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Pandemia: estamos preparados para viver o novo normal? Especialistas respondem

Reportagem por Niviane Rodrigues e Raíssa França

Está cada vez mais perceptível que as pessoas querem viver a vida de antes – quando não existia pandemia -. Ninguém esperava viver em um mundo usando máscaras, álcool em gel e ficando distante de quem se ama. Algumas cidades estão voltando aos poucos (reabrindo comércios e  pessoas voltando ao trabalho). É o novo normal que se pode ter. Afinal, a pandemia não acabou. 

Mas será que estamos prontos para viver esse novo normal? O que muda? Como será nossa vida daqui pra frente? O fim da pandemia parece distante ainda, mas mesmo com os casos crescendo no país, a flexibilização em algumas cidades já está acontecendo. 

O Eufemea conversou com especialistas para saber: estamos prontos para o novo normal? A primeira parte da reportagem você confere abaixo.

Economia: como fica?

Países entraram em recessão e a avaliação de especialistas é que a recuperação econômica levará anos. No Brasil, com a crise política, a situação que já era grave, tente a piorar. A economista Luciana Caetano e a cientista política Luciana Santana trazem a análise do cenário atual e futuro. 

Para a economista Luciana Caetano, o ser humano tem uma capacidade extraordinária de se adaptar às mudanças como estratégia de sobrevivência e a Covid-19 impôs mudanças profundas na organização da produção, nas rotinas de trabalho e nas relações sociais, de modo geral. 

“O IBGE aponta retração nos mais diversos setores da economia em março e abril/2020, mais branda nos serviços de tecnologia da informação e comunicação (TIC). Essa é uma ferramenta que já havia sido incorporada a alguns setores e ganha um novo status com a pandemia. Ao que parece, as mudanças incorporadas ao sistema de produção e circulação de mercadoria nessa crise pandêmica permanecerão e farão parte a nova realidade”, explicou.

Sobre a esfera pública, Luciana Caetano explicou que não se sabe se União, estados e municípios compreenderam que essa crise impõe a urgência de maior protagonismo do Estado, tanto na elevação de investimentos públicos para retomada do crescimento econômico, como na regulação direcionada ao equilíbrio das forças antagônicas guiadas pelos interesses dos que dependem de salários e dos que dependem de lucros. 

“O país reduziu a desigualdade social entre 2003 e 2014, mas não o suficiente para suportar as reformas impostas a partir de 2016, sob o argumento equivocado de equilíbrio fiscal. O congelamento dos gastos públicos, assim como as reformas trabalhista e previdenciária produziram um grande retrocesso ao país, sob todos os aspectos. A nova realidade exige que o Estado volte a assumir o controle e a responsabilidade de assegurar proteção social como um direito universal”, comentou a economista.

De acordo com ela, encerrado completamente o isolamento social, as atividades produtivas tenderão à normalidade, porém, fortemente influenciadas pelas novas ferramentas de tecnologia da informação e comunicação já incorporadas. “Não é possível prever o percentual de desocupação a ser gerado a partir da utilização dessas novas ferramentas, mas é certo que elas afetarão a reorganização das atividades produtivas após a pandemia, assim como também é possível que novas atividades surjam e outras sejam extintas”, disse.

Impactos serão de médio, curto e longo prazo

A cientista política Luciana Santana também trouxe a avaliação de como será esse novo normal do ponto de vista econômico. “A gente já tem noção que os impactos sociais e econômicos vão ser de médio, curto e longo prazo. Ou seja, por mais que a gente tenha a pandemia daqui a alguns meses a pandemia já com um certo controle, os impactos vão continuar e aí os governos vão ter que se organizar para tentar de alguma maneira minimizar e reduzir os danos, principalmente para as populações mais vulneráveis, que acabam sendo afetadas diretamente”, justificou.

A cientista política disse que há estudos da universidade que apontam que é necessário e emergencial que os governos mantenham as medidas rígidas. “E somado a isso eu acrescento que não adianta medidas rígidas se você não tem uma fiscalização adequada, se não exige o cumprimento e se não houver também uma cooperação dos entes federados e aí estou falando no caso dos municípios. Nem chego a falar de governo federal porque parece que a pandemia não é a prioridade”.

Luciana Santana, cientista política

Luciana Santana também reforçou que a Assembleia Legislativa também tem um plano de algumas medidas de enfrentamento da pandemia, algumas medidas bastante importantes, que precisam ser incorporadas à agenda de governo, inclusive para contribuir com o enfrentamento da pandemia, tanto agora, no curto prazo, como também nos próximos meses.  “São problemas sérios, que vão precisar ser enfrentados de forma conjunta, tanto pelos Executivos quanto pelos Legislativos”, reforçou. Luciana disse que vê em Alagoas uma ausência de ações e posições de legisladores em relação à conscientização da população sobre o cumprimento das regras previstas pelos decretos. 

“A grande solução para que todos esses impactos da pandemia sejam enfrentados de forma bastante lúcida e minimizados é justamente a parceria e a cooperação tanto intergovernamentais, mas também entre os poderes. A interlocução do Legislativo e Executivo nesse momento no âmbito dos estados, dos municípios, é extremamente saudável para o resultado final em relação a esse enfrentamento”, enfatizou Luciana.
E do ponto de vista psicológico?

A psicóloga Kamila Cabral disse ao Eufemea que recentemente ouviu a seguinte frase: “Depois do Coronavírus ninguém mais sabe o que será”.  Para ela, a iminência do vírus provocou desajustes nos hábitos, imposição desvelada de se haver com a finitude, encontro com a realidade crua de que a ideia que se pode controlar tudo é algo ilusório frente à força brusca da natureza. “Isto é, houve um furo na idealização de completude humana”, explica.

Psicóloga Kamila Cabral

Segundo Kamila, o vírus é algo inanimado, invisível, atinge e ameaça a vida. “É um encontro forçado com algo que fura a trama de repertórios, há a falta recursos para lidar com. O que reenvia o sujeito para a condição de desamparo humana”, disse.

A psicóloga disse que o encontro com a impossibilidade de simbolização como incidência de uma ruptura como a pandemia expõe, obriga o sujeito a abandonar a posição que outrora era ocupada. 

“Penso que o momento que estamos vivendo seja uma travessia. Travessia diz respeito a passagem de uma posição a outra, provocada por um encontro abrupto com algo que fura a significação. Travessia no sentido da saída de um lugar conhecido, para um lugar qualquer”, reforçou a psicóloga.

De acordo com Kamila, em uma travessia há a impossibilidade de sair ileso. “Isto é, não se pode sair do mesmo jeito que entrou”, disse.

Para ela, quando se pensa sobre “o novo normal” é preciso considerar não somente os novos hábitos, mas como o encontro com a realidade outra que os efeitos da pandemia produzem nos cotidianos e de como esse advento se insere na história de cada um”

“Retomando a frase que citei, não há receita para o que será no futuro, o encontro com o desamparo é justamente isso, no entanto, a falta de respostas não deve se encerrar em si”, finalizou.

Raíssa França

Por Raíssa França

Jornalista e fundadora do portal Eufemea

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