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Sobrecarga e exaustão: mulheres são mais suscetíveis ao burnout? Veja os sintomas e o que diz a lei

Foto: thodonal / stock.adobe.com

No Brasil, o mês de maio de 2023 foi o mês recordista de buscas sobre burnout, segundo o Google Trends. De acordo com uma pesquisa realizada em 2021 pela faculdade de medicina da Universidade de São Paulo (USP), 18% dos brasileiros são vítimas da síndrome, sendo que a maioria da população afetada tem menos de 30 anos.

Em 2021, a síndrome foi incorporada à lista das doenças ocupacionais reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Dados da pesquisa Women in the Workplace, apontam que 42% das mulheres apresentam sintomas da doença, contra 35% dos homens.

Aumento de buscas por burnout
Foto: Cortesia ao Eufêmea

Ao Eufêmea, a psicóloga especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), Thaís Fagundes, avaliou que embora o termo “burnout” e os estudos sobre o assunto existam desde a década de 70, a disseminação dos conceitos relacionados foi facilitada pela internet e pelo uso das redes sociais por profissionais de saúde.

“Especialmente após a pandemia, as pessoas ficaram mais sensíveis em relação à saúde, incluindo a saúde mental”, avalia.

De acordo com ela, as alterações intensificadas por este momento no mercado de trabalho, como redução de pessoal, aumento de demandas, redução salarial, alteração para o trabalho remoto, dificuldade em estabelecer limites entre vida pessoal e profissional, contribuíram para um ambiente mais propenso ao seu desenvolvimento.

Fagundes também destacou os fatores específicos que podem contribuir para o desenvolvimento do burnout em mulheres. “O perfeccionismo, autocobrança/autocrítica excessiva, síndrome da impostora, sobrecarga de atividades, falta de uma divisão justa das tarefas domésticas e de cuidados com os filhos”, conta.

Ainda de acordo com a especialista, mulheres vivenciam a expectativa social de “estarem sempre disponíveis para acolher, serem empáticas e cuidadosas”.

“Fora a desigualdade ainda presente no mercado de trabalho, onde as mulheres sentem-se obrigadas a entregar mais do que os homens, mesmo ocupando a mesma posição”, continua.

Queixas frequentes de cansaço, dores de cabeça persistentes, dificuldade de concentração, atestados médicos recorrentes, desejo de abandonar o trabalho, questionamento da própria capacidade profissional e dificuldades nos relacionamentos interpessoais, são os primeiros sinais de burnout. “Caso identifique em si mesma ou em um colega de trabalho, é importante buscar ajuda profissional ou encorajar a pessoa a procurar apoio”, alerta.

Quanto ao tratamento do burnout, a psicóloga explica que, embora não exista uma abordagem padronizada comprovadamente mais eficaz, a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) tem sido amplamente utilizada. “Pois busca identificar e modificar padrões de pensamento disfuncionais, além de promover habilidades de enfrentamento saudáveis.”, afirma.

“O burnout surgiu de forma silenciosa”

Arquiteta e mentora, a cearense Fabiana Sousa, de 43 anos, relata sua história de superação do burnout e como conseguiu redefinir sua carreira.

Ela conta que atuou na construção civil, gerenciando projetos complexos de desenvolvimento imobiliário e construção de bairros planejados em várias partes do Brasil. Ela enfrentou o desafio de liderar equipes majoritariamente masculinas em um ambiente tradicionalmente masculino.

No entanto, a pandemia de 2020 trouxe mudanças significativas para a vida de Fabiana. Durante o período de home office, ela adotou um ritmo de vida mais equilibrado, com uma rotina melhor de alimentação e atividade física.

Ao retornar ao trabalho presencial em agosto de 2020, ela começou a sentir os primeiros sinais do burnout. “Passei a me incomodar com o formato de trabalho rígido no presencial, um contexto de empresa mais tóxico, e aí surgiram os sinais”, expõe.

Após vivenciar crises de pânico, Fabiana decidiu procurar ajuda profissional. Ela foi encaminhada por uma amiga para uma psicóloga, que a orientou a procurar um psiquiatra.

