o Eufemea.  

“Antes, do ponto de vista social, eu era um homem branco, hétero, classe média. Tenho consciência que eu era uma pessoa privilegiada e ainda sou. Me tratavam de forma respeitosa e profissional, pois ninguém sabia da minha condição que eu guardava em segredo. Depois que me assumi, ainda não voltei ao trabalho. Só saberei como será o tratamento depois que retornar ao trabalho em breve”. 

A major conta também que ainda não foi preciso acionar a Justiça para ter o direito assegurado. Estamos no meio de todo esse processo. Creio que não será necessário. Os tempos são outros”, ela afirma ao falar sobre o apoio que vem recebendo nas suas redes sociais. “Significou bastante. Eu não esperava tanto apoio. Isso me deu muita força e coragem pra continuar”. 

Renata conta ainda que sempre se percebeu diferente. “Eu sempre soube que era diferente desde criança, mas eu cresci em uma família de militares, bastante preconceituosa, aprendi que tinha que esconder. Parte da minha família aceitou, outra parte não”.  

Ela também agradece as mensagens de apoio que vem recebendo de todo País

Quant o às demais mulheres trans, que também sofrem preconceito, ela diz ser difícil transmitir uma mensagem. “É um conselho muito difícil. Conheço centenas de mulheres trans não assumidas que ao longo de suas vidas constituíram famílias e têm suas profissões. Não é uma decisão fácil. Por isso luto por uma sociedade sem preconceito onde essas pessoas possam se assumir cedo e não tenham que passar por isso mais tarde. Para as que já são assumidas eu desejo muita força e coragem. Busquem seu auto aperfeiçoamento para que possam ocupar cada vez mais lugares no mercado de trabalho e em nossa sociedade”. 

Quanto ao retorno ao Exército, ela revela: “Ainda estou na ativa e estamos vendo como será o meu retorno. Agora que já transicionei a depressão acabou e já estou em condições de retornar ao trabalho. É natural que os militares mais velhos, no decorrer da carreira sejam direcionados para funções administrativas e pretendo seguir esse caminho, ocupando funções inerentes ao posto de major”. 

Sobre viver uma rotina normal no quartel, Renata fala que tudo é incerto. “Ainda não sei, é tudo muito novo, mas no Exército existem organizações onde servem homens e mulheres indistintamente, como um hospital militar, por exemplo. Acredito que no momento em que estamos hoje, unidades assim sejam melhores do que em unidades operacionais formadas basicamente só por homens. Sou uma pessoa comum, que sofri, passei uma grande depressão e decidi ser feliz”. 

Renata: “Sou uma pessoa comum, que sofri, passei uma grande depressão e decidi ser feliz”

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Inspiradoras Interna Notícias

Mulher cuida de esposo que sofreu grave acidente e ficou acamado: “Nosso amor é do tipo raro”

Um grave acidente de carro modificou a vida de um casal que mora em Fortaleza, Ceará. O garçom Wesley Duarte, de 27 anos, estava dirigindo um carro quando cochilou e bateu em um poste. O veículo ficou totalmente destruído e por causa do acidente, Wesley teve  traumatismo cranioencefálico. De 2019 pra cá, a esposa dele, Caroline Pereira, de 28 anos, teve que viver uma nova vida. Ela cuida de Wesley todos os dias, já que ele ficou com sequelas: não anda, não escuta, não fala.

Os dois estão juntos há 13 anos e se conheceram ainda na escola. “Nós estudamos juntos”, contou. Hoje, eles têm duas filhas, uma de seis anos e outra de quatro. 

Foto antes do acidente. Foto: Cortesia

O acidente de Wesley aconteceu em março de 2019 e deixou Caroline desesperada na época. “Eu estava em casa com as meninas quando o acidente aconteceu. Wesley foi levado para o hospital e ficou em coma”.

“Foi desesperador o que aconteceu. Eu perdi 10 quilos, não conseguia comer”, disse ao Eufemea.

Caroline disse que quando recebeu a notícia de que Wesley iria ficar com sequelas, ela não acreditou. A fé dentro dela de que ele vai melhorar permanece até hoje. E essa fé faz com que ela continue cuidando dele.

“Chorei muito quando soube disso, mas eu sempre falei para mim que ia cuidar dele para sempre”, comentou.

Antes do acidente, Caroline disse que Wesley era um bom pai e marido. “A gente era muito feliz, tínhamos nossa briga como todo casal, mas fazíamos as pazes logo”. 

Abaixo você encontra um bilhete dele para ela.

Hoje, a vida de Caroline se resume ao marido. Por causa da situação, ela não pode trabalhar já que ele precisa de cuidados 24h por dia. “Ele depende de mim pra tudo: de um banho a uma troca de fralda”.

A rotina dela começa às 5h da manhã para tirar a comida que ele come por sonda da geladeira. “Aí espero esfriar e tenho que alimentar ele sempre às 6h que é a primeira refeição do dia”. O dia só termina para ela às 23h. “Ele não consegue fazer nada só”.

A situação não é fácil. Caroline não trabalha e conta com a ajuda de um tio de Wesley que paga a metade do aluguel.

Porém, segundo ela, não há outra saída. “Eu tenho que cuidar da minha família. É ruim vê quem a gente ama nessa situação, vê que de uma hora pra outra tudo mudou. De vez em quando choro muito e peço forças para que Deus me ajude”.

O amor dela com Wesley se transformou em um tipo de amor raro, segundo ela. “Amor de esposa, de mãe. Um amor que cuida sem se preocupar se ele irá passar o resto da vida assim ou não”.

As filhas a ajudam como podem. E até ensinam o pai. “Elas dão muito amor, ensinam as vogais para ele”.

Apesar de tudo isso, o amor dos dois ultrapassa todas as barreiras. Caroline disse ao Eufemea que acredita que “nada acontece por acaso” e que no momento que algo acontece, só se enxerga a dor. “Falta clareza e serenidade para compreender”.

E deixou uma mensagem para quem está passando por uma situação difícil. “Mas de nada vale desesperar. Jamais perca a esperança. Faça algo que mantenha o ânimo, pois tudo tem uma solução, você só ainda não consegue enxergar. Tenha forças para lutar”, finalizou.
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Estilo de vida Interna Notícias

Jovens criam projeto para incentivar mulheres a ingressarem na Ciência da Computação

Quem pensa que informática é exclusivamente para homem está redondamente enganado. Cada vez mais mulheres buscam ocupar espaço neste universo antes masculino. As jovens mostram que o mundo da ciência da computação é coisa de mulher, sim, e vão à luta para se estabelecer no mercado como profissionais e romper a barreira do preconceito, que começa na banca universitária.   

Com essa determinação, criaram o projeto Katie, para desmistificar a área de computação para estudantes mulheres que desejam ingressar ou já ingressaram na graduação em Engenharias e/ou Ciência da Computação e que possuem dificuldades em acompanhar o curso ou de entendimento dos conceitos associados a esta área, como conta ao Eufemea a professora titular da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) Eliana Silva de Almeida, que coordena a iniciativa. 

“O Katie foi um projeto que surgiu o ano passado após conversas com alunas nas minhas aulas ainda na graduação em Ciência da Computação da Ufal. Conversávamos sobre o fato de ter muitos meninos e sobre discriminações que elas sofriam, onde eu procurava dar um apoio, e me mostrar à disposição”, conta a professora Eliana Almeida.  
Professora Eliana Almeida, coordena a iniciativa: “Projetos como o Katie e vários outros que existem aqui em Alagoas, no Brasil e também no mundo podem reverter essa situação”

“Daí, terminei por sugerir que se elas topassem, poderíamos fazer algo para dar apoio às meninas que ingressam no curso para que nos momentos de dificuldade com as matérias, com os estudos, elas pudessem ter com quem conversar e trocar ideias e até mesmo ter ajuda no aprendizado das disciplinas”. 

A professora relata ainda que passado o tempo, foi procurada “por um grupo de cinco meninas querendo fazer um projeto nessa temática na Ufal e perguntando se eu topava coordenar. Claro que eu topei de imediato e fomos um pouco mais além no sentido de termos um projeto de extensão na Ufal com ações nas escolas do estado, que desmistificasse a computação e a matemática, dizendo sempre que meninas também aprendem essas matérias, com o intuito de termos mais meninas não apenas na computação mas nos cursos de exatas. E assim formatamos o Katie”.  

Entre as ações de apoio, informa Eliana Almeida, “tem-se atividades que envolvem a promoção de um ambiente mais agradável e acolhedor, com palestras e roda de conversas, além de atividades para motivar alunas de ensino médio para ingressar na área da tecnologia, realizadas nas escolas com tutoria das estudantes de graduação”.  

