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“Desafiador e instigante”: Mulheres relatam experiência de entrar na faculdade com mais de 40 anos

Foto principal: Rozeilda Lopes

O número de universitários com 40 anos ou mais em universidades brasileiras quase triplicou nos últimos dez anos, de acordo com os dados do Censo da Educação Superior, do Ministério da Educação (MEC).

Com formação em serviço social e sociologia, Mônica Carvalho, de 54 anos, faz parte dessa estatística. Ao Eufêmea, ela conta as dificuldades para conciliar maternidade, trabalho e curso de graduação do ensino superior.

Foto: Cortesia

Mônica se formou aos 42 anos, após enfrentar uma trajetória de dificuldades e conflitos em sua rotina. É que ela se tornou mãe aos 17 anos e já precisou encarar a maternidade solo quando passou no seu primeiro vestibular, em um curso da área da saúde.

“Em busca de sobrevivência”

Aos 22 anos, Carvalho passou em outro vestibular, desta vez para Administração, mas relata que sofreu uma tentativa de estupro em seu primeiro emprego. “Adoeci, abandonei o curso de Administração. A vida nas corporações não era segura para mim”.

“Quando você precisa sustentar um emprego para sobreviver, os estudos estão no segundo plano de sua vida e sua vida passa ser a ser segundo plano em tudo pois, não existe vislumbre de futuro. Só o presente é necessário”, expõe.

Nesse período ela decidiu que só voltaria para a faculdade quando sua filha pudesse estar segura em casa no horário da noite. Durante esse tempo, ela passou em vestibulares, mas por não conseguir ocupar a vaga, entendia que o espaço acadêmico não era para ela. “Fui em busca de sobrevivência, precisava comer, pagar aluguel, educar minha filha e viver”, relata.

“Quando senti que minha filha já era dona de sua vida, busquei uma escola particular de Serviço Social pois, em minha cabeça a UFAL [Universidade Federal de Alagoas] não me cabia, mesmo com filha adulta”.

Na graduação, Mônica tinha vários colegas na mesma faixa etária, que se destacavam no curso de Serviço Social por somarem às aulas com histórias de vida e percepções. Já no mestrado, ela conta sobre um comentário marcante em sua trajetória acadêmica.

“Lembro de ouvir um único comentário no mestrado de uma colega que depois veio a se tornar grande amiga, mas ela disse um dia: nossa, você já fez tanta coisa! Em tom de ironia, então olhei para ela e incrédula me calei, aquela moça estudou ciências sociais e era incapaz de entender a vida de uma mulher que foi mãe adolescente e que tinha apenas o ensino médio”, relata.

“Acabo de me inscrever para uma segunda graduação e uma segunda especialização. E depois, se preciso for, me matricular em outra, não tenho limitação para aprender, como falei, a experiência de vida que tenho é maior e não foi medida em likes. Agora, o mercado de trabalho é impositivo e, aí sim, o etarismo é mordaz e grave”, conclui.

Maternidade, trabalho e graduação

Já a Consultora Empresarial, Rozeilda Lopes, 62 anos, conta que a busca pela graduação começou aos 20 anos. No entanto, com quatro transferências profissionais e uma filha para criar, ela iniciava um curso mas não conseguia concluir.

Ela destaca ainda que na década de 1980, ter um ‘bom’ emprego era mais valioso do que uma graduação. Além disso, ela lembra que na época a variedade de cursos superior era “bastante limitada”.

“Foi assim em Caruaru (Letras), Maceió (Pedagogia), Fortaleza (Pedagogia) e Salvador (Relações Internacionais)”, disse.

“Nunca me senti excluída”

Após iniciar quatro graduações, foi em 2007, aos 47 anos que ela alcançou o tão sonhado diploma. “Fiz o curso de Gestão de Recursos Humanos e, logo em seguida, Especialização em Marketing”, diz.

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“Na minha profissão sempre trabalhei fazendo gestão de pessoas com foco em resultados. Daí, a graduação e especialização escolhidas, foram bem assertivas. Eu tinha a vivência de, basicamente, toda teoria recebida”, continua.

Rozeilda destaca uma curiosidade marcante em sua trajetória, quando foi confundida com uma professora em sala de aula. “No curso de RI [Relações Internacionais], no primeiro dia de aula, ao entrar na sala um grupo de jovens fizeram silêncio total. Tinham certeza que estava entrando a nova professora da turma, mas nunca me senti excluída. Com o tempo, eu procurava interagir para que a troca acontecesse”, relembra.

Recomeçar as experiências
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Funcionária Pública da Educação, merendeira e Terapeuta Holística, Rosi Flor, de 51 anos, iniciou uma graduação no curso de Pedagogia aos 45 anos, mas não concluiu por questões de saúde.

“Este ano estou retornando para concluir meu curso e estou bastante animada, sempre tive o apoio de minha família e colegas,  busquei ficar bem e me sinto preparada para vivenciar todas as experiências que me aguardam”, comemora.

Ela conta que entrar na universidade depois dos 40 anos abriu portas para o conhecimento. “Me senti descobrindo um mundo novo e ao mesmo tempo percebi que durante minha vida toda eu estive praticando parte do que estava aprendendo”.

Para Rosi Flor, conciliar os estudos com a rotina foi “desafiador e instigante”. Ela enfrentou dificuldades na rotina pois além de trabalhar como merendeira, também atuava nas atividades domésticas.

“O trabalho e deslocamento eram exaustivos, sempre precisei ficar a noite para poder cumprir o calendário de tarefas. A impaciência de alguns professores também interferiram, ao ponto de precisar  trancar matrícula”, desabafa.

No entanto, Rosi já está ansiosa para voltar à sala de aula e continuar com a graduação em Pedagogia.  “A sede pela busca de uma graduação me impulsionava, me alegrava a cada conquista nas avaliações, tinha média entre 9 e 10”.

“Decidi iniciar a graduação pelo desejo em contribuir mais com o meio em que vivia, como as escolas, ter acesso a lugares que eu não tinha por ano ter graduação”, acrescenta.

Reconhecimento profissional
Foto: Cortesia

Pedagogia também foi o curso escolhido por Inês Marcelino, de 49 anos. A professora iniciou a graduação aos 43 anos porque já trabalhava na área da educação de maneira informal.

“Eu já tinha bastante formação, mas não com diploma de curso superior. Devido à necessidade de reconhecimento profissional, apenas o Ensino Médio não era mais suficiente”.

Em sua turma havia seis pessoas com mais de 40 anos, mas Inês foi a única que concluiu o curso. De acordo com Inês, a sensação ao concluir o Ensino Superior foi de alívio, já que a reta final do curso foi durante a pandemia do coronavírus.

“Foi uma tarefa longa. Peguei o finalzinho do meu curso no período da pandemia. Então durei mais tempo por isso também. A Ufal fechou, como todas as universidades no período da pandemia, até que a gente voltou de modo remoto”, explica.

Ela conta que para manter os estudos teve que abrir mão do seu trabalho na época. “Se eu tivesse trabalhando e estudando eu não ia dar conta dos estudos e como eu sou uma pessoa muito muito envolvida com o que faço então eu sabia que os estudos seriam prejudicados se eu permanecesse trabalhando”, conclui.

Rebecca Moura

Rebecca Moura

Estudante de jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas. Colaboradora do portal Eufêmea.