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O “lado B” das festas natalinas: por que o final de ano dói para alguns?

Por Ana Paes, psicóloga e especialista em Neuropsicologia

Enquanto as vitrines se iluminam e o calendário social se sobrecarrega, um fenômeno silencioso atravessa os consultórios de psicologia: a melancolia de final de ano. O que muitos chamam de “ressaca emocional”, antes mesmo das festas, não é apenas um fenômeno psicológico ou social, uma vez que possui raízes profundas na neurobiologia e na forma como o nosso cérebro processa o fechamento de ciclos. Para a mulher, frequentemente sobrecarregada pela jornada tripla e pela gestão emocional da família, esse peso pode ser ainda mais agudo.

Do ponto de vista da neurociência, o fim de ano reúne uma combinação forte de estímulos sensoriais intensos, demandas sociais prolongadas e ativação de memórias emocionais. Esses fatores acionam, ao mesmo tempo, diferentes circuitos cerebrais ligados à percepção, à regulação emocional, ao estresse e à memória. Quando essa ativação ocorre de forma contínua, o sistema nervoso pode entrar em sobrecarga, tanto em pessoas neurotípicas quanto em neurodivergentes.

O tribunal do córtex pré-frontal

As festas exigem muito mais do que presença física. É preciso manter atenção social, controlar emoções, responder adequadamente às interações e, muitas vezes, administrar conflitos familiares. Todas essas tarefas dependem do córtex pré-frontal, área cerebral ligada às funções executivas e à autorregulação emocional.

Quando essa região é sobrecarregada por longos períodos, surgem sintomas como exaustão mental, dificuldade de concentração, menor tolerância ao estresse e maior reatividade emocional. Esse cansaço nem sempre é reconhecido como legítimo, o que contribui para sentimentos de culpa e autocrítica.

Além disso, as festas natalinas produzem uma intensa ativação dessa região, que também é responsável pelo planejamento e pela avaliação de metas. Quando confrontamos o “eu idealizado”, aquele que projetou mudanças em janeiro, com o “eu realizado”, o que de fato foi possível concretizar, o hiato entre expectativa e realidade dispara uma queda nos níveis de dopamina. O resultado é uma sensação de vazio, frustração e uma fadiga que o descanso físico parece não curar.

Amígdala e as âncoras sensoriais

Datas simbólicas como Natal e Ano Novo são ricas em estímulos sensoriais, como músicas, aromas e decorações. Para o cérebro, esses estímulos funcionam como poderosas âncoras de memória e ativam os circuitos de memória emocional. Esse processo favorece balanços automáticos sobre o ano que passou: o que foi vivido, o que se perdeu, o que não aconteceu. O hipocampo, nosso centro de armazenamento de memórias, e a amígdala, nosso sentinela emocional, trabalham em conjunto para reativar lembranças de perdas, lutos ou ausências.

Para muitas pessoas, esse movimento reativa lutos, frustrações e lembranças difíceis, especialmente quando há histórico de conflitos familiares, rupturas afetivas ou expectativas não atendidas. Frequentemente, o corpo reage antes que a mente consiga organizar essas emoções em palavras.

Para quem atravessa o primeiro Natal sem um ente querido ou lida com o distanciamento familiar, o cérebro interpreta a celebração ao redor como uma dissonância cognitiva. A amígdala entende a ausência como uma ameaça à segurança afetiva, elevando os níveis de cortisol, o hormônio do estresse, no organismo. Essa ativação favorece estados de ansiedade, hipervigilância e sensação de estar “no limite”. Em algumas pessoas, isso se manifesta como vontade de ir embora; em outras, como desconforto físico, irritação ou necessidade de isolamento após eventos sociais.

A exaustão da serotonina e a neurodivergência

Existe um fenômeno que chamamos de felicidade compulsória. A pressão social para estar radiante consome estoques valiosos de serotonina e ocitocina. O esforço de sustentar interações sociais complexas, muitas vezes marcadas por dinâmicas familiares disfuncionais, leva à fadiga sináptica. Quando a serotonina diminui, a resiliência emocional cai, abrindo espaço para a irritabilidade e a retração social.

Para o público neurodivergente, como mulheres com TDAH ou autismo, o desafio é ainda maior. O cérebro neurodivergente apresenta dificuldade biológica na filtragem de estímulos, o que significa que o excesso de luzes, ruídos e aglomerações pode disparar sobrecarga sensorial ou um desligamento defensivo. A quebra da rotina sobrecarrega as funções executivas, e o esforço para “parecer neurotípica” em eventos sociais — prática conhecida como masking — pode levar a um esgotamento severo logo após as celebrações.