“Claro que anterior a isso, eu já tinha uma pequena história ou uma associação com este tema pois salvo engano, eu fui a primeira alagoana doutora em computação. Tive sim professoras mulheres na minha graduação em Engenharia que me inspiraram, mas no Instituto de Computação, para as meninas do curso, acredito que tenha me tornado uma referência por passar muitos anos como única docente mulher no curso. Hoje não estou mais lá, mas sei que tem dois docentes mulheres no meio de salvo engano 45 docentes homens”.   

Estigma e desestímulo 

A educadora conta ainda que há muito preconceito em relação à presença da mulher no curso, afirma que é possível reverter esse quadro e cita o que leva muitas jovens a desistirem.  “Projetos como o Katie e vários outros que existem aqui em Alagoas, no Brasil e também no mundo podem reverter essa situação. O caminho é longo mas já percebemos um movimento muito grande nesse sentido”. 

“Vamos lembrar que em geral as meninas não são estimuladas a lidar com tecnologia, a jogar videogame ou qualquer outro jogo que aflora o espirito competitivo,  e sim a brincarem de boneca e de casinha, numa perspectiva mais sonhadora e romântica, de ser cuidadosa com as pessoas,  de ver o mundo em que se prega que o futuro da mulher é ser a dona de casa,  que precisa trabalhar para ajudar na casa,  e  ainda cuidar dos filhos”. 

Além do ambiente familiar, ressalta a professora, “quando se vai para o ambiente escolar em que a computação ainda não faz parte do base curricular, pergunto como estimular essas meninas?  Fica difícil. E como se não bastasse, ainda se cria o estigma de que carreiras como a computação, que é uma disciplina exata, é muito difícil pois é necessário um bom raciocínio lógico, concentração e objetividade e muito conhecimento de matemática”. 

No Instagram do projeto, as alunas mostram por que da existência do Katie: em 2019, apenas 12,85% das vagas nos cursos de Computação e Engenharia da Ufal foram ocupadas pro mulheres

Ela diz ainda que “as poucas que mesmo assim se aventuram por gostarem da tecnologia, chegam na universidade e já se deparam com disciplinas como cálculo, física e até mesmo lógica e programação, onde é necessário ter espírito competitivo, e aqui eu falo você competir com você mesmo, na solução dos exercícios que são postos. Daí, vêm as primeiras avaliações e muitas vezes as notas são baixas, fazendo com que elas se sintam incapazes, desestimuladas, achando que não vão conseguir superar esse momento inicial”. 

Em 2018, o número de mulheres em Engenharia e Ciências da Computação na Ufal era ainda menor: apenas 10% do total ofertado foi ocupada por elas

Para completar, muitas vezes ao chegar em casa, a liberdade para escolher ficar na frente do computador estudando, programando é retirada, sendo exigido dessas meninas que ajudem nos serviços de casa, a cuidar do irmãozinho, afinal, são meninas. Então, o caminho mais fácil é desistir do curso e seguir carreiras que não exijam tanto a base matemática e nem precisem ficar resolvendo tantos exercícios, cálculos, exercitando o raciocínio lógico. Já no caso dos meninos, eles também tiram notas baixas e possuem muitas vezes a mesma dificuldades mas  já acham que por já utilizarem bem o videogame, e estarem mais familiarizados com a tecnologia, o seu espírito competitivo já traz a autoconfiança de que as notas baixas serão superadas, e o restante do curso ficará mais fácil”, conta Eliana Almeida.    

Questionada de que forma esperam contribuir com a sociedade, com o ensino de um modo geral, ela responde: “O projeto Katie é uma ação nesse sentido. Acredito que uma forma de contribuir com a sociedade é dando o nosso exemplo e mostrando através das nossas experiências e trajetória de que é possível trabalhar nessa área. Inclusive o nome do projeto, Katie, é em homenagem a pesquisadora Katie Bouman, que é professora assistente de ciência da computação no Instituto de Tecnologia da Califórnia e se destacou recentemente por ser uma das pessoas responsáveis pela reprodução da primeira imagem de um buraco negro”.   

Professora Eliana Almeida

E os resultados vêm. “Apesar de ser um projeto com menos de um ano de execução, fizemos algumas ações em uma escola pública, de ensino médio, e outras instituições de ensino superior. As ações variam desde palestras motivacionais a oficinas para aprendizagem de linguagem de programação e rodas de conversa sobre o tema”.

“Os resultados destas ações foram descritos em artigos e submetido a dois eventos nacionais, o primeiro Simpósio Brasileiro de Mulheres na STEM, promovido pelo ITA, e o segundo foi o WIT – Women in Information Technology, que é uma iniciativa da Sociedade Brasileira de Computação (SBC) para discutir os assuntos relacionados a questões de gênero e a Tecnologia de Informação (TI) no Brasil”, diz Eliana Almeida, que se aposentou, mas continua na Ufal como professora voluntária na Faculdade de Medicina (Famed), participa de dois programas de mestrado, o de Modelagem Computacional de Conhecimento, onde orienta um aluno, e o Mestrado Profissional em Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia para Inovação (Profinit), onde oriento cinco mulheres e um homem”. 

Segundo ela, o que tem despertado nas mulheres o interesse pela Ciência da Computação em linhas gerais “é a presença da tecnologia em nossas vidas. E, claro, que a existência de toda essa tecnologia depende e muito do trabalho dos cientistas da computação e é uma área onde existem oportunidades profissionais excelentes. A questão no caso das mulheres é a trajetória até chegar em um curso de graduação, bem como os desafios a serem enfrentados durante o curso e o ambiente de trabalho que ainda é dominado por homens”. 

No portal criado por elas no Instagram (@katie.ufal) dão dicas e informações sobre os vários sistemas e programas

Atualmente, as jovens tentam integrar o projeto Meninas Digitais. “É um programa que teve início no Mato Grosso em 2011, coordenado pela Secretaria Regional da SBC de lá. Em 2015 a SBC institucionalizou este programa como de interesse da comunidade nacional. O nosso projeto Katie, segue a mesma linha deste programa, que é divulgar a área de Computação e despertar o interesse de estudantes das escolas para que conheçam melhor a área e, desta forma, motivá-las a seguir carreira em Computação. E suas ações também são diversificadas e vão desde oferta de minicursos e oficinas à  realização de palestras com estudantes e profissionais que já atuam na área compartilhando suas experiências, etc. E por ter sido institucionalizado, hoje este programa tem um evento anual que faz parte da programação do congresso nacional da SBC”. 

“Ainda não integramos pois, no nosso caso, começamos oficialmente no ano passado, mas é uma pretensão nossa ter a chancela da SBC e, se tudo der certo, ser um projeto parceiro das Meninas Digitais. Os critérios de seleção se resumem basicamente a ter as ações e atividades em consonância com o Meninas Digitais e a chancela da SBC que é fundamental”.  

A equipe básica do projeto Katie hoje conta com cinco estudantes, as que começaram e estão lá cadastradas. “Mas nos eventos esta participação é bem maior, inclusive com participação de meninas de outras instituições. Os cursos que focamos são de exatas, ou os da área de STEM (Sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). O projeto ainda tem na sua equipe básica mais duas professoras, além de mim, e uma ex-aluna nossa da computação, que hoje tem cargo técnico no Núcleo de Tecnologia da Informação da Ufal e pretende fazer o seu doutorado neste tema de Mulheres na STEM”, ressalta Eliana Almeida. 

Piadinhas por ser mulher 

Kelly Bianca Araújo Silva, 20, cursa Ciências da Computação há dois anos. Ela conversou com o Eufemea a quem contou o que a levou à área.   

Kelly Bianca Araújo se apaixonou pela Computação depois de fazer um curso técnico o Ifal: “Muitas vezes elas se sentem pressionadas a escolher as áreas mais “femininas”, pois isso é o que a sociedade impõe”

“O que me levou foi o curso técnico em informática que eu fiz no IFAL [Instituto Federal de Alagoas]- Campus Rio Largo. Ele me mostrou várias oportunidades e novas áreas que eu poderia seguir, além de todos os conhecimentos adquiridos”, ela revela. 

A mudança de planos sobre a carreira que gostaria de seguir veio justamente do curso técnico. “No ensino médio eu sempre quis fazer Nutrição ou alguma área da saúde. Quando terminei, eu passei para o Ifal, nunca foi a minha opção mas eu quis experimentar um pouco dessa nova área, e assim comecei a gostar de computação”, conta Kelly. 

