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Mulheres no volante: Elas superaram o medo e conquistaram autonomia com a CNH

“Eu tirei a CNH [Carteira Nacional de Habilitação] em meio a um drama pessoal, com 39 anos. Sempre tive meu marido para tudo, dirigir era uma coisa distante, na verdade eu tinha medo! Quando ele morreu, em agosto de 2016, me vi numa situação onde tinha um carro na garagem de casa sem ter como sair, porque não sabia dirigir”, disse a jornalista Janaina Farias, que tirou a primeira habilitação nove meses após a morte do marido.

Em Alagoas, existem 693.397 pessoas com Carteira Nacional de Habilitação (CNH), sendo que 187.516 são mulheres aptas para conduzir qualquer tipo de veículo, em todas as cinco categorias (A, B, C, D e E). São mulheres que pilotam desde motocicletas até caminhões e carretas.

“Nunca pensei em desistir”

Foto: Cortesia

Após a perda, Janaína relata que percebeu a necessidade urgente de assumir o volante para cuidar de sua família. “Meus filhos na época tinham 9 e 16 anos. Eu precisava fazer compras de supermercado, levá-los para a escola, festas de aniversário, casa de amigos, e aquilo foi me afligindo”, explica ao Eufêmea.

Determinada a superar esse obstáculo, Janaína expõe que decidiu ter coragem e embarcar na jornada para obter sua habilitação. Apesar dos desafios, incluindo três tentativas malsucedidas, ela se recusou a desistir.

“Só passei na quarta tentativa, mas nunca pensei em desistir, nem por mim nem pelos meus filhos. Quando passei, chorei muito de felicidade, primeiro porque consegui vencer um grande desafio e segundo porque um filme passou pela minha cabeça, lembrando de tudo que já havia vivido. Eu estava fazendo aquilo por mim, por ele [o marido] e pelos meus filhos”, afirma.

No entanto, nem todos os momentos foram fáceis. A jornalista relata um incidente em particular, quando se envolveu em um acidente de carro enquanto dirigia sozinha para o trabalho. “Bati o carro na entrada do órgão onde trabalho. Amassei as duas portas do lado do passageiro. Felizmente, não houve ferimentos físicos, mas o carro sofreu danos significativos e fiquei bastante abalada”, desabafa. Apesar do contratempo, Janaína se recusou a ceder ao desespero, repetindo para si mesma: “Eu não vou desistir”.

A determinação de Janaína não apenas a ajudou a superar seu medo, mas também a se tornar uma fonte de inspiração para outras mulheres que enfrentam desafios semelhantes. “Hoje me sinto empoderada e feliz por ter tido coragem, servindo de inspiração para muitas mulheres que, como eu, conquistaram a carteira de motorista em uma idade mais avançada”, compartilha.

Ajuda especializada

No episódio de Janaina, a tentativa de tirar a CNH só veio após anos devido à necessidade de se locomover. Mas para muitas pessoas, a dificuldade ao volante pode ser atribuída a algum trauma. É o caso da jornalista Vanessa Alencar, 49 anos.

Foto: Cortesia

Vanessa compartilhou sua experiência traumática ao tentar tirar sua CNH pela primeira vez, aos 18 anos. Durante uma aula prática, seu instrutor, que já havia ensinado sua avó e sua mãe a dirigir, acidentalmente a deixou em uma situação de aflição.

“Ele puxou o freio de mão em uma rua movimentada do Centro da cidade, porque achou que eu não pararia em um semáforo. Fiquei tão aflita com os outros motoristas buzinando e xingando que ‘travei’ e não consegui mais dar a partida no carro”, conta Vanessa.

Uma pesquisa da Abrantes [Associação Brasileira de Medicina de Tráfego], constatou que o medo de dirigir atinge pelo menos dois milhões de brasileiros e que 80% são mulheres. Na mesma linha de estudo, a Psicotran, Clínica de Psicologia do Trânsito, revelou que 90% das mulheres receiam dirigir.

Após o incidente, Vanessa levou 18 anos para superar o trauma e tentar dirigir novamente. Alencar foi incentivada a ingressar na autoescola e, aos 36 anos, finalmente obteve sua CNH. Na turma, onde todos se apresentaram dizendo “tenho 18 anos”, Vanessa destacou com humor: “tem 18 anos que fiz 18 anos”.

De acordo com ela, o receio de atrapalhar outros motoristas e a pressão para ser perfeita contribuíram para sua ansiedade no volante. Foi assim que ela decidiu buscar ajuda especializada. Participando de aulas-terapia sobre rodas, Vanessa encontrou apoio na instrutora Sheila, que a encorajou a aceitar seus erros e a entender que todos podem cometer falhas. “Por incrível que pareça, funcionou! […] Eu parei de me preocupar”, diz.

“Uma coisa que ela me disse logo no começo, nunca saiu da minha cabeça: Você pode errar. Todo mundo erra. Você não precisa acertar o tempo todo. E se alguém, atrás de você, não entender isso, pense que aquela pessoa também erra e deixe ela buzinar sozinha… Respire, esqueça que ela existe e continue”, diz.

Insegurança e pânico

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Apesar do medo do volante ter atrasado sua conquista da CNH por alguns anos, existem exemplos de mulheres que, ao perceberem a dificuldade e o medo ao dirigir, buscam imediatamente ajuda para mudar essa realidade. É o caso de Ana Carolina de Albuquerque Costa, uma estudante de odontologia de 21 anos.