O conflito entre sentir e parecer bem

Um dos aspectos mais delicados do fim de ano é o descompasso entre o estado emocional interno e a expectativa social de felicidade. Enquanto o cérebro sinaliza cansaço ou necessidade de recolhimento, o contexto social exige alegria, gratidão e disponibilidade afetiva.

Esse conflito aumenta a carga sobre os sistemas de regulação emocional, favorecendo sentimentos de inadequação, vergonha, não pertencimento e isolamento.

O caminho da autorregulação

Entender que essa melancolia tem um lastro biológico é o primeiro passo para a despatologização do sentimento. Não se trata de falha de caráter, fraqueza ou falta de gratidão, mas do sistema nervoso processando uma sobrecarga de informações e afetos.

Cuidar da saúde emocional nessa época envolve reconhecer limites, reduzir estímulos quando possível, criar pausas e legitimar diferentes formas de atravessar o fim de ano. Para algumas pessoas, isso inclui buscar apoio terapêutico, que pode ajudar a organizar emoções, fortalecer estratégias de autorregulação e transformar cobrança em cuidado.

Nem todo fim de ano é vivido como festa. E entender isso é um passo importante para uma relação mais saudável com o próprio sentir.

Estratégias de regulação: como proteger sua saúde mental no encerramento do ciclo

Para atravessar as semanas finais do ano sem sucumbir ao esgotamento, é preciso substituir a cobrança por estratégias de manejo biológico e psicológico. A seguir, elenco caminhos técnicos para preservar sua integridade emocional:

1. Pratique a “higiene de expectativas”


O córtex pré-frontal busca por padrões e conclusões. Se você não terminou todos os projetos, seu cérebro pode interpretar isso como uma falha sistêmica. A orientação clínica é transformar a lista de “pendências” em uma lista de “prioridades de transição”. Aceite que alguns processos não se encerram no dia 31 de dezembro; eles apenas mudam de página. Isso reduz a pressão dopaminérgica e a ansiedade reativa.

2. Estabeleça limites sensoriais (gestão do cortisol)


Especialmente para pessoas neurodivergentes, o excesso de estímulos é um gatilho de estresse físico. Não se sinta obrigada a permanecer em ambientes barulhentos ou em aglomerações por tempo prolongado. Permitir-se momentos de isolamento ou usar fones com cancelamento de ruído não é um ato de desfeita social, mas uma estratégia de regulação necessária para evitar que o cortisol atinja níveis de sobrecarga no sistema nervoso.

3. Ressignifique as “âncoras de memória”


Se o Natal ou o Réveillon ativam lembranças dolorosas no hipocampo, crie novos rituais que não estejam ligados ao passado. Mude o local, a comida ou a companhia. Ao introduzir novos elementos sensoriais, você ajuda o cérebro a construir novas trilhas associativas, reduzindo a força das memórias que geram tristeza profunda.

4. Monitore a “fadiga de decisão”


A carga mental feminina se intensifica em dezembro com compras, logística e eventos. Isso exaure a energia metabólica do cérebro. Simplifique o que for possível. Se a escolha de um presente ou o cardápio da ceia está gerando angústia, delegue ou opte pelo caminho de menor resistência. Preservar sua energia cognitiva é mais importante do que sustentar uma estética de perfeição.

5. Busque o “acolhimento técnico”


Se a melancolia deixa de ser um estado passageiro e se transforma em paralisia, não hesite em buscar suporte especializado. A avaliação neuropsicológica e a psicoterapia são ferramentas fundamentais para identificar se o que você sente é um cansaço sazonal ou se há um quadro clínico que requer intervenção específica para a regulação da serotonina e de outros neurotransmissores.

O autocuidado em dezembro não é sobre rituais de beleza, mas sobre o respeito radical aos seus limites neurológicos. Que o seu novo ano comece, antes de tudo, com uma mente em paz.

Sobre a colunista

Ana Paes é psicóloga clínica e especialista em Neuropsicologia, com foco em avaliações diagnósticas de alta precisão e saúde mental. Atua no mapeamento das funções cognitivas e emocionais, auxiliando pessoas a compreenderem a relação entre funcionamento cerebral e comportamento. Com um olhar humanizado e técnico, dedica-se a transformar dados clínicos em caminhos de autoconhecimento, autonomia e bem-estar.

Acompanhe mais sobre o seu trabalho no Instagram: @anapaesneuropsi

Foto de Ana Paes

Ana Paes

Psicóloga e neuropsicóloga, com mais de 23 anos de atuação clínica. Escritora e pesquisadora das adaptações da TCC e da Terapia do Esquema para pessoas neurodivergentes, especialmente mulheres autistas.
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