“Ainda temos muitas dificuldades por sermos mulheres, ouvimos algumas piadinhas e ações de alguns alunos. Já presenciei de um certo professor, obviamente não são todos, a maioria dos professores apoia a gente por tá no curso e tenta nos ajudar”.  

Kelly relata ,sobre as dificuldades no curso. “Algumas vezes se sentimos muito incapacitadas, um pouco sobre a falta de motivação mesmo e por não conseguir fazer alguma tarefa que algum menino se sai melhor, mas a gente tem que ser forte e lutar para que isso não aconteça com as próximas meninas”.  

Questionada sobre de que forma acredita que é possível vencer a barreira do preconceito e se colocar no mercado de trabalho, ela responde:  “O preconceito ainda é algo enraizado. Acabar com ele vai ser um pouco difícil, mas estamos aqui pra isso. Nós tentamos vencer essa barreira ministrando cursos, palestras, workshops e demonstrando que as meninas também podem ocupar um lugar nas áreas de STEM”.

Kelly Bianca Araújo Silva, 20 anos

A estudante diz ainda que “muitas vezes elas se sentem pressionadas a escolher as áreas mais “femininas”, pois isso é o que a sociedade impõe, e queremos que elas saibam que tem várias oportunidades no mercado de trabalho, várias mulheres fizeram grandes marcos na história da tecnologia, algumas não são lembradas, mas estamos aqui pra acabar com esse tabu, e tentar fazer  com que mais meninas consigam fazer parte dessa nova era, que é a era da tecnologia” 

“O projeto foi muito importante pra mim, ele conseguiu com que as meninas ganhassem mais visibilidade e conseguiu com que levássemos a tecnologia pra outras meninas com ações e palestras. Ele é mais importante, pelo fato que só tem meninas e a gente se apoia, se algo dá errado, sempre damos um jeito de conseguir ajudar a outra, e isso acho que é o que mais importa, o apoio, suporte que temos umas com as outras”. 

Kelly destaca como trabalho marcante no Katie “a palestra que demos no Pontal da Barra, pras meninas da Escola Silvestre Péricles. Foi muito interessante e uma ótima experiência falar sobre a área da Computação, elas ficaram muito animadas, visto que nunca tinham ouvido falar dessa área. No final elas escreveram um “Hello world” e ficaram muito felizes, inclusive queriam mais. Esse ano iríamos tentar dá outra palestra com elas aqui na Ufal”. 

Sobre o Meninas Digitais, ela fala da expectativa: “Estamos todas muito ansiosas para o evento.  Ficamos muito felizes que nosso artigo foi aceito no WIT e queremos novas parceiras, aumentar nosso networking e conhecer outras meninas que lutam como a gente nas áreas de STEM”. 

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Cotidiano Interna Notícias

Elas contam como se viram nos 30 para cuidar dos filhos: “As pessoas ainda romantizam a maternidade solo”

Criar os filhos sozinha não é tarefa fácil. Conciliar a criação com o trabalho, o lar e a vida pessoal é praticamente fazer milagre todos os dias. Afinal, tudo isso demanda tempo e entrega. Sem rede de apoio, nem a presença do pai, tudo fica mais difícil. 

O Eufemea ouviu duas mulheres que são mães e que contam como lidam com a jornada de criar os filhos sozinhas.

A rotina da jornalista Thayanne Magalhães, 35 anos, começava cedo antes da pandemia. Às 6h30, Thayanne saía para deixar os filhos Gabriel Magalhães, 7 anos e Vicente Magalhães, 3, na escola para que ela fosse ao trabalho.

“Meio-dia eu ia buscar os dois. Duas vezes por semana levo os dois na natação, às quintas Gabriel tem terapia. Nos finais de semana sempre programo praia, casa da minha mãe no interior ou algo que os dois fiquem felizes”, contou.

A rotina de Thayanne é cansativa e ela diz que não conta com a ajuda presencial do pai. Segundo ela, quando ela e o pai das crianças casaram, o maior desejo da vida dele era ser pai.

“Um desejo que durou os primeiros três anos do nosso filho mais velho. Fui parir Vicente sozinha enquanto via fotos dele nas redes sociais, festejando a nova vida em bares”, comentou.

A jornalista não tem uma rede de apoio que a ajude cuidar dos filhos. Por causa disso, a vida social dela acontece de maneira rara.

“Se eu precisar de ajuda, são poucas as pessoas em volta que podem cuidar dos meus filhos enquanto resolvo algo do trabalho. Vida social é algo que aprecio muito quando tenho oportunidade, porque não cabe na minha rotina encontrar os amigos todos os finais de semana ou ter uma programação que não caiba crianças”, reforçou Thayanne.

E não é só a ausência da presença física que pesa para a jornalista. Thayanne também disse que providenciou o divórcio com a pensão já estipulada. “Ele mal vê o filho mais velho, o único que ainda pergunta por ele. O caçula não tem nenhum apego. Ele me pergunta o que ele fez de errado para o pai ir embora e não querer mais ficar com ele. A pensão também não é paga como deveria”.

Thayanne cuida da casa, dos filhos, do trabalho e ainda precisa cuidar dela. E as cobranças das pessoas não páram. “As pessoas me cobram um namorado. Ainda somos vistas como infelizes sem ter um homem ao lado. Mas a que horas vou namorar? Não sinto essa necessidade.”

Ela também diz que o que a deixa inconformada é ver que as pessoas ainda romantizam a maternidade solo. “Somos chamadas de guerreiras, fortes, invencíveis. Não somos! Já ouvi muitos conselhos de mães mais velhas que falam com orgulho que não foram na Justiça exigir pensão e deram conta até do financeiro sozinhas. Não bastasse toda exaustão física e emocional”.

Rede de apoio do pai e da mãe

A fotógrafa Dominique Lages, de 32 anos tem uma filha chamada Lara, de 6 anos. Ela contou ao Eufemea que sempre foi mãe solo, já que o pai registrou apenas a filha. Antes da maternidade, Dominique trabalhava como fotógrafa em baladas, mas com a chegada de Lara ficou impossível. “Eu não podia trocar a noite pelo dia e isso sempre foi muito difícil pra mim.”

Dominique disse que sempre deixou aberto o espaço para que o pai visse a filha, mas ele só a via uma vez por mês ou quando queria. “Nunca fiz questão que ele desse nada”. Até que depois, ela decidiu entrar na Justiça para garantir o direito de pensão alimentícia para a filha. “Ele paga R$ 200 de pensão, mas ele não pagava sempre. Praticamente todo mês eu tinha que ir na Defensoria Pública para dizer que ele não pagava”.

Hoje em dia, Dominique é fotógrafa infantil e consegue sustentar a filha. “Eu ralo muito para manter casa, pagar transporte, pagar escola”, disse.

Para dar conta de tudo, ela tem a ajuda da mãe e pai. “Se não fosse minha mãe e meu pai, eu não teria dado conta”. 

Esse apoio, diz, faz toda diferença. “Fui sempre mãe e pai a vida inteira. A referência de pai da minha filha é meu pai”. A fotógrafa relembrou um momento que a filha participou de uma festinha do dia dos pais na escola e que ela saiu da festa com uma lembrancinha nas mãos, triste. “Aí eu perguntei pra ela o que estava acontecendo, e ela me perguntou para quem eu daria a lembrancinha. E eu questionei para quem ela queria entregar o presente, e ela disse que para o vovô”. A lembrança dói até hoje em Dominique. 

Dominique se vira nos 30 e disse que até hoje ouve piada de que “deu o golpe do baú no ex-companheiro”. “Imagine, eu dando golpe para ganhar R$ 200”, comentou.

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Inspiradoras Interna Notícias

Na arte da escrita, jornalista encontra refúgio para superar doença degenerativa: “Desistir, jamais!”

Aos 60 anos de idade, a jornalista Olívia de Cássia Correia de Cerqueira está prestes a lançar o segundo livro, Palavras sem Nexo, poesias de autoria própria. Portadora de Ataxia spinocerebelar  ou doença de Machado-Joseph, uma síndrome rara e no caso dela, hereditária, Olívia mantém na escrita e na leitura a força para seguir em frente e superar o desafio que é lidar com uma doença que causa desordem neurológica pouco conhecida, de origem genética e hereditária.   

É nas palavras que ela se expressa e segue a vida compartilhada com seus animais de estimação (gatos e cachorros) e as plantas, cultivadas em um jardim que cuida em frente à casa onde mora, um espaço bucólico, no centro de Maceió, cortado pela linha férrea e cujo silêncio só costuma ser quebrado pelo apito do trem.  

