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Qual a importância do autocuidado na saúde mental materna? Psicólogas alertam para sobrecarga

Foto: Jullyana Tenório/Cortesia

“Cuidar de si, dentro das próprias condições possíveis, é essencial para uma maternidade mais leve e feliz. Por isso é importante romper com o imaginário social de que a mãe perfeita existe e que a maternidade é anular-se. Maternidade não é rompimento, é continuação”, explica a psicóloga perinatal e parental, Jullyana Tenório.

Dados da pesquisa “De Mãe em Mãe”, com foco na saúde mental das mães brasileiras, mostram que 97% das mulheres se sentem sobrecarregadas quase todos os dias da semana e 94% dizem que estão desgastadas.

O Eufêmea traz a campanha para o mês das mães chamada ‘Mãe, o cuidado começa em você’. O principal objetivo da campanha é conscientizar e incentivar as mães a priorizarem seu próprio bem-estar físico, mental e emocional. Segundo a CEO do Eufêmea, a jornalista Raíssa França, a campanha foi pensada a partir da reflexão: quem cuida de quem cuida?

Segundo a psicóloga Jullyana Tenório, o autocuidado é importante porque permite que as mães recarreguem suas energias físicas, mentais e emocionais, o que as torna mais leves para lidar com os desafios da maternidade.

Ao reservar um tempo para atividades que promovam o bem-estar pessoal, como exercícios físicos, meditação, hobbies e descanso, as mães podem renovar sua vitalidade e reduzir o estresse e a exaustão. “Para encontrar um equilíbrio saudável entre cuidar de si mesma e cuidar dos filhos, as mães podem adotar algumas estratégias práticas baseadas em cada realidade”, recomenda a psicóloga.

Dificuldades emocionais

Os principais desafios enfrentados pelas mães no pós-parto incluem a pressão para se adequarem ao ideal da “mãe perfeita”, um conceito socialmente construído e muitas vezes irreal, analisa a psicóloga. Além disso, durante esse período, as mães também lidam com mudanças corporais e hormonais, privação de sono, exaustão e possíveis problemas de relacionamento conjugal.

“As mulheres podem enfrentar estigma e falta de apoio social ao lidar com questões de saúde mental durante a gravidez e após o parto, por ser um período considerado “feliz e pleno” socialmente”, alerta Jullyana Tenório.

A especialista alerta sobre as mães que lutam contra a ansiedade e a depressão e podem se sentir sobrecarregadas pelas demandas da maternidade.

“A preocupação constante, o medo do desconhecido e a sensação de incapacidade podem deixá-las exaustas e emocionalmente esgotadas. Como resultado, elas podem ter dificuldade em oferecer o apoio emocional e a atenção necessária ao filho”, destaca a especialista.

A psicóloga destaca a importância de estar atento às mudanças significativas no comportamento das mães, que podem sinalizar dificuldades emocionais.

“Alguns dos sinais de alertas são isolamento social, irritabilidade, choro frequente, falta de interesse em atividades que antes eram apreciadas e alterações no padrão de sono e alimentação, falta de energia, fadiga constante, dificuldade em se concentrar e tomar decisões, bem como sintomas físicos inexplicáveis, como dores de cabeça, dores no corpo e problemas gastrointestinais”, alerta.

Veja as dicas da especialista para enfrentar problemas de saúde mental relacionados  a maternidade:

  • Priorizar sua saúde mental: Não hesite em buscar ajuda profissional, como terapia ou aconselhamento psicológico. Cuidar de si mesma é fundamental para cuidar do seu bebê.
  • Aceite ajuda, aceitar ajuda é importante para o seu bem-estar e o do seu bebê, aceitar ajuda não é uma vulnerabilidade, é uma necessidade.
  • Não se cobre tanto, lembre-se de que nenhuma mãe é perfeita e que está tudo bem pedir ajuda quando necessário. Cuide de si mesma com gentileza e compaixão.
  • Converse sobre seus sentimentos, não guarde seus sentimentos para si mesma. Falar sobre suas dificuldades com pessoas de confiança pode ajudá-la a se sentir compreendida e apoiada.
  • Faça pausas sempre que tiver oportunidade, tente tirar um tempo para si mesma sempre que puder, mesmo que seja apenas alguns minutos para respirar fundo, meditar ou praticar alguma atividade que te faz bem.

