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Adolescentes sabem evitar filhos? Especialistas alertam para desinformação e tabus

Mesmo com avanços na área da saúde e a crescente disponibilidade de informações, cerca de 20% das adolescentes ainda não sabem como evitar a gravidez, de acordo com uma pesquisa do Ministério da Saúde. A pergunta que fica é: por que isso acontece? O Eufêmea conversou com especialistas para entender as razões por trás desse desconhecimento e como isso afeta a vida das jovens.

Educação sexual

A educadora em saúde sexual e sexualidade, psicóloga Milka Freitas, destaca como um dos desafios a cultura, chamando atenção para o recorte de gênero que também separa a educação de meninos e meninas no quesito sexo.

“É uma questão estrutural mesmo, porque os meninos têm que mostrar potência no sexo e não se preocupar com gravidez, nas outras pessoas, com as infecções, nas outras pessoas, não são neles mesmos”, apontou a psicóloga.

Milka destaca a diversidade de contraceptivos disponíveis, com uma parte significativa sendo fornecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS). No entanto, ela ressalta um aspecto muitas vezes esquecido: o medo e o estigma associados à utilização desses métodos.

“Assim como a adolescente que estou acompanhando de maneira informal, ela está receosa que alguém descubra a presença da caixa de anticoncepcional. Existe o temor de que a gravidez seja revelada, mas ao mesmo tempo, a expectativa de que essa situação seja aceita. No entanto, há a preocupação de como minha mãe reagiria ao ver a caixa de anticoncepcional”, pontua.

A psicóloga também levanta preocupações sobre a possível comercialização de anticoncepcionais masculinos e sua aceitação, alertando para possíveis impactos na disseminação de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).

“Recentemente foi lançado no mercado um anticoncepcional masculino. Não estou ciente do estado atual do desenvolvimento e comercialização desse produto, mas penso que a gente vai piorar consideravelmente a questão das ISTs”, avalia.

Motivação da desinformação sexual

Jéssica Araújo, psicóloga com formação em terapia sexual e especialista em sexualidade humana, enfatiza que durante a adolescência ocorre uma busca por autonomia, o que muitas vezes resulta no afastamento da influência direta dos pais e da escola.

Nesse período, os adolescentes podem buscar informações sobre sexualidade em fontes próprias que, infelizmente, podem ser distorcidas. Além disso, ela analisa que a falta de políticas públicas efetivas para promover a saúde sexual contribui para a escassez de informação de qualidade.

“A ausência de orientação efetiva dos pais, da escola e dos agentes de promoção à saúde deixa o adolescente desamparado em relação à sua saúde sexual, incluindo meios de contracepção e prevenção da gravidez”, destacou Jéssica Araújo.

Para ela, a falta de diálogo aberto sobre sexualidade ainda persiste como um tabu na sociedade, o que contribui significativamente para a falta de informação de qualidade.

“A sexualidade não deveria ser um tabu, e sim um tema abordado de maneira aberta e educativa. É fundamental que pais, escolas e políticas públicas trabalhem em conjunto para proporcionar aos adolescentes o conhecimento necessário para uma vida sexual saudável e segura”, avalia Araújo.

Quais as consequências?

Com pouca ou nenhuma base em educação sexual, os adolescentes ficam mais vulneráveis a terem amizades e relacionamentos íntimos abusivos e sofrerem algum tipo de violência. Jéssica expõe que a falta de informação também pode levar a opressão de grupos de minorias (LGBTQIA+), deixando-os mais vulneráveis ao estresse emocional.

Ela destaca ainda que a falta de conhecimento por parte dos principais responsáveis pelos cuidados com os adolescentes é um dos principais desafios enfrentados por esses jovens ao buscar informações sobre contracepção e prevenção de gravidez. “Uma gravidez indesejada e contrair uma IST podem ser experiências traumáticas na vida do adolescente”, alerta Araújo.

A especialista pondera que além da adolescente ainda não ter maturidade suficiente para lidar com todas as mudanças e responsabilidades que a própria gravidez e maternidade trazem, muitas relatam sentir solidão, sensação de falta de apoio, abandono do pai da criança, necessidade de afastamento dos estudos, o adiamento/interrupção de alguns planos e experiências.

“O mesmo estudo que traz a evidência dos 20% das adolescentes que não sabiam como evitar a gravidez, também traz evidências de sinais de depressão, ansiedade e estresse na população pesquisada.”

Desinformação vem dos pais

Além de abordar a importância do diálogo aberto na educação sexual dos adolescentes, ela aponta que a desinformação não se limita apenas aos jovens, mas também atinge muitos pais que, além de buscar conhecimento para repassar, precisam estar abertos ao contato, sem julgamentos, posturas críticas ou ameaçadoras.

“É fundamental que seu filho saiba que tem proteção, que tem a quem recorrer, que pode ter você como referência de cuidado”, acrescenta.

Rebecca Moura

Rebecca Moura

Estudante de jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas. Colaboradora do portal Eufêmea.