Quem entra na casa logo percebe a paixão de Olívia pela leitura. Tudo lembra as letras, desde os livros, a até a antiga máquina de datilografia que ela preserva intacta. Também ama fotografa e das mãos dela já saíram fotos de encher os olhos. Olívia é, sem dúvida, uma apreciadora das artes. O Eufemea conversou com a jornalista e escritora que conta sua história e fala sobre o lançamento do segundo livro, impresso com recursos próprios, como informa. 

“Palavras sem Nexo é o  segundo livro, mas é de poesia, ou pensamentos que fui rascunhando ao longo do tempo, desde a adolescência.  Como eu digo na apresentação do livro, Palavras sem nexo é um apanhado de rabiscos que fui ‘desenhando’ ao longo dos meus anos, desde a adolescência até bem recentemente. Alguns textos foram datilografados e publicados logo que entrei na faculdade, artesanalmente, (Daquilo que vivo e sinto ou Vivências), no COS da UFAL, junto com Mário Lima, jornalista, que estava lançando seu livro de poesias”, conta Olívia. 

“Confesso que fui ousada e muito sem noção em achar que aquilo que coloquei no papel seria poesia, mas arrisquei e estou arriscando agora, para preencher meus dias de aposentada por invalidez, ou incapacidade permanente, como se diz agora, que me exige ações cerebrais, para que eu não atrofie de vez”.  

Ao leitor, ela diz: “Não pense que vai  encontrar uma obra de arte, ou que esteja alimentando paixões não correspondidas, tal qual na mocidade, quando as ilusões eram presença permanente  em minha vida. As minhas ilusões amorosas já foram perdidas, contornadas e substituídas. O que está ali é apenas uma ferramenta de expressão. Foi editado e revisado pela poeta viçosense, Merandolina Pereira de Melo, que também é psicóloga”. 

O primeiro livro lançado por Olívia foi Mosaicos do Tempo. “Fala da minha história, desde a infância, umas pinceladas sobre a Ataxia, a doença que vem acometendo minha família ao longo dos anos, séculos, eu diria, meus conflitos de gerações com minha mãe, um pouco da minha árvore genealógica, até minha separação. A  campanha foi idealizada pelo jornalista Odilon Rios e sua esposa, Ana Cláudia Laurindo, que é  escritora e teve grande envolvimento da sociedade alagoana,  a quem sou eternamente grata a todos que contribuíram”. 

Ambos os livros, ressalta a jornalista, “foram editados na CBA, Gráfica e Editora, que por coincidência é de propriedade de Carlos Fabiano Costa Barros, sobrinho-neto de Maria Mariah, jornalista e professora palmarina, primeira  mulher a vestir calças compridas em União (risos)”. 

O lançamento Palavras sem Nexo ainda está em stand by, mas Olívia diz que está divulgando nas suas redes sociais e talvez faça o lançamento virtual, já que está complicado o presencial com essa pandemia”. 

Um caderno e uma caneta 

“Eu sempre gostei de escrever, naquele tempo tínhamos os cadernos, onde colocávamos  tudo o que se passava conosco. Tive influência da amiga Eliane Aquino que fazia contos com as amigas e seus paqueras, pedia os cadernos dela emprestado e fazia os meus. Uma vez mostrei para uma amiga vizinha e ela me disse que era tudo besteira aquilo que eu escrevia. Talvez ela tivesse razão,  Mas como eu sempre fui rebelde e fazia tudo ao contrário, continuei saindo com um caderno e uma caneta e quando estava com os amigos, eu escrevia aquilo que chamo de poesia”. 

O amor pelos livros é uma paixão antiga: “Gostaria de influenciar mais pessoas a escreverem, principalmente os jovens; que os vejo muito alheios”, diz Olívia

Olívia segue fazendo uma verdadeira viagem no tempo sobre sua paixão pela escrita. “Os amores platônicos foram muitos na infância e adolescência e eu era muito chorona, porque me sentia rejeitada pelos meus paqueras, aí minha válvula de escape era desabafar com as amigas e colocar aquilo tudo no papel, só assim eu me aliviava”. 

Para ela, o fato de ser jornalista “ajuda, sim, nesse processo de escrita literária, pois além de gostar de escrever, embora depois da aposentadoria tenha ficado um pouco ausente da escrita, sou leitora voraz,  amo meus livros, fico olhando minha estante e me dá satisfação  quando os vejo e fico pensando no mundo de conhecimentos que eles podem me dar, e isso me facilita um pouco. Escrever significa colocar pra fora o que às vezes não consigo dizer em palavras, é uma catarse”. 

“Às vezes você pensa que o que escreve não tem muita importância, mas de vez em quando vem alguém e te diz: “me identifiquei com o que você escreveu” e é bom a gente saber que não está só, na sua maneira e pensar. Gostaria de influenciar mais pessoas a escreverem, principalmente os jovens; que os vejo muito alheios”.   

“A doença da família” 

Entre livros, plantas, passeios que ela sempre gostou de fazer, veio a notícia que desde muito cedo acreditava que aconteceria com ela: a doença que acomete a família havia batido a sua porta também.  

“Sou portadora da Ataxia spinocerebelar  ou doença de Machado-Joseph, uma síndrome rara e no meu  caso, hereditária. Muitos anos se passaram desde que eu comecei a discorrer e ler sobre Ataxia e o que é conviver com ela, e sobre os impedimentos e limitações que os portadores passam no dia-a-dia”.  

Olívia conta que depois de escrever o primeiro livro,  Mosaicos do Tempo e procurar informações sobre a doença, “comecei um contato com portadores do problema e recebi o convite de Priscila Fonseca, então presidente da Associação Brasileira dos Portadores das Ataxias Hereditárias e Adquiridas, organizadora de um livro em outro estado, só sobre o problema, para escrever um depoimento sobre o que é conviver com essa doença rara”.   

À época do depoimento, ela revela, “eu ainda não tinha o diagnóstico e também não aparentava tanto ter a doença, mas já sentia alguns efeitos. Muita gente na minha idade, inclusive vários parentes meus, já não conseguem se locomover sem a ajuda de um andador ou de uma cadeira de rodas, devido aos tombos e quedas que são frequentes”.  

A ataxia, relata a jornalista, “é ainda um mistério e começou a ser estudada na década de 1970.  Na minha família, antigamente, todos só conheciam o problema como “a doença da família” ou a “maldição da família Siqueira/Cerqueira, Paes, Correia, Vieira” e há bem pouco tempo é que descobrimos o nome científico. Segundo os cientistas teve início na Ilha dos Açores, em Portugal, onde os casamentos consanguíneos foram acontecendo de forma desordenada”.  

E assim foi também com os familiares dela. “Da mesma forma aconteceu na minha família. Meus pais eram primos-irmãos, assim como seus ascendentes e os relacionamentos foram se perpetuando e a doença se alastrando como se fosse uma maldição mesmo. Dizem que o portador de Ataxia é um revoltado, rebelde, depressivo, mas tem muito portador usando de bom humor para aliviar as nossas dores e os nossos incômodos”.  

Quem convive diariamente com um portador de ataxia, no estágio mais avançado, diz Olívia, “sabe do que eu estou falando. Foi assim com minha mãe e meu irmão Paulinho, que cuidaram do meu pai, em União dos Palmares, até o último suspiro. Há muito preconceito ainda na sociedade para com as pessoas que têm esse problema, tanto que muita gente esconde a doença e diz que é apenas uma labirintite”.  

“Hoje encaro meu problema com suavidade, procurando ter dias de ocaso mais descomplicados e serenos. Só precisei do teste genético, para fins de aposentadoria, no INSS, mas eu já sabia, muito antes disso, que eu tinha sido contemplada com a “herança maldita da família”.   Convivi com meu pai, acompanhei tudo de perto e tinha consciência dos meus sintomas e limitações”.  

A jornalista conta ainda como estão seus dias convivendo com a doença, mas diz que desistir está fora de seu pensamento. “Eu quase não escrevo como antigamente, fazendo anotações prévias num caderno. Minha caligrafia está cada dia mais feia, pela falta de coordenação que a Ataxia traz. Se eu penso em desistir? Jamais, estarei sempre na luta, até quando o Senhor me chamar”. 

