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“A maternidade é vista como um peso para as empresas”: mãe relata desafios em conciliar cuidados com o filho e trabalho

“Quero muito acreditar que, diferente das minhas experiências, outras mães serão acolhidas em seus locais de trabalho. Porém, a realidade que vejo em amigas e outras mães é a mesma: a maternidade é um peso para as empresas”, relata Marcelle Chagas Santos, que trabalhou por 20 anos na área de Turismo, mas deixou o emprego CLT devido à falta de condições para cuidar do seu filho.

Maternidade e Mercado de Trabalho

Uma pesquisa realizada pela Infojobs entre fevereiro e março de 2024, com 742 mulheres entre 18 e 60 anos, revelou dados preocupantes sobre a relação entre maternidade e mercado de trabalho. De acordo com o levantamento, 86% das mulheres acreditam que a maternidade é vista de forma negativa pelas empresas.

Entre as mulheres que participaram da pesquisa, 52% são mães ou têm a responsabilidade de cuidar de uma criança. Destas, 74% já deixaram o emprego ou, ao menos, cogitaram fazê-lo para se dedicar aos filhos.

Consultas médicas e pressão no trabalho

Foto: Cortesia

Mãe de um menino de nove anos diagnosticado com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), Marcelle lembra que, na época em que investigava um possível diagnóstico, precisou fazer um verdadeiro malabarismo para conseguir levar seu filho às consultas.

Sempre tentava marcar as consultas em horários que não coincidissem com meu expediente, usando meu horário de almoço ou saindo mais tarde. No entanto, os médicos atendem em horário comercial.

Marcelle conta que sempre fazia questão de pedir aos médicos o atestado de acompanhamento após as consultas para justificar sua ausência no trabalho. No entanto, ela afirma que, ainda assim, ouviu da gerente que o atestado não tinha “valor legal”.

Segundo Marcelle, essa não foi a única vez em que suas demandas da maternidade foram enxergadas de maneira negativa e tratadas como empecilho dentro do ambiente de trabalho. “Em outro momento, ia sair mais cedo para levá-lo a uma consulta que já estava aguardando há mais de três meses. Quando estava saindo para pegar meu filho na escola e levá-lo à consulta, fui duramente criticada”, desabafa.

Ela relembra que um cliente chegou no momento em que ela estava para sair, e seus superiores afirmaram que ela precisava atendê-lo antes de ir ao compromisso com seu filho, pois o “cliente estava em primeiro lugar”.

Todas essas situações afetaram o desempenho de Marcelle no trabalho. Segundo ela, enquanto precisava lidar com as questões do seu filho sem nenhum apoio ou compreensão da empresa, bater metas e ter bons rendimentos era inviável.

Atuando como depiladora desde 2023, Marcelle viu no empreendedorismo uma alternativa para se dedicar aos cuidados com seu filho sem precisar abrir mão da sua independência financeira.

O que pode mudar dentro das empresas?

Foto: Cortesia

As experiências vivenciadas por Marcelle e os dados da pesquisa realizada pela Infojobs refletem uma realidade em que os estereótipos e preconceitos de gênero persistem em nossa sociedade e são replicados nos ambientes de trabalho.

De acordo com a gestora de Recursos Humanos Wanessa Espírito Santo, existe uma série de ações que podem ser implementadas dentro das empresas para apoiar as mulheres que são ou desejam se tornar mães.

“A empresa pode oferecer uma licença-maternidade prolongada, com um período de licença mais longo do que o exigido por lei, para que as mães possam se recuperar e se adaptar ao novo papel”, afirma Wanessa.

Ela também destaca a importância da licença-paternidade dentro deste cenário: “Precisamos incentivar e normalizar a licença-paternidade para que as responsabilidades familiares sejam divididas de forma equilibrada”, reforça.

Para além das políticas de licença, Wanessa cita ações como promover uma cultura inclusiva, com campanhas de conscientização sobre a maternidade; promoções e oportunidades de desenvolvimento de carreira e avaliação justa do desempenho da funcionária sem considerar as ausências de licença-maternidade.

“Empatia e sensibilidade são fatores determinantes para atender às necessidades de cada mãe. É importante reconhecer as necessidades individuais de cada uma e estar aberto a ouvir suas preocupações e sugestões”, conclui Wanessa.