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Golpe do amor: mulheres são mais vulneráveis? Veja como se proteger do estelionato amoroso

“Os criminosos seduzem suas vítimas, criando relações de afeto à distância que são alimentadas e nutridas por aplicativos de mensagem. Eles constroem confiança com a mulher e demandam contribuições financeiras, obtendo acesso às contas e ao patrimônio”, explica a advogada especialista em Direito Digital e Inovação, Ariane Ferreira Ferro.

Esse é o golpe do amor virtual, também conhecido como estelionato amoroso. No Brasil, quatro em cada dez brasileiras afirmam já ter sido vítimas desse tipo de golpe ou conhecem alguém que foi, conforme aponta pesquisa realizada pela organização “Era Golpe, Não Amor”, uma hub sem fins lucrativos que oferece suporte a mulheres vítimas de golpes financeiros em relacionamentos amorosos.

O que diz a lei?

O estelionato amoroso não é especificamente tipificado no Código Penal brasileiro. No entanto, é possível encontrar amparo legal em outros dispositivos legais, como o artigo 171 do Código Penal, que trata do crime de estelionato.

“Existe punição para esse crime, é possível fazer um boletim de ocorrência e perseguir o processo criminal normalmente, como se fosse qualquer outro crime que a gente tenha mais familiaridade”, explica Ariane Ferro.

A advogada explicou que o estelionato digital amoroso é um tipo de violência contra a mulher que ocorre em um contexto digital. “Mais precisamente, é uma forma de violência doméstica de natureza patrimonial e psicológica, que acaba sendo muito impactante para a mulher”, destaca.

Foto: Arquivo Pessoal

Ela explica ainda que, como em qualquer outra violência contra a mulher, existem medidas protetivas que podem ser acionadas. “Pode ser adotada qualquer medida que se mostre necessária, seja o processo criminal contra o criminoso que praticou o estelionato, ou uma indenização civil para a vítima pelos danos causados”, pontua.

Defesa contra ataques cibernéticos

Em termos de segurança digital, Ferro enfatizou que o comportamento preventivo é a melhor defesa contra ataques cibernéticos. “A nossa maior defesa, nossa defesa preliminar no momento de um ataque digital, é o nosso comportamento”, afirmou a advogada.

Ela compartilhou ainda dicas para evitar exposição na internet, destacando a importância de nunca divulgar informações pessoais a indivíduos não verificados. “Sempre evite informar onde você está, fornecer seu endereço ou compartilhar seus dados pessoais com pessoas cuja identidade e confiabilidade você ainda não confirmou”, aconselhou.

Além disso, Ariane fez uma analogia entre a segurança online e as precauções no mundo físico. Ela enfatizou a importância de conhecer novas pessoas com cautela e não permitir que estranhos tenham acesso a informações sensíveis, como senhas e contas pessoais.

“Estamos lidando com a mesma coisa de sempre: pessoas. E as pessoas precisam sempre de cautela, elas demandam sempre muita cautela de todos nós”, reforçou.

Estereótipos de gênero

Estudos apontam que cerca de dois terços das vítimas de fraude romântica são mulheres, com uma média de idade de 50 anos. No entanto, a psicóloga clínica com formação em Terapia do Esquema para casais, Natasha Taques, expõe que essa afirmação é um estereótipo e não reflete necessariamente a realidade.

“É importante reconhecer que qualquer pessoa, independentemente do gênero, pode ser vítima desse tipo de golpe. Além disso, os homens tendem mais a evitar fazer denúncias, o que é atribuído a outro estereótipo de que não podem expressar vulnerabilidades e fraquezas”, explica.

A partir do ponto de vista da psicologia, Natasha aponta alguns padrões comportamentais específicos que podem tornar as mulheres mais suscetíveis a cair em golpes de relacionamento.

Veja a seguir:

Desamparo e submissão: Mulheres que têm sentimentos de desamparo ou submissão podem se sentir mais propensas a aceitar comportamentos abusivos ou manipulativos de um parceiro, mesmo quando esses comportamentos levantam bandeiras vermelhas.

Desvalorização pessoal: Mulheres que não desenvolveram um senso de valorização pessoal podem buscar validação externa e aceitar relacionamentos que não são genuínos, na esperança de se sentirem mais valorizadas e amadas.

Dependência ou medo do abandono: Mulheres que têm dependência emocional ou medo de abandono podem ficar presas em relacionamentos prejudiciais por medo de ficarem sozinhas ou de perderem o apoio emocional de seus parceiros.

O auto sacrifício: Mulheres que vivem um padrão de auto sacrifício podem colocar as necessidades e desejos de seus parceiros acima dos seus próprios, o que pode facilitar a manipulação por parte de golpistas emocionais.

“O mais importante aqui é compreender que nossos padrões são estabelecidos muito precocemente, na infância e adolescência, ao presenciar ou vivenciar situações que permitem o desenvolvimento deles. Isso é algo muito profundo e individualizado. Portanto, se a pessoa percebe esses comportamentos hoje, o processo terapêutico é crucial para compreender e cuidar das feridas do passado, fortalecendo e protegendo para o futuro”, explica a psicóloga.

Natasha expõe ainda que vários fatores sociais e culturais podem contribuir para que as mulheres sejam mais frequentemente alvo de golpes relacionais:

Expectativas de gênero: As expectativas sociais de como as mulheres devem se comportar em relacionamentos, como serem mais empáticas, cuidadoras e submissas, podem torná-las mais propensas a serem exploradas por parceiros manipuladores ou abusivos.

Pressão social para relacionamentos: As mulheres muitas vezes enfrentam pressão social para se casarem ou estabelecerem relacionamentos românticos, o que pode levar algumas a se envolverem em relacionamentos prejudiciais por medo de ficarem sozinhas ou serem vistas como “fracassadas” socialmente.

Desigualdades de poder: Em muitos contextos sociais, as mulheres ainda enfrentam desigualdades de poder em relação aos homens, o que pode deixá-las em posições de vulnerabilidade financeira, emocional ou social em relacionamentos, tornando-as alvo mais fácil para golpistas.

Cultura do romance: A cultura popular muitas vezes idealiza o romance e o amor romântico, o que pode levar as mulheres a buscarem ativamente relacionamentos sem considerar sinais de alerta de manipulação ou abuso.

Estigma da solteirice: Em algumas culturas, o estigma associado à solteirice pode levar as mulheres a se sentirem pressionadas a se envolverem em relacionamentos, mesmo que não sejam saudáveis.

“Esses fatores sociais e culturais podem criar um ambiente no qual as mulheres estão mais suscetíveis a serem vítimas de golpes relacionais, pois podem sentir-se obrigadas a manter relacionamentos a qualquer custo, mesmo que isso signifique tolerar comportamentos prejudiciais”, conclui.

Rebecca Moura

Rebecca Moura

Estudante de jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas. Colaboradora do portal Eufêmea.