“Esse momento de pandemia, está sendo de reflexões, muita leitura, estou fazendo reforma em casa, procurando não pensar nesse pesadelo mundial.  O que digo sempre quando me perguntam é que não desistam do seu sonho, por  mais que ele pareça utópico”. 
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Estilo de vida Interna Notícias

Comandado por mulheres, Garça Torta ganha novo local de relaxamento e terapias

A Garça Torta, em Maceió, é conhecida pelo bom astral e contato com a natureza. A partir desse sábado (08), a Garça ganha um novo local repleto de paz, relaxamento, delicadeza aliado ao cuidado com o corpo e a saúde mental. O Na Garça é um convite a um ambiente acolhedor que oferta terapias, além da beleza e estímulos que propiciam conexão consigo e com a natureza.

A boa música mistura-se com o som do mar! A sensação do clima bucólico traz lembranças daquela casa da vó do interior. A jornada Na Garça é uma experiência de três momentos. No Relaxe Na Garça, as terapias conduzem a um estado de contemplação e harmonia. Dentre as técnicas deste momento estão a acupuntura, reike, escalda pés, meditação e um lanchinho vegano.

Já o segundo momento é o Yogamar, uma sessão terapêutica com hatha Yoga, reiki, terapia do som e degustação de chá. E para quem quer se olhar mais profundamente o Mergulhe Na Garça é outra opção interessante, pois através de meditação thetahealing, reprogramação e leitura de tarô traz a tranquilidade que o corpo e mente precisam.

As sócias Bruna Albuquerque que tem formação em Reiki Sistema Usui e Karuna Reiki, Thetahealing, Terapia do som (tigela de cristal) e Cura prânica, bem como a Graziele Lima – fisioterapeuta, instrutora de pilates, osteopata e acupunturista – coordenam o Na Garça e estruturaram o local para trazer um diferencial aos que procuram vivenciar novas e incríveis experiências.

Segundo Bruna Albuquerque, a intenção além de buscar o relaxamento mental e corporal é o de despertar o afeto e o aconchego. “Estamos vivenciando momentos difíceis de muita correria, estresse e agora a pandemia da Covid-19 que mudou muito a vida das pessoas. Queremos ajudar aqueles que buscam um equilíbrio espiritual e despertar um novo olhar e valorização do que é simples. O Na Garça traz a potência da saúde integral e esse olhar mais terno para acessar a beleza que nos habita. E para concluir o atendimento há aquele lanche vegano especial ”, explicou.

O acesso ao Na Garça é limitado e feito por agendamento. Os atendimentos são individuais ou em dupla, imersos na natureza e seguindo os protocolos de segurança. Informações: (82) 99640-4679. Instagram: @nagarcaa

*com informações da Assessoria

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Cotidiano Interna Notícias

Mulheres lançam movimento online contra candidaturas laranjas na política; saiba mais

Se depender de um grupo de pré-candidatas de vários estados do país, a eleição de 2020 não será a mesma. Elas criaram uma mobilização virtual contra compra de votos em julho e fizeram sucesso nas redes sociais. Agora, para esta quinta-feira (06), às 18h, elas preparam mais uma mobilização, mas desta vez sobre a prática das candidaturas laranjas, que elas visam combater.

Maria Tavares. Foto: Gustavo Sarmento

Encabeçada pela alagoana e pré-candidata a vereadora, Maria Tavares, a mobilização do primeiro manifesto teve participação de cerca de 100 mulheres de quase todas as regiões do Brasil.

“O grupo feminino hoje já aglutina 150 mulheres. Vamos fazer nosso segundo manifesto para combater à prática das candidaturas laranjas que são as mulheres que vendem seus nomes às chapas partidárias, para que estas consigam atingir a cota de 30% de participação feminina, prevista em Lei eleitoral”, destacou Maria.

A idealizadora das ações disse que acredita que o sucesso do manifesto que será ainda maior pois, segundo ela, “a máquina eleitoral espúria usa-nos como insumo eleitoral, como se fôssemos aquém do protagonismo político, o que jamais aceitarei e tenho certeza que isso mexerá com várias outras mulheres”.

“Chega de tapar o sol com a peneira!”

Cris Kumaira é pré-candidata pelo Partido Novo em Belo Horizonte, Minas Gerais, e vai lutar para ser vereadora. Ela tem participado de movimentos de mulheres de todo o Brasil, que lutam por um país mais justo, sem corrupção e uma eleição mais limpa este ano. 

Cris Kumaira. Foto: @omagaquefez
“Esta prática é um mal que deve ser combatido, já que colabora para a manutenção da mulher às sombras da política. Todas as mulheres que aderirem ao movimento irão publicar um material exclusivo em suas redes sociais, ao mesmo tempo, para que juntas, possam ecoar essa causa”, explicou.

Para a pré-candidata, o movimento surgiu para chamar atenção para práticas políticas que enfraquecem a democracia brasileira. “Primeiro lançamos “Não venda seu voto” e agora combateremos a candidatura laranja. Chega de tapar o sol com a peneira!”.

De Santa Catarina para o movimento
Jaína Atanásio

Em Balneário Camboriú, em Santa Catarina, Jaína Atanásio dos Santos, pré-candidata a vereadora também vai participar do movimento hoje. Para ela, o movimento feminino traz questões importantes que precisam ser amplamente mostradas e debatidas com a sociedade. 

“Tais como, os manifestos #NãoVendaSeuVoto e #NãoaCandidaturaLaranja que norteiam a participação feminina na política, como uma nova realidade necessária ao cumprimento legal e, mais que isso, a demonstração da capacidade da mulher em pensar e fazer política”, comentou.

Candidaturas laranjas fragilizam o processo

A pré-candidata a prefeita de Bezerros, em Pernambuco, Lucielle Laurentino afirmou que a mulher que é líder e mobiliza pessoas em prol da mudança, ou de uma causa, ela talvez nem saiba, mas ela é política.

Lucielle Laurentino

“E como a gente quer essas mulheres na política! No momento em que essas mulheres não são vistas, ou não são notadas, isso fragiliza o processo democrático. E outras mulheres que não tem esse perfil ou até tem, se submetem a serem usadas, elas fragilizam a política”, reforçou.

Lucielle diz que a necessidade é que esse movimento inspire e impulsione mulheres que fazem, e que querem colaborar com o processo democrático com o Brasil. “Não somos contras em uma mulher ser candidata laranja e nós queremos discutir isso. Só as mulheres podem tomar essa decisão. Os homens, muitas vezes, usam essas mulheres para serem candidatos”, finalizou.

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Cotidiano Interna Notícias

Médica relata drama de lidar com a morte de paciente com Covid: “Misto de tristeza, raiva e frustração”

A realização do sonho de se formar em Medicina chegou  com um desafio que Camila Loredana, de 26 anos, não imaginava jamais enfrentar: lidar com o medo do desconhecido, no tratamento e cuidados de pacientes contaminados pelo novo coronavírus. Da cidade de Fronteiras, no Estado  do Piauí, ela mora atualmente em São Paulo, onde faz residência médica em Infectologia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP).

Quando a pandemia se espalhou pelo mundo não deu outra, Camila foi convocada a atuar na linha de frente do combate da Covid-19 e hoje relata o drama que é ver paciente morrer vítima da doença e ela ter que dar a notícia à família.   

“O Institudo Central do HCFMUSP virou um centro de referência para pacientes com a Covid-19, e então basicamente vários funcionários, dentre eles nós (residentes) fomos “convocados” a atuar na linha de frente de combate a essa pandemia. Fomos escalados pra trabalhar ou no pronto-socorro, ou nas enfermarias ou nas UTIs, com estágios mudando a cada mês e trabalhando em regime de plantão de 12 horas”, ela conta.  

Camila diz que receberam treinamento especial. “Fomos treinados com técnicas de paramentação e desparamentação corretas, e também para atender os casos mais graves. Tem sido uma rotina estressante e cansativa, mas o hospital nos dá o suporte necessário e como colegas nós nos ajudamos mutuamente. Isso faz com que as coisas sejam mais fáceis”, diz.  

Noiva, ela revela que os pais moram no Piauí e ela seguiu para o Rio Grande do Norte, onde cursou Medicina na UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), seu sonho desde a infância. Em 2018 se formou e partiu para São Paulo em busca da especialização.   

“Não me lembro exatamente quando comecei a desejar ser médica, mas desde criança falava que era meu sonho. Cresci e o sonho de entrar na faculdade e me formar se tornou ainda mais forte e graças a Deus e aos meus pais eu consegui realizar esse sonho”.  

Do sonho, veio o desafio lançado com a pandemia. “Nunca imaginei que durante a residência médica, na verdade em algum momento da minha carreira médica, iria viver algo assim”, afirma Camila, que fala sobre medo.  

