Por Ana Paes, psicóloga e especialista em Neuropsicologia (CRP-15/1965)
Nos últimos dias, as redes sociais foram tomadas por comentários, aplausos, críticas e debates acalorados sobre o lançamento da primeira boneca Barbie oficialmente identificada como autista, desenvolvida pela Mattel em parceria com especialistas e representantes da comunidade neurodivergente.
Para alguns, o lançamento representa um marco histórico na luta por representatividade. Para outros, levanta questionamentos importantes: estamos falando de inclusão genuína ou de uma estratégia comercial bem calculada? E mais: quem essa Barbie realmente representa?
Esta matéria não busca respostas fáceis. Busca pensar com cuidado.
O que muda quando uma boneca é autista?
A Barbie sempre foi um símbolo cultural poderoso. Durante décadas, representou um ideal feminino único: corpo magro, padrão eurocêntrico, vida perfeita, sucesso sem conflito. Nos últimos anos, esse modelo vem sendo desconstruído com bonecas que representam diversidade racial, corporal, funcional e cultural. A Barbie autista surge nesse contexto. Ela não vem apenas com uma nova estética; ela carrega um discurso.
O que está em jogo não é apenas uma boneca, mas a mensagem que ela transmite às crianças, às famílias e à sociedade: pessoas autistas existem, importam e fazem parte do mundo do brincar.
Isso, por si só, não é pequeno. Sem falar no fato de que os brinquedos também cumprem a função de educar.
Inclusão não é apenas estética. É compromisso!
Uma das polêmicas mais importantes envolve o limite entre inclusão e marketing. Não é segredo que grandes marcas aprenderam a dialogar com pautas sociais. Diversidade, inclusão e representatividade também se tornaram ativos simbólicos e econômicos.
A pergunta necessária não é se a marca lucra; ela sempre lucrou. A pergunta é: o que essa ação devolve à comunidade que ela diz representar?
Inclusão real não se sustenta apenas em produtos. Ela exige investimento contínuo em informação, diálogo com pessoas autistas adultas, responsabilidade na comunicação e cuidado para não reforçar estereótipos.
Quando uma boneca vira símbolo, ela precisa vir acompanhada de escuta, não apenas de aplausos.
Por que essa Barbie mexe tanto com as emoções?
Porque ela toca em feridas antigas. Durante muito tempo, meninas autistas foram invisibilizadas. Diagnosticadas tardiamente, confundidas com “tímidas”, “difíceis” ou “sensíveis demais”, cresceram sem linguagem para entender a si mesmas. Ver uma Barbie autista é, para muitas mulheres, ver algo que nunca tiveram: reconhecimento na infância.
Por isso, a reação é intensa.
Não é só sobre uma boneca.
É sobre história, identidade e reparação simbólica.
Então… é um avanço ou não?
A resposta honesta é: depende do que vem depois.
É um avanço simbólico importante, sim.
Pode abrir portas para conversas necessárias, sim.
Mas não pode ser o ponto final da inclusão.
A Barbie autista não resolve o capacitismo, não elimina o preconceito e não representa toda a complexidade do espectro. Mas ela rompe um silêncio histórico, e isso importa.
O risco está em aplaudir sem pensar ou criticar sem reconhecer o impacto emocional que esse gesto tem para tantas famílias e mulheres autistas.
Representatividade importa, mas não pode ser rasa.
Como o autismo foi representado?
Um dos principais pontos de debate é: como o autismo foi representado?
A boneca apresenta sinais associados ao espectro, como acessórios sensoriais, roupas pensadas para conforto e comunicação visual associada ao símbolo da neurodiversidade.
Para muitas famílias, ver uma boneca que se parece com seus filhos ou com elas mesmas, por si só, já é profundamente emocionante. Crianças autistas raramente se veem representadas de forma positiva no imaginário social. Quando isso acontece, pode fortalecer autoestima, pertencimento e identidade.
Mas aqui surge uma crítica legítima: qual autismo está sendo mostrado?
