Colabore com o Eufemea
Advertisement

Mulher, política e família: o preço afetivo que os homens nunca precisaram pagar

Foto: Freepik

Depois de anos trabalhando com oito políticos diferentes, aprendi uma verdade que ninguém admite em voz alta: política e família nunca são assuntos separados. Mas quando falamos de uma mulher que está na política, essa mistura pesa mais. Existe uma construção histórica, cuidadosamente alimentada pelo patriarcado, de que a mulher não deve estar na política, que esse espaço não lhe pertence e que sua presença ali é sempre um desvio, nunca um direito.

Quando uma mulher entra para a política, a família quase sempre entra junto, não como apoio, mas como supervisão. Como assim?

Diferente do que acontece com os homens, cuja vida pública é tratada como uma trajetória individual, a entrada da mulher na política costuma vir acompanhada de opiniões, alertas e “conselhos”. Os homens da família se envolvem como se essa mulher não tivesse condições de conduzir o próprio mandato ou tomar suas próprias decisões.

Não que a família dos homens não participe da política, participa, claro, mas raramente com a mesma intensidade de cobrança, “conselhos” e opiniões. Quando o homem está na posição de liderança, os familiares orbitam, oferecem suporte, fazem encorajamento. Mas quando é a mulher, a família intervém: opina, avalia, corrige, questiona, duvida.

E isso nasce de uma cultura que historicamente ensinou as mulheres a duvidarem de si e ensinou os homens a duvidarem delas. Simone de Beauvoir dizia que a mulher é sempre tratada como “o outro” e, na política, essa lógica se intensifica. A mulher é constantemente lembrada de que está invadindo um espaço que não foi feito para ela e, por isso, deve explicações, satisfações e justificativas, principalmente aos homens da própria casa.

E quando ela não obedece às expectativas familiares, quando toma decisões que não agradam, quando escolhe caminhos que rompem com a vontade masculina, o preço aparece rápido: afastamentos, tensões, silêncios, rupturas. Porque a política, para a mulher, não desorganiza apenas o espaço público. Muitas vezes, desorganiza também o afeto.

Já o homem que está na política tem a garantia de que sua família se moldará ao seu projeto político e que o apoio “emocional” estará ali, aconteça o que acontecer.

O mundo político foi uma grande escola para mim. Eu nem pensava em estudar gênero quando comecei… Hoje, depois de anos observando comportamentos, relações de poder e dinâmicas familiares atravessadas pela disputa eleitoral, eu entendo perfeitamente por que tantas autoras afirmam que a política é um espelho do patriarcado.

Para uma mulher chegar até lá, antes de tudo, ela precisa sobreviver ao julgamento dentro da própria casa.

Estou no Instagram: @raissa.franca


Foto de Raíssa França

Raíssa França

Cofundadora do Eufêmea, Jornalista formada pela UNIT Alagoas e pós-graduanda em Direitos Humanos, Gênero e Sexualidade. Em 2023, venceu o Troféu Mulher Imprensa na categoria Nordeste e o prêmio Sebrae Mulher de Negócios em Alagoas.
plugins premium WordPress