“A ajuda desses profissionais foram fundamentais no meu processo de melhora. Tive acolhimento, esclarecimento do que está acontecendo comigo e tratamento adequado com medição para desinflamar o sistema neurológico”.

De acordo com a arquiteta, os seus sintomas do burnout incluíram gastrite, ansiedade, dores de cabeça e no corpo, nas articulações, além de comprometimento da memória em situações básicas.

Para se recuperar, Fabiana pondera que adotou várias medidas, incluindo práticas de respiração, estado de presença (mindfulness), alimentação saudável, redução do uso de redes sociais e eletrônicos antes de dormir, autocuidado, passeios leves na natureza e engajamento com a arte. “Estabelecer limites e aprender a dizer “não” também foi uma parte crucial de seu processo de cura”, pontua.

“O burnout abre um buraco em você”

Fabiana aconselha às pessoas que estão enfrentando ou querem evitar o burnout a se autoavaliarem em relação aos sinais do esgotamento. Ela destaca a importância de construir uma rede de apoio e confiar nos profissionais de saúde mental.

“O burnout abre um buraco em você! Te coloca em confronto com muitas coisas e o autoconhecimento ajuda a superar e ressignificar. Você se sente incapaz de coisas que antes eram fáceis”, desabafa.

“Estou de alta médica, mas sempre alerta aos gatilhos. Devo manter as estratégias de saúde (física, emocional, mental, espiritual) e qualidade de vida. Continuo na terapia por entender que o trabalho da psicologia é global e o gerenciamento das emoções é fundamental para tudo”, pontua.

Pressão excessiva e autocobrança

Uma assessora comissionada de um órgão público, que prefere não ser identificada, revelou os desafios enfrentados ao lidar com o burnout. Com 14 anos de experiência profissional e mãe solo de dois filhos adolescentes, ela sentiu os primeiros sinais de exaustão em 2019, quando começou a perceber uma falta de energia, vigor e dores de cabeça constantes.

Os sintomas vivenciados ainda incluíram fadiga extrema e insônia, que agravam ainda mais a situação. “Você se sente cansado, mas não consegue dormir. Minha única vontade era/é ficar quieta e isolada”.

Para ela, o que contribuiu para o desenvolvimento da síndrome foram as cobranças excessivas do chefe e a insatisfação constante com seu ofício. “Trabalhar no limite, com insegurança e um chefe sempre insatisfeito, mostrou-se uma situação enlouquecedora. Nunca está bom e suficiente. Você poderia ter feito melhor ou dado mais”, descreveu.

“Burnout não é preguiça de ir trabalhar”

“Quando cheguei no estágio de choro frequente e aparentemente sem motivo, crise de ansiedade ao simplesmente olhar o WhatsApp com as mensagens de trabalho, ou quando via que o chefe estava digitando qualquer coisa no grupo, eu pude perceber o estrago”, expressa.

Ela diz ainda que teve que adotar medidas para sua própria segurança. Isso inclui evitar olhar o celular além do expediente e estabelecer limites para solicitações fora do horário de trabalho.

Além disso, a alagoana busca tratamento semanal em terapia e faz uso de medicamentos prescritos por um psiquiatra. “Também introduzi atividade física na minha rotina matinal, com uma frequência mínima de três vezes por semana. Sem esquecer de me ‘forçar’ a um lazer semanal, qualquer um, como simplesmente assistir a um episódio de uma série ou tomar um café com uma amiga”.

A vítima aconselha a todos que enfrentam rotinas exaustivas e ambientes insalubres a procurarem ajuda profissional e ajustarem seus horários de trabalho, evitando levar trabalho para casa. Ela ressalta a importância de respeitar os limites do corpo e estar atento aos sinais de esgotamento. “Burnout não é preguiça de ir trabalhar ou não gostar do emprego”, enfatiza.

“Não esperem a corda romper para procurar ajuda profissional, estejam atentas aos sinais. Vocês podem também optar por um tempo de afastamento médico do trabalho. No meu caso não foi possível, por se tratar de cargo comissionado, o que certamente geraria um olhar preconceituoso no retorno à atividade, se houvesse retorno”, sinaliza.