Burnout materno

Foto: Cortesia

Por isso, é necessário compreender que a maternidade não é somente um mar de rosas. As mães enfrentam desafios diversos e precisam ser ouvidas e cuidadas.

“Para muitas crianças, ‘mãe’ é a personificação da criação mais incrível, e para muitas mães, os ‘filhos’ são a maior dádiva de suas vidas”, diz Kaliny Oliveira, psicóloga clínica e mestra em saúde da mulher e da criança.

Kaliny alerta para o burnout materno, que assim como o burnout tradicional está marcado por uma alta carga de estresse emocional, gerado por inúmeras exigências, porém, se diferencia pela não possibilidade de pedir uma folga, férias ou a “demissão dos filhos”.

“O burnout materno pode gerar esgotamento, exaustão, irritabilidade, crises de ansiedade, insônia, estresse crônico, quadro depressivo e as pessoas podem ficar mais suscetíveis a doenças psicossomáticas e autoimunes. O estresse tóxico é um fator de risco importante e pode afetar a saúde mental materna a longo prazo”, destaca.

Kaliny destaca a importância de ser uma mãe que se percebe, reconhece os seus limites, cuida de si mesma para se manter funcional e aproveitar cada momento com os filhos.

“A gestão do autocuidado é cuidar do corpo, do cabelo, da pele, praticar um esporte, realizar uma atividade física que a interessa, tomar um café com as amigas e outras atividades, são estratégias que organizam o seu interior, fortalecem e potencializam habilidades peculiares de cada mulher, possibilitando construir uma maternidade mais leve”, expõe.

Ela ressalta que quando nos tornamos adultos não recebemos um manual de instruções de como gerir uma vida equilibrada e como devemos criar os filhos.

“Tenhamos em mente que não deveríamos nos culpar tanto, e não menos importante, precisamos avaliar o tempo que dedicamos a cada contexto. E pense, a forma como você administra o seu dia é saudável para você? Você consegue equilibrar a maternidade e o autocuidado?”, questiona.

Rede de apoio

Foto: Cortesia

Diante das inúmeras responsabilidades da maternidade, para manter uma rotina de autocuidado é necessário que as mães tenham uma rede de apoio sólida que proporcione um ambiente de acolhimento e cuidado, analisa a psicóloga clínica, perinatal e parental Christiane Cruz. “É tão importante a rede de apoio, esse autoconhecimento”, afirma Cruz.

Ela ressalta que, muitas vezes, o planejamento familiar da chegada do bebê não é possível, o que torna ainda mais crucial a busca por uma estabilidade viável dentro desse novo papel. “A responsabilidade de trazer uma criança, de criar uma criança, é uma mudança que requer um diálogo aberto sobre a maternidade real e possível, além da saúde mental materna”, complementa.

A psicóloga destaca que o companheiro e outros membros da rede de apoio desempenham um papel vital nesse processo. Ela reforça ainda a importância de combater a sensação de culpa que muitas vezes vem do julgamento social, incentivando as mães a cuidarem de si mesmas.

“Se a pessoa que ocupa esse lugar de rede de apoio diz ‘eu fico’, isso vai gerar na mãe uma tranquilidade e a não culpa”, explica.

Para Christiane Cruz, a prevenção e promoção da saúde mental materna devem começar o quanto antes, idealmente no planejamento familiar. “É fundamental que a mulher já procure no planejamento familiar o profissional de saúde mental, o psicólogo perinatal, para começar a acompanhar desde a gestação até o pós-parto”, destaca.

A psicóloga ressalta a importância do pré-natal psicológico (PN) como uma ferramenta de prevenção. O PNP é uma prática complementar ao pré-natal tradicional, voltado para maior humanização do processo gestacional, e se propõe a prevenir situações adversas potencialmente decorrentes desse processo.

“Se está planejando engravidar, então já procure a psicóloga perinatal para se preparar nesse planejamento”, explica. Ela enfatiza que o acompanhamento preventivo durante a gestação e o pós-parto pode reduzir significativamente os casos de transtornos mentais maternos.

Rebecca Moura

Rebecca Moura

Estudante de jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas. Colaboradora do portal Eufêmea.