Assédio moral e preconceito: como essas jornalistas deram a volta por cima e se destacaram na profissão em AL

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Foto: Pei Fon

Ser jornalista é lidar diariamente com histórias e momentos marcantes. Entretanto, ser mulher nessa profissão também requer coragem. Afinal, não são poucos os casos de preconceito, assédio moral e sexual que algumas enfrentam. Mesmo diante dessas situações, essas mulheres deram a volta por cima, mostraram que são muito mais do que as pessoas pensavam e ocuparam espaços por causa do talento delas.

E partindo da frase de que “lugar de mulher é onde ela quiser”, o Eufemea conversou com três jornalistas de Alagoas que atuam em áreas diferentes e que se destacaram ao longo dos anos.

Da TV e assessoria para o empreendedorismo

A jornalista Meline Lopes já trabalhou como repórter e assessora de imprensa. Mas foi no empreendedorismo que ela decidiu apostar. Hoje, ela é proprietária da Arca, uma agência de marketing digital para mulheres que fica situada em Maceió, Alagoas.

Meline Lopes. Foto: Cortesia

Mas para que Meline chegasse ao empreendedorismo, ela passou por situações desagradáveis. Ao Eufemea, Meline disse que na época que trabalhava com reportagem, sofreu assédio moral. “A minha vida inteira eu tive problemas. Tive muitos chefes que gritavam com os repórteres. Infelizmente, a redação é um meio de muito estresse e de muito ego”, afirmou.

Nos outros trabalhos que eram de assessoria de imprensa, a jornalista disse que sempre sofreu assédio sexual. “Dos mais leves até os mais pesados. Então isso coloca sua autoestima lá pra baixo”.

E é com o propósito de incentivar mulheres a serem donas de si que Meline decidiu abrir a agência de marketing digital. “Eu incentivo o empreendedorismo porque não quero que as mulheres passem pelo que eu passei. Na faculdade de jornalismo nós somos ensinadas a trabalhar sempre para alguém, mas não a empreender”.

Ser dona do próprio negócio deu autonomia para Meline, mas ela garante que não deixou de ouvir críticas. “Quando eu pedi demissão da empresa privada que trabalhava para empreender, muitas pessoas me chamaram de louca. Outras me perguntaram como eu ia viver sem plano de saúde, sem o vale alimentação, mas eu nunca deixei de comer e nunca deixei de ter plano por causa da minha decisão”.

“Hoje em dia, eu tenho a minha empresa que atua com empreendedorismo feminino e com posicionamento digital para mulheres. Estamos fazendo três anos no mercado e espero ajudar mais mulheres a serem donas de suas carreiras”, reforçou. 

Meline Lopes
“Como você chegou até aqui?”

Juliana dos Anjos, de 30 anos, é repórter de TV e desde muito cedo, ainda na época de estágio, sempre teve em mente o que gostaria de exercer. “Eu me preparei para isso. Montei um plano, fui fiel e dedicada a ele e quando, ainda nova, atingi meu objetivo, me deparei com comentários maldosos  em relação a minha chegada até ali”.

Juliana dos Anjos. Foto: Cortesia

Ao Eufemea, Juliana disse que chegou a sofrer assédio moral em uma empresa que trabalhava. “No momento, apenas me resguardei, mas na primeira oportunidade que tive, poucos meses depois, saí do trabalho”.

Em contrapartida a esses relatos, Juliana disse que foi “criada” por jornalistas talentosas que a ensinaram a não baixar a cabeça, ter voz ativa e não aceitar menos que ela merece. 

“Infelizmente, o ambiente desigual, e por vezes hostil, no mercado de trabalho para mulheres não é exclusividade do jornalismo, mas acredito que nós – como comunicadoras sociais – temos que abordar e discutir constantemente o tema e aproveitar espaços como este para dar voz a esses relatos”, comentou.

Juliana dos Anjos
Cantadas e perguntas para ‘testar’ conhecimento

Esporte nunca foi considerado “coisa de mulher” e isso veio dos tempos mais primórdios. Mas a jornalista Charlene Araújo, 39 anos (foto principal da matéria), mostrou que o cenário está mudando, apesar das situações que ainda são desagradáveis.

A repórter contou que começou como profissional no Jornalismo em 2006, mas afirmou que paixão pelo esporte veio muito antes. “Eu já sabia que queria trabalhar com Esportes, graças ao incentivo de meu pai que foi massagista de times de futebol e outras modalidades”.

Charlene disse que ser mulher e trabalhar na área esportiva nunca foi difícil para ela, mas confessa que já sofreu com a desconfiança e olhares preconceituosos por ser mulher.

“Vivi também outras situações desagradáveis durante esses anos de profissão. Por outro lado, busquei fazer de cada uma dessas dificuldades um incentivo para que eu seguisse com minha cabeça erguida”.

Charlene disse que sente-se feliz ao ver mais mulheres fazendo parte da crônica esportiva, nas mais diversas funções e desempenhando cada uma delas com muita qualidade. 

“Hoje posso dizer que há um caminho aberto para as mulheres que queiram seguir no jornalismo esportivo, basta querer trilhar. Pra mim ser mulher e ser jornalista é ter um olhar diferenciado sobre as situações. É sobre ser firme e delicada ao mesmo tempo. É sobre ter sensibilidade para prosseguir ou encerrar uma polêmica. É sobre tratar cada matéria, transmissão como um filho que nasce, com todo o carinho, amor e dedicação”, explicou.

Charlene disse que na opinião dela, o jornalismo não precisa ter gênero. “Basta que você tenha paixão e saiba cumprir com o seu papel. É claro que ainda temos que lutar contra o machismo, os sem noção que acham que podem passar cantada, as perguntas bestas que fazem para testar nosso conhecimento “o que é impedimento?”, como se mulher não pudesse entender de futebol… Mas acho que o cenário já foi muito pior”, justificou.

Charlene Araújo