Ela compartilha sua experiência de superar o medo de dirigir, um desafio que a acompanhou desde o início de sua jornada na autoescola. “Tirei minha CNH com 19 anos, mas foi uma jornada difícil. Perdi a prova quatro vezes, e isso me deixou muito insegura”, Ana Carolina explicou.

Ela atribui parte desse medo à pressão e à ansiedade que sentia ao dirigir com sua mãe, que a impaciência só aumentava sua própria ansiedade. “Dirigir se tornou sinônimo de pânico para mim”, admitiu.

Ana Carolina também destacou o medo do julgamento alheio no trânsito, o receio de ser criticada por dirigir devagar demais ou rápido demais. De acordo com ela, essa preocupação constante com a opinião dos outros tornou sua experiência ainda mais angustiante.

Porém, a estudante não permitiu que o medo a dominasse para sempre. Após um ano sem dirigir, ela decidiu enfrentar seu receio com a ajuda de um profissional.

“Depois das aulas, comecei a dirigir para todos os lugares, a me sentir segura e parei de me preocupar com o que os outros estão pensando”, compartilhou.

Como superar o medo?

Foto: Cortesia

Mas quais são as técnicas e conselhos para ajudar mulheres a superarem o medo de dirigir? A instrutora de trânsito Thaise Rodrigues compartilha os passos para conquistar a independência ao volante.

Ao trabalhar diariamente com alunas que enfrentam o medo do trânsito, Thaise identifica a origem desse receio e adota abordagens cuidadosas para auxiliar na superação. “Procuro manter a calma, peço para relaxarem, compreendo os limites e não exijo muito no início”, compartilha Thaise.

Entre as técnicas utilizadas em suas aulas práticas, Thaise destaca o relaxamento, incentivando a respiração profunda, meditação e visualização para controlar a ansiedade ao dirigir. “Treino, prática, familiarizar-se com o veículo, optar por os horários mais calmos, dirigir sempre ao lado de uma pessoa experiente. Isso ajuda bastante e são algumas técnicas que eu utilizo em minhas aulas”, recomenda.

Além da independência, as mulheres também ampliam suas oportunidades de emprego, elevam a autoestima e contribuem para a segurança no trânsito. “Só existem benefícios. O maior deles é realmente a independência da condução do veículo. Você tem o direito de poder ir e vir sem depender de ninguém”, pontua a instrutora.

Thaise observa que, muitas vezes, o medo de dirigir em mulheres está relacionado a questões culturais, ambientais ou traumas anteriores.

“Na maioria das vezes, as questões técnicas não são repassadas para as mulheres. Os homens geralmente têm uma associação mais próxima com o veículo, muitas vezes devido a um parente que começa a ensinar os procedimentos desde cedo. Com as mulheres, a abordagem é bem diferente. Além disso, vejo um certo teor de machismo nesse aspecto”, comenta.

“O medo faz parte da nossa vida”

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Vivendo numa sociedade machista, não crescemos aspirando estar nesse lugar de motorista, analisa Mirella Costa, psicóloga especialista em clínica fenomenológico-existencial. De acordo com ela, mulheres crescem sem acreditar que podem dirigir ou serem responsáveis por um carro, já que crescem ouvindo comentários como “mulher no volante, perigo constante” e outros como “só podia ser uma mulher”.

Em 2023, as mulheres cometeram 9% menos infrações que os homens, proporcionalmente ao universo de condutoras e condutores, em autuações registradas pelos órgãos federais, municipais e estaduais. Do total de condutoras que possuem CNH, 28,41% cometeram infrações, enquanto os homens representaram 37,16% dentre os habilitados. Os dados são do Detran Alagoas.

“Diariamente, vários acidentes de trânsito ocorrem, sendo a maioria protagonizada por homens, no entanto, o gênero não é frequentemente considerado uma questão nessas situações. Os erros cometidos por homens na direção são percebidos como problemas individuais, atribuídos aos homens específicos que os cometeram. Por outro lado, os erros cometidos por mulheres são geralmente generalizados, criando a ideia de que é um problema das mulheres em geral, em vez de algo individual, como é o caso dos homens”, analisa a psicóloga.

De acordo com a psicóloga, cada mulher vai sentir as situações de forma singular. Ela também destaca que o medo faz parte da vida, principalmente quando se fala de algo que inspira tantos cuidados.

“No entanto, é importante estar atenta a si mesma para compreender até que ponto aquele medo não aparece mais apenas como algo que nos aponta para uma atitude mais cautelosa no trânsito, e sim, para uma privação daquela experiência”, continua.

Segundo Mirella, compreender o medo de dirigir vai além da simples questão do tráfego: “Tudo que nos aparece como um problema e nos faz sofrer não está isolado de nossa história de vida e do mundo em que vivemos.”

O trabalho psicoterapêutico proposto por Mirella não busca estratégias práticas imediatas, mas sim um caminho de autoconhecimento e liberdade. “A psicoterapia visa entrar em contato com a história da mulher, permitindo que ela encontre um novo significado em relação à direção, livre das restrições impostas pelo medo extremo”, explica a psicóloga.

Ela ressalta que o progresso pode se manifestar de diversas formas, desde a decisão de continuar dirigindo em cenários diferentes até a escolha de não dirigir mais, dependendo do que faça sentido para cada mulher em sua jornada única de superação.

Para Mirella, o encontro consigo mesma é o cerne desse processo de progresso, independentemente da relação final com o volante. “No fim, o encontro consigo mesma é o que vai dar o tom para uma relação que faça mais sentido para si”, conclui a psicóloga,

Rebecca Moura

Rebecca Moura

Estudante de jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas. Colaboradora do portal Eufêmea.