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Terrible two: quando o “não” da criança também atravessa a saúde mental materna

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Aos dois anos, a criança parece ter descoberto uma palavra mágica: o “não”. E, junto com ela, um novo tipo de intensidade nos comportamentos parece se instalar. As explosões emocionais tendem a ser mais frequentes porque a criança deseja autonomia, mas ainda sem recursos internos para lidar com as frustrações.

Esse período ganhou um nome popular, terrible two. Mas ele é menos sobre “criança difícil” e muito mais sobre um salto importante do desenvolvimento infantil, além de ser um ponto sensível para a saúde mental materna, porque envolve um período de exaustão e questionamentos sobre sua competência.

Do ponto de vista da psicologia do desenvolvimento, a criança está vivenciando transformações intensas. Há um aumento significativo da autonomia motora, da linguagem expressiva e da consciência de si. A criança passa a se perceber como um sujeito separado do outro, com vontades próprias, mas ainda sem recursos psíquicos maduros para lidar com os limites. O resultado disso costuma ser birras, choros intensos, oposição frequente e oscilações emocionais rápidas.

Em resumo, trata-se de um cérebro em reorganização. A criança sente muito, quer muito, mas ainda não consegue simbolizar, esperar ou negociar. Dada a sua imaturidade cognitiva, ela precisa de um adulto que funcione como regulador externo, que nomeie suas emoções, ofereça escolhas possíveis e ensine sobre limites.

A maternidade, nesse momento, deixa de ser apenas cuidado físico e passa a exigir uma disponibilidade emocional constante. A mãe é convocada a sustentar o choro e acolher frustrações sem colapsar, muitas vezes enquanto ela própria está sobrecarregada.

Pesquisas indicam que fases de maior demanda emocional da criança estão associadas ao aumento de estresse materno, sentimentos de inadequação e culpa, especialmente em mulheres que já apresentam traços ansiosos e depressivos.

Existe uma expectativa social de que a mãe “dê conta” com paciência, leveza e equilíbrio. Quando isso não acontece, ela se cobra e se sente culpada. Pouco se fala que o terrible two também é um período crítico para a mulher, mas é nesse momento que muitas percebem que o ideal de maternidade vendido socialmente não corresponde à experiência real.

Quando entendemos que sustentar uma criança em desenvolvimento exige muito mais do que técnica, compreendemos, enfim, que a saúde mental materna não é um luxo. Precisamos de uma mãe que também seja cuidada e acolhida em suas demandas. Uma mãe que possa errar sem julgamentos, que possa pedir ajuda e elaborar seus limites.

Para a mãe que está vivenciando essa fase, assim como eu, desejo um olhar gentil para si mesma. Não temos soluções rápidas para o momento, mas, com certeza, fica mais leve quando compreendemos que a nossa parte está sendo feita. Lembre: a criança não está contra você, ela está tentando encontrar maneiras de existir sendo ela mesma.

Para os pais, amigos e familiares, sejam verdadeiras REDES DE APOIO, assim, em letras garrafais mesmo, para dividir verdadeiramente a carga emocional que a fase exige, com qualidade e saúde mental, permitindo que essa mãe seja uma mulher inteira.

Para a minha Júlia, a aniversariante da semana, que os seus dois anos sejam com a mesma intensidade do tamanho do meu amor por você.

Referências
• Papalia, D. E., & Feldman, R. D. Psicologia do Desenvolvimento.
• Stern, D. N. O mundo interpessoal do bebê.
• American Academy of Pediatrics – Desenvolvimento socioemocional na primeira infância.

Foto de Raquel Pedrosa

Raquel Pedrosa

Psicóloga clínica formada pela UFAL (CRP 15/3938). Mestre em Psicologia pela Universidade de Fortaleza. Professora universitária no Centro Universitário de Maceió.
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