O que diz a Lei?
Foto: Cortesia ao Eufêmea

Especialista em Direito Trabalhista e Empresarial, a advogada Sibelle Bastos compartilhou informações sobre a proteção legal oferecida às pessoas que enfrentam distúrbios emocionais no ambiente de trabalho. A Advogada explicou que, quando esses distúrbios estão diretamente relacionados às condições laborais, a legislação trabalhista é a responsável por amparar esses trabalhadores.

“Se a ansiedade, depressão, cansaço extremo, estresse e esgotamento físico, mental ou produtivo estiverem ligados diretamente ao ambiente do trabalho, a legislação que irá proteger este trabalhador será a Lei Trabalhista – CLT [Consolidação das Leis do Trabalho]”, explica a advogada.

Para as mulheres que sofrem de burnout, Sibelle Bastos esclareceu que elas têm direitos específicos assegurados por lei. Esses direitos incluem: reconhecimento da doença ocupacional e o direito a um afastamento de 15 dias, estabilidade provisória no emprego por 12 meses, recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) durante o período de afastamento por auxílio-doença e a possibilidade de receber indenização por danos morais, materiais e emergentes.

Questionada sobre os requisitos para que uma mulher com burnout possa requerer afastamento pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e benefícios previdenciários, como auxílio-doença ou aposentadoria por invalidez, a advogada enfatizou a importância da comprovação da relação entre a doença e as atividades desempenhadas no trabalho.

“Apresentar atestado junto a empresa e se o afastamento foi maior de 15 dias deverá requerer junto ao INSS benefício previdenciário. Além disso, é necessário a comunicação de Acidente de Trabalho emitida pelo empregador e passar por um exame médico-pericial”.

De acordo com ela, é importante também reunir outros documentos. “Reunião comprobatória paralela de atestados, exames, laudos e receitas. A depender da situação poderá ser auxílio doença-previdenciário, acidentário ou aposentadoria por invalidez”, informa.

Em relação ao prazo máximo de afastamento concedido pelo INSS para condições psicológicas, a advogada destacou que o afastamento pode durar enquanto perdurarem as condições que impeçam o segurado de exercer suas atividades profissionais. Isso varia de acordo com cada caso específico.

Sibelle Bastos ressaltou ainda que é responsabilidade do empregador manter um ambiente de trabalho saudável. “Para garanti-lo é necessário que promova ações capitaneadas por profissionais, como por exemplo: psicólogos organizacionais para que atuem de modo a conscientizar e assim evitar o desenvolvimento da doença.”

“Ao se deparar com uma funcionária que esteja passando por questões emocionais, o empregador deve tratá-la de forma humanizada e dar a ela todo apoio necessário segundo determina as leis trabalhistas”, conclui.

Pedimos para a psicóloga Thaís Fagundes separar dicas de prevenção ao burnout para as nossas leitoras. Confira:

  • Aprender a falar não: parece bobo, mas é algo que precisamos aprender. Ser assertivo em nossa comunicação, para não atribuirmos nosso valor como profissional a disponibilidade irrestrita.
  • Perceber suas características de personalidade: identificar o que é seu e o que é do outro. Por exemplo, pessoas que apresentam um alto índice de neuroticismo podem experimentar de forma mais intensa situações estressantes.
  • Flexibilizar o perfeccionismo: você não precisa dar conta de tudo, muito menos de forma perfeita.
  • Permitir ter momentos de autocuidado: o autocuidado vai além de questões estéticas, envolvendo o contato consigo mesmo, com as próprias emoções e pensamentos, experimentando o momento presente sem a intenção de ser produtivo.
  • Identificar e gerenciar o estresse: desenvolver habilidades de gerenciamento de estresse, como a prática regular de exercícios físicos, técnicas de relaxamento e mindfulness.
  • Buscar ajuda profissional: se sentir que os sintomas do burnout estão se intensificando, é importante buscar apoio de profissionais de saúde mental, como psicólogos.
Rebecca Moura

Rebecca Moura

Estudante de Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas e colaboradora no portal Eufêmea, conquistou o primeiro lugar no Prêmio Sinturb de Jornalismo em 2021. Em 2024, obteve duas premiações importantes: primeiro lugar na categoria estudante no 2º Prêmio MPAL de Jornalismo e segundo lugar no III Prêmio de Jornalismo Científico José Marques Melo.