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Isolamento socioeconômico e ambiental: pesquisadoras relatam consequências da mineração

Foto: Jonathan Lins

O colapso da Mina 18, ocorrido no domingo (10), no bairro do Mutange, em Maceió, não apenas destacou a urgência da situação, mas também revelou as condições críticas em que comunidades já fragilizadas se encontram. O Eufêmea conversou com pesquisadoras sobre os impactos da Braskem para explicar sobre as consequências.

À reportagem, Camila Dellagnese Prates, doutora em sociologia e professora visitante na Universidade Federal de Alagoas, apontou para o isolamento socioeconômico das comunidades, especialmente os Flexais. De acordo com ela, o local perdeu não apenas estruturas econômicas, mas também elementos vitais para a sobrevivência.

Isolamento socioeconômico

“A comunidade dos Flexais é uma comunidade que vive com isolamento socioeconômico, ou seja, perderam as formas econômicas e sociais de reprodução da vida”, explicou Prates.

Camila Dellagnese Prates/ Foto: Arquivo pessoaa

A professora ressaltou que o Mutange, área do Bom Parto, também sofre com o abandono e vulnerabilidade, resultando em um aumento significativo no custo de vida.

“Essas pessoas vivem com esses efeitos cumulativos há pelo menos três anos, desde que a destruição da Braskem chegou literalmente à porta de suas casas”, destacou Prates.

No contexto do desastre recente, Prates criticou a falta de ação efetiva da Defesa Civil, apontando para um abandono sistemático. “A possível evacuação está demorando, e as comunidades estão saindo por conta própria, sem auxílio. Elas estão procurando lugares para morar, pagando suas mudanças, saindo e deixando suas casas à mercê, porque não há segurança no local”, alertou.

A falta de informações generalizadas, segundo Prates, impacta severamente a confiança das comunidades nas instituições. Ela referiu-se à “segurança ontológica”, conceito de Anthony Giddens, para explicar como a insegurança gerada pela falta de confiança nas informações modifica a vida cotidiana dessas pessoas.

Abordagem calma e responsiva

“A falta de confiança nas instituições estruturadoras do desastre gera uma sensação de insegurança nas comunidades”, observou Prates.

Em relação à abordagem ideal, ela enfatizou a importância de ouvir as comunidades e levar a sério seus medos e anseios. “Deve ser calma e responsiva, levando em conta as necessidades específicas dessas populações vulneráveis”, ponderou a especialista.

As comunidades afetadas, como os Flexais, Marquês de Abrantes, Vila Saem e Bom Parto, já residiam na chamada “borda do mapa”, na zona de criticidade 01, segundo o mapa oficial da Braskem. Prates enfatizou que essa designação é arbitrária e questionou os critérios usados pela empresa, alegando que não levam em consideração o verdadeiro impacto ambiental e nas vidas dessas pessoas.

“A zona de monitoramento é uma zona fictícia, determinada pela tecnociência da Braskem, e temos alertado que ela é uma zona de ficção”, concluiu Prates.

Situação de vulnerabilidade

“É importante pensar primeiro em toda a construção dessa periferia enquanto periferia, porque essas áreas já eram periféricas, já viviam em situação de vulnerabilidade.” A análise é de Juliane Verissimo Albuquerque Lima, professora, mestranda em Sociologia e pesquisadora do conflito ambiental causado pela exploração minerária da Braskem em Maceió.

Juliane Verissimo/ Foto: Arquivo pessoal

O colapso atual, segundo ela, intensifica uma vulnerabilidade que já está em curso há cinco anos, agravando ainda mais a precária situação dessas comunidades.

A atualização do mapa pela Braskem, empresa responsável pela mineração na região, é um ponto crucial na narrativa. Lima destaca que “o mapa foi atualizado, mas não foi entregue na sua integralidade, não foi disponibilizado para a sociedade como um todo.”

Desconfiança nos órgãos públicos

De acordo com a pesquisadora, essa falta de transparência contribui para um estado de alerta constante entre os moradores, que se veem obrigados a agir por conta própria diante da ausência da Defesa Civil.

“O medo do colapso está somado à falta de informação. Essas pessoas não têm informação segura da Defesa Civil, que é o órgão responsável por passar essa informação para eles.”

Juliane ressalta que a realidade é que, mesmo com a atualização do mapa, as pessoas são convidadas a se mudar para abrigos, gerando outro nível de insegurança relacionado a roubos e assaltos, situação agravada pela profunda desconfiança nos órgãos públicos. “Muitos moradores se recusam a sair de casa por falta de confiança nas intenções das autoridades.”

Ela destaca o impacto a longo prazo do deslocamento forçado de 60 mil pessoas, incluindo especulação imobiliária, inchaço de bairros periféricos e o agravamento da dinâmica urbana.

Racismo ambiental

Além disso, a pesquisadora aborda a presença do “racismo ambiental,” observando que “a implantação da indústria pela Braskem ocorreu em áreas consideradas ambientalmente sensíveis.”

Juliane destaca que essa não resistência impacta diretamente na vida dessas pessoas, pois a mineração ocorre no subsolo dos bairros, muitas vezes sem que a população perceba.

A pesquisadora aponta para a urgência de uma abordagem mais holística e coordenada, enfatizando que essas comunidades periféricas merecem atenção imediata para enfrentar não apenas o colapso atual, mas as complexas disparidades que permeiam seu cotidiano há anos.

Rebecca Moura

Rebecca Moura

Estudante de jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas. Colaboradora do portal Eufêmea.