“A princípio não tive medo, eu (e acredito que meus colegas residentes em infectologia também) me senti realizada de não somente ter a oportunidade de atuar na linha de frente de algo histórico, mas também e principalmente ajudar a cuidar de pessoas e ajudar a salvar vidas. Porém, conforme as coisas foram acontecendo e vi conhecidos e colegas (médicos e outros profissionais de saúde) também ficarem doentes, pacientes graves e tantas mortes, tive medo por minha família, por meus amigos e também por mim”.  

Vida e morte: frente a frente 

E ela segue relatando o drama enfrentado no hospital, onde vida e morte estão muitas vezes frente a frente. “Nunca tinha parado para pensar como o profissional de saúde arrisca sua vida todos os dias, ainda mais diante de uma doença desconhecida, e isso me chocou”.  

Camila diz que um dos episódios que a deixaram em choque se passou num grupo de bate papo.  

“Teve um episódio que abriu meus olhos para isso. Temos um grupo de WhatsApp com todos os residentes em infectologia do HCFMUSP e um certo dia alguém sugeriu que fizéssemos uma lista com nomes e telefones de contatos de emergência caso algo nos acontecesse. Precisei de um tempo pra assimilar isso. É realmente algo difícil de lidar. Agora acho que estou melhor com isso, o importante é sempre estar atento e não relaxar nos cuidados e medidas de proteção”.  

Acompanhar a morte de um paciente é um drama que Camila descreve como frustrante. 

“Já tive a oportunidade de cuidar de diferentes pessoas, homem ou mulher, várias idades, gente com ou sem fatores de risco (morbidades prévias). Infelizmente vi muitas pessoas falecerem, e independente da idade ou da condição de saúde de base, sempre é difícil. Não há nada pior que perder um paciente. É um sentimento misto de tristeza, raiva e frustração”.  

Aos pacientes internados com a Covid-19, Camila diz que o mais difícil é a solidão. “Eu os atendo e/ou os acompanho durante a internação hospitalar, seja na enfermaria ou na UTI.  Acredito que o mais difícil para os pacientes, e também para a família deles, é a solidão que essa doença causa. Os pacientes não podem receber visitas por questão de segurança, o contato é feito por telefone (ligações, videochamadas), e isso torna tudo mais doloroso, a saudade aperta e o que todos mais desejam é reencontrar as pessoas que amam”, ela relata.  

Aos médicos e profissionais da linha de frente, Camila fala da angústia do momento de dar a notícia da piora do quadro de saúde do paciente por telefone ou da morte.  

“Pra gente também é difícil dar notícias por telefone. Não é fácil dar a notícia a um filho que seu pai piorou ou precisou ser intubado sem olhar no olho, sem pegar na mão, sem demonstrar fisicamente empatia. Acho que todos sentem medo de que algo pior aconteça, mas cada pessoa tem sua forma de demonstrar. Com certeza o que todos pedem é que melhorem e possam voltar para casa”.  

“É algo que te marca pra sempre. Já tive que fazer muitas vezes, e por mais vezes que você faça nunca fica mais fácil. Não é algo que você aprende nos livros ou que tem uma fórmula mágica, é doloroso e você sofre junto com a família. É um dos grandes ensinamentos da medicina. É algo que te torna mais humano”.  

O Eufemea questionou se tem algum caso especificamente que tenha marcado a vida dela.  “Sim. Tenho minha paciente que eu chama de “meu xodó”. Ela foi uma guerreira, passou mais ou menos dois meses internada, foi intubada e traqueostomizada, em muitos momentos chegamos a achar que ela não saíiia dessa, mas ela deu a volta por cima e hoje está bem e em casa junto com sua família”.  

Quanto as dificuldades ainda enfrentadas pelos médicos no tratamento dos pacientes de Covid-19  nos hospitais, Camila diz: “Acredito que ainda existem muitas dificuldades, desde a falta de infraestrutura de alguns lugares até o cansaço dos profissionais, não falo apenas de cansaço físico, mas também mental e emocional”.  

A profissional conta ainda das consequências emocionais de tanto desgaste  que sofre. “Não é natural pra mim ver colegas na posição de pacientes. Além de ser muito difícil lidar com isso, você pensa “poderia ser eu…”, então você precisa trabalhar muito bem seu psicológico. Tive crises de choro e ansiedade, pensei em desistir algumas vezes, mas com o apoio profissional, da família e amigos as coisas vão melhorando. Todo dia é um dia a ser vencido”.  

Camila lança apelo às pessoas que começam a relaxar nos cuidados com a Covid-19, mas ao mesmo tempo faz a crítica àqueles que insistem em ignorar a letalidade do vírus. 

“Eu não sei se é ignorância ou falta de empatia. Talvez seja melhor acreditar na primeira opção, porque dói imaginar que as pessoas sejam tão egoístas a ponto de esquecer que já perdemos milhares de vidas para essa doença. Sei que muitos precisam trabalhar, que existem questões econômicas e sociais importantes, mas o que eu não consigo entender é agir como se nada tivesse acontecendo, as aglomerações desnecessárias, a não adesão ao uso de máscaras e outros cuidados”.  

“Peço que as pessoas continuem se cuidando e acreditando que as coisas vão melhorar, e que tenham respeito por todas as pessoas doentes, pelas famílias que perderam entes queridos e pelos profissionais que trabalham na linha de frente”.  

Para você, já é possível pensar num “novo normal?”, questionou o Eufemea. “Acho que já estamos vivendo um “novo normal” e temos que aprender a lidar com isso. As coisas ainda vão melhorar, mas por enquanto temos que continuar nos cuidando e cuidando do próximo”, diz Camila. 

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As Marias que venceram o câncer: mulheres relatam desafios, lutas e ensinamentos

Elas são mulheres e guerreiras. As duas moram em Maceió, não se conhecem, mas passaram pelo mesmo problema de forma individual: o câncer. Apesar dos momentos difíceis vivenciados, elas já podem comemorar. Afinal, venceram a doença e reconstruíram a vida com amor e perseverança.

A motorista de ônibus Maria de Fátima, de 50 anos, descobriu que tinha câncer de mama em 2012. Maria disse que sempre foi uma pessoa que fazia exames de rotina e que em 2011, chegou a fazer uma ultrassom da mama e questionou a médica por qual motivo ela não solicitou uma mamografia.

“Ela disse que não seria necessário, pois no exame de toque e na ultrassom não constavam nada de anormal e eu tinha realizado em 2010. Diante disso, fiquei feliz pelos resultados e segui minha vida pessoal e profissional”, disse ao Eufemea.

O que Maria não esperava era que, provavelmente, o câncer já estaria nela. Segundo ela, foi dentro de um coletivo que Deus mostrou para Maria que algo não estava normal com a saúde dela.

“Em janeiro de 2012, voltando do trabalho para casa em um ônibus coletivo intensamente cheio, por volta das 20h, o Senhor meu Deus enviou um alerta”, afirmou.

“Nesse ônibus, eu estava em pé e um senhor bateu bruscamente na minha mama do lado direito. Nesse momento, a dor foi tão forte que chorei, pensei em xingar o senhor de tudo, mas não tive força em palavras e não falei nada. Logo eu que sou uma pessoa de personalidade forte”, justificou a motorista.

Foi ao chegar em casa que a Maria percebeu que a mama estava roxa. “Relatei para minha filha o ocorrido e pedi para ela pegar gelo para colocar em cima. Repeti o gelo por alguns dias até sair a mancha roxa. Tudo ficou aparentemente normal. Só que um mês depois dessa pancada na mama direita, eu estava sentada no sofá e comecei apalpar as mamas. E aí veio uma preocupação, senti um nódulo”.

Ao fazer isso, Maria tinha certeza: estava com câncer. O consolo veio da filha. “Ela me acalmava dizia que tudo daria certo e que não era um câncer”.

Um dia depois do Dia das Mães, Maria recebeu o resultado. “Eu tinha sonhado que estava com câncer e que ficaria sem mama”. A situação não foi fácil para ela. “Gritei, chorei e perguntei vou ficar careca quando a médica conversou comigo. Nesse momento, estava desesperada e sofrendo muito, mas eu tinha certeza que Deus estava comigo”.

A maratona de tratamentos começou. O cabelo caiu, os enjoos por causa da quimioterapia eram frequentes e foi preciso fazer a mastectomia total e a reconstrução da mama. “Passei por outra cirurgia, no dia 03 de outubro de 2013, essa foi para completar a reconstrução da mama com o mamilo e aréola. Tudo ocorreu bem”.

