Relato de enfermeira comove a web: “Após um plantão caótico, saí e vi jovens bebendo na praça”

O desabafo foi feito no twitter e o que a enfermeira Stephanie Ágata não imaginava era que ganharia tamanha repercussão. Pudera! Na rede social, a jovem relata o que se passa com ela todos os dias trabalhando em um hospital no momento da pandemia do novo coronavírus, enquanto pessoas circulam indiferentes aos riscos de contágio, agravando ainda mais a situação de tragédia vivida pelo Brasil com mortes em escala crescente.

Até essa quinta-feira (25) já eram 187 mil curtidas e mais de 30 mil retweets na postagem onde ela desabafa: “Eu passei 12 sofridas horas sem intervalo, não comi, fui ao banheiro uma vez, sentei por 1 hora para evoluir os pacientes…A máscara n95 apertou tanto meu rosto que eu tô sentindo dor nos dentes. Enquanto isso a galera aproveitando o calorzinho. Eu desisto”.

Stephanie é carioca, enfermeira há um ano e meio, e mora em Porto Alegre (RS) há 7 anos. Ela conversou com o Eufemea, a quem contou por que decidiu desabafar numa rede social e traz o drama de quem está dentro dos hospitais, tentando salvar vidas de pessoas infectadas pelo vírus.

“Na verdade, eu não esperava que o meu relato viralizasse, eu tinha 48 seguidores, sempre usei o Twitter para expressar minha opinião, me informar e interagir com pessoas que trabalham na área da saúde também. Naquele dia eu tive um plantão exaustivo. As pessoas não imaginam como é utilizar aqueles EPI’s por 12 horas, a máscara é extremamente desconfortável, é difícil respirar, tomar água e até falar, o Face Shield é pesado e machuca a nossa cabeça… São inúmeros desconfortos, mas isso nem se compara ao desconforto que sentimos ao ler os jornais, assistir as notícias e acompanhar as redes sociais”, diz Stephanie.

Ela conta ter se sentido “muito desrespeitada naquele dia, porque após um plantão caótico e exaustivo, eu saí e vi um grupo de jovens em uma praça bebendo, todos sem máscaras. Foi nesse momento que fiz o tuíte, em um ímpeto de raiva, angústia e frustração. O sentimento foi de impotência… Senti que falhamos como sociedade, como cidadãos”.

A enfermeira relata ainda que trabalha à noite. “Faço plantões de 12 horas, e hoje minha equipe está completa, o que é uma dádiva. Temos pacientes de Covid-19, mas a sobrecarga psicológica acontece também por conta dos pacientes que não são positivos pro Covid-19. Trabalho principalmente com idosos, pessoas com imunidade frágil, alguns no fim da vida. Isso torna a nossa responsabilidade ainda maior”, revela.

Lidando diariamente com os pacientes infectados pela doença, ela diz que “o Covid-19 mata as pessoas de uma maneira sofrida, sem dar chance de se despedir dos familiares e de ter um enterro digno. No mundo dos cuidados paliativos, no qual a morte é inevitável, a forma de morrer é muito importante. Eu jamais dormiria tranquila sabendo que estou colaborando para que pessoas morram dessa maneira”.

Num outro relato no tuíte, Stephanie também conta que há alguns dias sofeu de paralisia do sono. “Foi uma das coisas mais traumáticas que já aconteceram comigo. Provável motivo: estresse, ansiedade, tristeza profunda, exaustão física”, diz. “Na verdade eu estava dormindo. Paralisia do sono acontece geralmente quando a pessoa está acordando, é um estado em que a pessoa fica consciente, mas o corpo não consegue se mexer. Muitas pessoas sofrem disso em momentos de estresse. Acredito que no meu caso não tenha acontecido apenas por conta do trabalho. Eu perdi conhecidos pra COVID e agora meus avós estão infectados. Fora todas as outras fontes de estresse que enfrentamos diariamente”, ela fala.

Stephanie diz nunca ter imaginado que passaria por esta situação. “Em dezembro de 2019, consegui meu primeiro emprego na área, um hospital de cuidados prolongados 100% SUS. Trabalho com reabilitação e com cuidados paliativos também. Nunca imaginei que enfrentaria uma pandemia durante meus primeiros anos como enfermeira, mas sempre me lembro da história da enfermagem, uma profissão que “nasceu” durante uma guerra. E hoje a situação não é tão diferente quanto naquela época. Isso faz com que eu enxergue um propósito no meu exercício, mesmo diante de tantas dificuldades”, diz.

O hospital em que trabalha, conta Stephanie, “não é referência para pacientes com Covid-19, porém, no decorrer da pandemia, não tivemos como escapar ilesos. Muitos colegas se infectaram, e vários pacientes também. Foram semanas difíceis, sofremos com a falta de funcionários, com a exaustão física dos que permaneceram trabalhando pra cobrir a defasagem, mas sinto que isso nos fortaleceu, como instituição e como colegas de profissão”.

Na enfermagem, a situação sempre foi muito complicada, ela diz. “A pandemia apenas escancarou a nossa realidade. Sempre sofremos com a defasagem de quadro funcional, com jornadas exaustivas, a sobrecarga de trabalho, a desvalorização, a remuneração muito desproporcional. Muitos acabam optando por dois empregos, pra poder sustentar a família ou viver de uma maneira mais digna”, relata.

E lança um apelo à população: “Fica o meu apelo a todos aqueles que ainda duvidam do poder destruidor dessa pandemia. Pensem no coletivo! Nunca avançaremos como sociedade enquanto continuarmos perpetuando o egoísmo. É impossível ensinar alguém a ter empatia, esse sentimento é orgânico, mas é possível informar todos aqueles ao nosso redor, é possível escolher fazer a coisa certa”.