O espectro autista é amplo, diverso e heterogêneo. Existe o risco de que essa Barbie represente apenas um perfil específico, geralmente o mais socialmente aceito, mais “palatável” e menos desafiador aos olhos do público. Representar um tipo de autismo não significa representar o autismo.
“Pessoas autistas existem, importam e fazem parte do mundo do brincar.”
Mas… de qual brincar estamos falando?
A frase que mobiliza afetos também exige aprofundamento. Pessoas autistas existem, importam e, sim, fazem parte do mundo do brincar. Mas o espectro do autismo não cabe em uma boneca, nem em um milhão delas. Toda representação carrega um recorte. E essa Barbie, ainda que simbólica, representa apenas uma das muitas formas possíveis de existir no espectro.
O brincar, como costumamos entendê-lo socialmente, não é um ato simples ou automático. Para que uma criança se interesse pelo brincar simbólico, aquele em que se dá vida à boneca, se criam narrativas e se imagina o outro, são necessárias habilidades específicas: abstração, simbolização, atribuição de estados mentais, intenção e perspectiva. Sem isso, a boneca não é personagem. É objeto.
E aqui tocamos em um ponto delicado, mas fundamental: uma parte significativa das crianças autistas não desenvolve ou desenvolve de forma muito distinta aquilo que a psicologia chama de Teoria da Mente, a habilidade que permite imaginar pensamentos, emoções e intenções no outro. É ela que sustenta o famoso “brincar de faz de conta”.
Quando essa habilidade não está presente, o brincar simbólico simplesmente não acontece, e isso não é falha nem ausência de imaginação, mas uma forma diferente de estar no mundo.
Nesse sentido, a Barbie autista pode ser profundamente significativa para algumas crianças. Para outras, ela será apenas mais um objeto sem função simbólica. E isso nos convida a um questionamento necessário: quem fica de fora quando celebramos apenas as formas normatizadas de brincar?
Inclusão também é reconhecer quem não brinca “como esperado”
Existe um risco silencioso quando associamos inclusão apenas à imagem de uma criança que brinca, interage e simboliza dentro de padrões reconhecíveis. Sem intenção, podemos reforçar a ideia de que só é incluído quem consegue se adaptar ao modelo esperado, ainda que dentro da neurodiversidade.
O espectro autista inclui crianças que não se interessam por brinquedos simbólicos, preferem objetos sensoriais ou repetitivos, se relacionam com o mundo de forma concreta, funcional ou perceptiva e constroem significado fora da narrativa tradicional do “faz de conta”.
Essas experiências também são válidas.
Essas infâncias também importam.
Falar de inclusão exige reconhecer as nuances não romantizadas do autismo, aquelas que não cabem facilmente em campanhas, imagens bonitas ou discursos prontos.
Talvez a pergunta não seja “essa Barbie representa o autismo?”.
Talvez a pergunta mais honesta seja outra:
• Que formas de existir estamos validando quando falamos de brincar?
• Quais experiências continuam invisíveis mesmo dentro do discurso da inclusão?
• Estamos preparados para acolher crianças que não simbolizam, não projetam e não brincam como esperamos, sem tentar normalizá-las?
A Barbie autista pode, sim, abrir portas importantes. Mas inclusão real começa quando conseguimos sustentar uma verdade desconfortável: nem toda criança autista vai se reconhecer nela, e isso também precisa ser respeitado.
Porque o espectro não pede moldes maiores.
Pede escuta mais ampla.
Sobre a colunista
Ana Paes é psicóloga clínica e especialista em Neuropsicologia, com foco em psicoterapia para adolescentes, adultos, casais e pessoas neurodivergentes, além de avaliações diagnósticas de alta precisão e saúde mental.
Atua no mapeamento das funções cognitivas e emocionais, auxiliando pessoas a compreenderem a complexa relação entre o funcionamento cerebral e o comportamento. Com um olhar humanizado e técnico, dedica-se a transformar dados clínicos em caminhos de autoconhecimento, autonomia e bem-estar.
Acompanhe mais sobre o seu trabalho no Instagram: @anapaesneuropsi