Hoje, Maria está curada, mas os cuidados continuam. “Posso dizer que sou mais uma guerreira que lutou e venceu o câncer. Faço meu acompanhamento médico com a oncologista anual e semestral com a mastologista”.

Sobre os ensinamentos que Maria aprendeu durante o período da doença, a motorista garante que soube amar mais a vida e aprendeu a cuidar mais de si. “Vivo o hoje. O ontem não volta e o amanhã pertence a Deus. Estou vivendo cada momento dela”. “Fiquei até mais paciente”, brincou Maria.

Pensamento positivo sempre

A administradora Maria Quitéria tinha 47 anos quando descobriu que estava com câncer. Foi em 2013 que ela fez uma mamografia de rotina e levou para o mastologista o resultado. “Aí veio a bomba”, disse.

A dor de saber que estava doente deixou Maria triste e sem saber como contar para a família. “Chegando em casa fui muito dolorida contar pra minha família. Como eu imaginava que seria muito difícil para eles receber essa notícia, eu já fui me preparando e ao invés de ser consolada, eu fui consolar a todos”.

“Foi assim que enfrentei o câncer”, disse. Ela lembra que os exames eram feitos com muita ansiedade, mas que a confiança em Deus prevalecia. “Sempre mantinha o pensamento positivo”.

A administradora também precisou retirar a mama e fazer quimioterapia. “Em 2014 comecei a fazer a quimioterapia e sempre dei lugar ao sorriso”. Maria está há seis anos fazendo tratamento preventivo, mas que está confiante.

Aos 54 anos, Maria disse que aprendeu que todos nós somos mais forte do que pensamos e quando o pensamento é positivo, tudo fica mais fácil. “Sempre colocando Deus em primeiro lugar”.

“Eu tive aquele pensamento que muitas pessoas têm, de que vai ser o fim. É normal, mas enfrentar e falar que sou mais que tudo isso é o melhor remédio”, finalizou.

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Brasileiras que moram em outros países relatam vida longe da família e rotina durante pandemia

A pandemia do novo coronavírus impôs mudança de rotina no mundo todo diante do risco causado pelo vírus. E para as brasileiras que vivem em outros países, como está sendo lidar com o desconhecido, com uma nova forma de viver? O Eufemea conversou com três profissionais que moram em outros países e mostra como está sendo o dia a dia delas desde que a pandemia foi declarada.  

A jornalista alagoana Dora Nunes mora em Milão, na Itália, que foi o epicentro global do novo coronavírus durante semanas, com o pico de casos de óbitos nos meses de março e abril. Dora contou  o que mudou para ela.  

“Eu vim para passar um ano, pensava em estudar a língua. Na verdade, era indefinido, tipo, um ano sabático mesmo. Eu já havia morado antes na Espanha, em Madri, onde fiz um mestrado em políticas públicas e em seguida, passei mais um ano em Londres, para estudar inglês e sempre que tinha férias vinha para a Itália, para onde voltei outras vezes depois, quando já tinha voltado para o Brasil. Sempre gostei demais desse país e pensava em morar em Roma, mas acabei indo inicialmente para Gênova, onde conheci meu companheiro, que já vivia em Milão. Acabei mudando para cá”. 
 
Ela diz que saiu de Alagoas no início de 2015 e foi morar em São Paulo. Não precisou largar trabalho porque atuava como freelancer e que até hoje escreve matérias para o Brasil. Na Itália, ela conta que trabalha.  

“Para uma agência de comunicação, a InPagina, e também com receptivo de turistas em aluguéis temporárias tipo Airbnb e outros. Durante algum tempo fiz a newsletter para um projeto voluntário junto com o Consulado brasileiro em Milão, o IntegrazionNow, que auxilia na inclusão social e laboral de quem migra para a Itália. Tive que deixar o projeto porque as minhas outras atividades foram crescendo e não tinha mais tempo”, diz Dora Mas foi chegada da pandemia que trouxe também medo e incertezas.   

“Essa parte foi bem dura. Primeiro porque a minha família estava muito apreensiva com a situação da Itália, todos viam que aqui foi bem complicado, era a primeira experiência prática com o vírus para nós ocidentais. Depois porque tanto eu como o meu marido (ele é holandês) estávamos longe de nossas famílias. Sentíamo-nos ainda mais isolados porque todos ao nosso redor estavam perto dos seus e isso tornou a situação ainda mais angustiante”. 
A comunicação com a família no Brasil é frequente e se dá via redes socais e lives. Já o home office, ela conta que não trouxe muito impacto. “Isso para mim não mudou muito, porque parte do meu trabalho já era assim. Entretanto, as minhas atividades externas, por se tratarem de turismo, foram absolutamente bloqueadas e só agora estão recomeçando”, relata Dora.
 
Dora Nunes é jornalista, alagoana, e mora na Itália, que durante semanas foi o epicentro da pandemia: “Parecia um filme, as ruas vazias, as pessoas assustadas em casa, as notícias cada dia mais aterrorizantes e angustiantes”

Lockdown e compras para dois meses 

Questionada sobre o que mudou na rotina dela e do companheiro, Dora conta que com a pandemia mudou tudo. 

“Nós haviamos chegado do Brasil e uma semana depois começou a contaminação aqui. A cada semana eram editadas novas regras pelo governo até culminar no Lockdown. Assim, fomos saindo cada vez menos de casa. inicialmente, fizemos uma compra grande no supermercado que durou dois meses, depois só saíamos para buscar as compras que fazíamos online. Com relação a atendimento médico, fomos logo avisados que só deveríamos ir no consultório do nosso médico (de família) em último caso. A nossa médica forneceu o número de telefone que nos atenderia diretamente e explicou que as receitas seriam colocadas em um local com senha fora do consultório e depois do lockdown, passaram a ser online.” 

Eufemea – A Itália foi durante um tempo o epicentro da Covid. Como foram seus dias nesse período? 

Dora – Foi uma loucura. Era muito estranho, uma situação inimaginável, ver a Europa de joelhos. Parecia um filme, as ruas vazias, as pessoas assustadas em casa, as notícias cada dia mais aterrorizantes e angustiantes. Particularmente, uma das piores partes da quarentena foi causada pelo meu “defeito profissional”. Sempre fui ávida por notícias e passo o dia seguindo os jornais e telejornais europeus e era muito difícil ter tranquilidade recebendo notícias diárias de centenas de mortos. Muitos que viviam sozinhos estavam praticamente deprimindo porque não podiam visitar os filhos e pedindo no grupo de WhatsApp do condomínio  que saíssemos nas varandas para que pudessem ver gente e conversar.  Saíamos, conversávamos um pouco sobre como estava nossa vida e isso passou a ser constante, nos falarmos pelas varandas. Depois, parece que todos pensaram o mesmo e começaram a circular os vídeos de música nas varandas. Outra coisa que me lembro bastante, era ter as viaturas da polícia paradas nas esquinas, vigiando quem saía e exigindo os certificados de permissão impressos e preenchidos com os motivos pelos quais eram fora de casa. O meu marido imprimia esses certificados e deixava no hall do condomínio para quem precisasse. 

Eufemea – E hoje, como está, passado o momento mais grave? 

Dora – Hoje tudo funciona de uma forma muito tranquila porque na Itália nos habituamos com o uso das máscaras,  do higienizante para as mãos e com a distância de segurança. São poucas as pessoas que não respeitam. Está sendo muito civilizado nesse sentido. Vamos ver agora que começou o verão europeu como serão as férias. Estou me sentido segura agora para sair de casa porque vejo que existe um esforço coletivo para que o vírus não volte a ser letal como já foi, com algumas exceções, claro. Sempre existirão os “complotistas” que acham que o vírus é uma invenção, ou mesmo, os egoístas que não se preocupam com os outros. No mais, devemos esperar pela vacina para ver se um dia tudo voltará ao normal. 

Blog e quarentena rígida 

Rosi Guimarães é de Minas Gerais (BH) e se mudou para o Chile com a família, há seis anos.  Relações Públicas e pós-graduada em cerimonial e organização de eventos, ela é  casada com Flávio, ela é mãe de dois filhos, Arthur, 20 anos e Yasmim, 15. “Viemos pelo trabalho do meu marido. Ele veio primeiro, em 2013, o contrato dele era de um ano apenas, então a gente tinha decidido não vir. Porém, no final de 2013, o contrato foi renovado e em janeiro de 2014, eu e meus filhos chegamos aqui no Chile. Viemos para morar com ele”, conta Rosi. 

