Na linha de frente, psicóloga conta rotina dentro de hospital e diz como cuida da saúde mental

Elas são responsáveis por cuidar da saúde mental dos pacientes que são diagnosticados com covid-19 e que ficam internados nos hospitais. A rotina delas é intensa e requer cuidado. O Eufemea ouviu psicólogas que estão na linha de frente no enfrentamento à covid-19. Hoje, o portal traz a primeira parte da reportagem e conta a história da Ana.

A psicóloga especialista em Saúde com foco em UTI, Ana Carolina Maia, de 30 anos, mora em Manaus e atua no hospital Samel.

Ela contou ao Eufemea que, atualmente, Manaus está com casos de covid estabilizados e que o pico da doença já passou. Mas antes não era assim. “No hospital que trabalho já passamos a fazer mais de 50 internações por dia. Nós chegamos a ter uma média de 165 de pacientes por dia”.

Quando Manaus enfrentava um caos na saúde por causa da covid-19, Ana Carolina trabalhava desde a recepção dos pacientes que iam ficar internados até a internação deles na UTI, enfermaria, apartamentos.

Na época, eles contavam com boletins virtuais, mas garante que foi um desafio para equipe médica. “A equipe não estava adaptada a passar esse tipo de informação. Então a família que estava em casa ficava apreensiva e você tendo que passar a notícia virtualmente, dando um suporte, o trabalho foi bem extenso”.

A psicóloga entrava no hospital 8h00 da manhã e saía por volta da meia-noite. “Obrigatoriamente eu deveria trabalhar 12h por dia, mas não tinha como ficar só isso. Pra mim, naquele momento, eu ficava mais. Foi um momento que você não pensa no dinheiro, nem no período e muito menos no desgaste físico”, contou.

Ana utilizava EPIs [equipamentos de proteção individual] e confessa que lidar com eles era complicado. “Pra gente da psicologia é bem complicado, sabe? A voz fica baixa, abafada, às vezes o paciente não entende muito bem. Exige esforço e paciência”.

A psicóloga contou que sente que foi preparada para lidar com a pandemia. Ela disse que morou em Israel aos 16 anos por causa de um intercâmbio. “Quando morei lá em 2006 teve uma guerra entre Israel e Líbano. Por estar lá, eu acompanhei a guerra de perto. Com 25 anos, eu já formada fiz a residência multiprofissional e eram plantões de 12 horas num hospital de infectologia e eu perdi vários pacientes. Tudo isso veio contribuindo para que eu enfrentasse de uma forma tranquila”.

Questionada sobre como ela se cuidava durante a pandemia – já que a função dela era cuidar da saúde mental dos pacientes -, Ana disse que o maior cansaço dela era físico. “Nossos atendimentos são todos em pé. Teve dias que eu tive veias estouradas nas pernas. Emocional não porque eu estava preparada para zona de guerra”.

Segundo a psicóloga, para se manter bem, ela tentava substituir o negativo pelo positivo. “Eu lidei mentalmente falando por causa da experiência de vida e profissional. Usei muitas vezes a respiração diafragmática quando a ansiedade subiu um pouco. Tenho uma capacidade de enfrentamento boa por estar anos me trabalhando”.

Ana também contou que o fato de ser reikiana (que é uma terapia integrativa) e ter um contato bom com a natureza também a ajudou no processo. “Então eu também apliquei muito reiki em mim. Mas quero deixar bem claro que não tem nada a ver com psicologia. Quando estava mal, assistia meus vídeos fazendo trilha, ouvia barulho de cachoeira e me deixava mais tranquila”.

Por fim, a psicóloga ressaltou que o trabalho dela dentro do hospital é minimizar a ansiedade e promover mecanismos de enfrentamento durante a hospitalização, através de intervenções focais. “Não enxerguem a doença, enxerguem a pessoa! Nenhuma pessoa deve ser resumida à uma doença, somos seres incríveis e cheios de possibilidade”.