A relações públicas Rosi Guimarães é de Minas e mora no Chile com a família: “A gente só pode sair de casa duas vezes por semana, mesmo assim com autorização do governo chileno”. Foto: @sr_e_Sra_photography

Ela diz que trabalhava com eventos corporativos em Belo Horizonte e teve que deixar o trabalho para mudar para o Chile. “Chegando aqui no Chile, eu me reeinventei e criei o Blog Nós no Chile. Na verdade, eu criei o blog para eu ter um passa tempo, alguma coisa para fazer , porque como sempre trabalhei com eventos, sempre fui muito agitada, muito ativa no mercado de trabalho, eu cheguei aqui no Chile nos primeiros meses fui organizar a vida, casa, buscar colégio pros meus filhos, fomos nos adaptando os primeiros meses. Depois que meu marido já estava tranquilo no trabalho, meus filhos já estava começando a a se adaptar no colégio, aí foi a hora que eu tive para cuidar de mim”, ela revela. 

Primeiro, Rosi revela que foi fazer um curso de espanhol. “Nós chegamos aqui no país e a gente não falava nada da língua. Comecei a ver as diferenças do Chile e escrever sobre essas diferenças no Facebook e vi que despertava o interesse das pessoas. Então, a partir daí, eu criei um blog, que foi uma coisa bem caseira, eu mesma que fiz tudo, o blog foi crescendo, fui profissionalizando, mudei a plataforma, contratei uma pessoa para desenvolver uma logomarca, um design, o blog foi ficando cada vez mais profissional, com maior número de acessos, e isso passou de hobby a trabalho. Hoje, o blog  é o meu trabalho, sair, mostrar o Chile para os brasileiros, escrever as minhas impressões, dá as dicas para as pessoas viajarem para o Chile sem passar perrengue”. 

Rosi conta que a quarentena no Chile está sendo bastante rígida.

“A gente só pode sair de casa duas vezes por semana, mesmo assim com autorização do governo chileno. Eu preciso entrar no site, retirar uma permissão para poder sair para a rua. Nessa semana, o governo já começou a liberar alguns bairros da quarentena. Porém, o bairro que eu moro ainda não foi liberado, ou seja,  gente está há 120 dias em casa, as fronteiras estão fechadas e a minha comunicação com minha família, com meus pais, minha mãe, é através de chamada pelo WatsApp. Estou sempre ligando, porque eu também fico aqui, mas fico preocupada com eles, que já são idosos, sei que a situação no Brasil está super complicada”. 

Segundo ela, todos seguem em home office na família. “Meus filhos estão tendo aula on-line. Arthur faz Engenharia na Universidade Católica e Yasmim está no segundo ano médio. Meu marido também está em casa, trabalhando há mais de 120 dias e o meu trabalho, que é o blog, não vou dizer que parou porque eu ainda continuo produzindo conteúdos. Tenho aproveitado meu tempo para escrever uns posts antigos, de viagens que eu fiz, e tenho ficado também muito ativa nos stories do Instagram”. 

Ela diz ainda que com as fronteiras fechadas, muitas pessoas que pretendiam viajar ao Chile tiveram de adiar o sonho para o próximo ano.  

“No princípio da pandemia, em maio, as pessoas acreditavam e eu também, que até setembro as coisas já estariam normalizadas, mas as fronteiras continuam fechadas. Então acredito que para esse ano vai ser impossível viajar para o Chile. O governo chileno criou um plano de desconfinamento que compõe cinco passos, o meu bairro está no primeiro passo, como o meu, que é a quarentena. Alguns bairros já passaram ao passo dois, que é libera a quarentena de segunda a sexta, porém continua em quarentena sábados, domingos e feridos. Algumas regiões que o número de casos subiu, eles estão voltando à quarentena. Está sendo tudo muito bem controlado”. 

Rosi Guimarães
Rosi criou o blog Nós no Chile, que atrai pelas postagens onde mostra o turismo do país: “Tenho aproveitado meu tempo para escrever uns posts antigos, de viagens que fiz”. Foto: @silvianepicioli

Intercâmbio e reviravolta na vida 

A jornalista Drica Cerqueira é alagoana e mora em Portugal. Ela conversou com o Eufemea, a quem contou sobre sua rotina e o que mudou em sua vida durante a pandemia. “Cheguei em Portugal em meados de fevereiro desse ano. Vim morar na cidade do Porto. No Brasil estou cursando a minha segunda faculdade que é Pedagogia (a primeira é o jornalismo)”, relata. 

Ela conta o que a fez mudar de país. “Desde a época do colégio que eu queria ter feito intercâmbio para aprender inglês. Meus pais não tinham condições de pagar por esse sonho na época, então foi adiado. Fiz Jornalismo, com esse sonho que mais uma vez foi adiado. O tempo foi passando, tive uma empresa de eventos durante 10 anos. E decidi mudar de vida. Fazer a tal “reviravolta”, mudar meu ciclo e colocar meus sonhos em ação”.  

Drica Cerqueira
A alagoana Dirca Cerqueira está morando em Porto, onde realiza o sonho de estudar: “Com a ajuda da minha psicóloga do Brasil, pude ressignificar minha estadia aqui e aproveitar esse momento com outros olhos”

“O primeiro foi resgatar a paixão pela educação. Comecei a fazer Pedagogia em 2017-2 (segundo semestre). E o Cesmac todos os anos abre um edital pra intercâmbio. Submeti duas vezes e na segunda passei e cá estou. Portugal nunca foi meu sonho, mas com essa nova oportunidade e dentre as instituições de ensino superior que tem parceria com minha faculdade, escolhi a Universidade do Porto, que por sinal, achei muito assertiva”. 

Como já havia fechado a empresa que tinha em 2017 e estava apenas estagiando, Drica conta que não precisou largar emprego.  “Vim me dedicar aos estudos. Aqui quem faz mobilidade acadêmica é chamado de aluno Erasmus. Eu vim fazer um semestre da faculdade aqui”. 

Além disso, o afastamento da família já era previsto, mesmo antes da pandemia. “Quando eu vim pra cá, como a intenção era passar um ano e não ir ao Brasil durante esse tempo, pra mim, esse aspecto não pesou. O que pesou foi ficar confinada na Europa, estudando através de plataformas online, sem a socialização que o contato pessoal promove e que são promovidas as grandes trocas do intercâmbio”, ela diz. 

E revela: “Com a ajuda da minha psicóloga do Brasil, pude ressignificar minha estadia aqui e aproveitar esse momento com outros olhos. A experiência foi totalmente pessoal, a acadêmica ficou como coadjuvante. Senti não poder explorar a cidade que estava instalada. Agora, eu consegui fazer um tour por quase todo Portugal e quando as fronteiras foram abertas entre os países da EU, consegui ir pra Espanha e estou indo pra França ter com uma amiga brasileira”. 

Pelo menos uma vez por semana, ela conta que a comunicação com os pais ocorre “Fazemos chamada de vídeo com meus pais. Mas todos os dias trocamos mensagens. Usamos o WhatsApp, skype e às vezes o zoom”. 

Quanto a mudanças por conta da pandemia, ela confessa que não deu nem tempo de estabelecer uma rotina.  

“Cheguei e em menos de um mês estava trancafiada dentro de uma casa com pessoas que não conhecia direito ainda. Mas que foram grandes parceiras de confinamento, cuidamos umas das outras como uma família. Não tinha ideia que iria vir pra Europa e ficar confinada. Imaginava que iria viajar muito. Mas a viagem foi do auto conhecimento, brinco dizendo que fiz várias viagens pro interior do meu ser.” 

Quantas a planos para voltar ao Brasil quando a pandemia passar e ela concluir os estudos ou ficar para morar em Portugal, Drica diz: “Hoje, estou arrumando as malas literalmente pra ir para a França passar as férias com uma amiga que tem família e mora lá. Depois da pandemia, não fiz mais planos. Tenho a pretensão de aproveitar a validade do meu visto até o último momento. Voltar para o Brasil, pra terminar a faculdade e depois só o tempo dirá”.

“Estou aberta para as oportunidades e vivendo um dia de cada vez. Os planos que tenho hoje, não são mais radicais e metódicos como eu sempre quis planejar e controlar – afinal, não temos controle de nada, tenho objetivos mas deixo que o universo conduza o melhor caminho para chegar até eles e posso escolher mudar esses objetivos no meio desse percurso. Esse e mais alguns outros estão sendo meu aprendizado.” 

Drica diz que prefere não fazer planos para o futuro quanto a sua permanência em Portugal: “Estou aberta para as oportunidades e vivendo um dia de cada vez”