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Discurso bonito, prática vazia? O que as empresas ainda erram quando falam de saúde mental

Em um cenário de transformações aceleradas no mundo do trabalho, falar sobre liderança deixou de ser apenas discutir metas e resultados. Hoje, a forma como líderes lidam com pessoas, conflitos e emoções tem pesado tanto quanto a performance entregue. Para entender por que a inteligência emocional virou quase um pré-requisito nas empresas e o que ainda falta para que a saúde mental saia do discurso e chegue à prática, a Eufêmea ouviu Margareth Cardoso, psicóloga e mentora em gestão de carreira.

Ao longo da entrevista, Margareth aponta caminhos possíveis para lideranças mais humanas, ambientes emocionalmente seguros e uma relação mais saudável entre tecnologia e pessoas.

Inteligência emocional como base da liderança

Para Margareth, o peso da inteligência emocional nas lideranças não é uma tendência passageira, mas uma resposta direta à complexidade das relações no ambiente de trabalho. Segundo ela, liderar hoje exige compreender pessoas em suas diferenças.

Ela explica que a qualidade das relações interpessoais é um fator central para uma liderança efetiva. Habilidades socioemocionais e empatia, que fazem parte da inteligência emocional, facilitam tanto a gestão de conflitos quanto a condução das equipes. “Elas permitem que o líder reconheça como cada pessoa da equipe funciona, além de entender as próprias emoções e saber expressá-las de forma adequada”, afirma.

Margareth destaca ainda que, com até cinco gerações convivendo em uma mesma empresa, cada uma com expectativas e demandas diferentes, desenvolver inteligência emocional deixou de ser um diferencial e passou a ser uma necessidade real para quem ocupa cargos de liderança.

Saúde mental nas empresas ainda fica no discurso

Foto: Margareth Cardoso

Embora o tema da saúde mental esteja mais presente nas falas institucionais, a prática ainda caminha a passos lentos. Para a psicóloga, o primeiro erro das organizações é não conhecerem profundamente o próprio público interno.

Ela defende que o básico precisa estar bem feito antes de qualquer ação mais elaborada. Isso inclui clareza de objetivos, gestão colaborativa e um ambiente onde as pessoas não tenham medo de se posicionar. “Quando o funcionário tem receio de falar e ser punido ou colocado na geladeira, já existe um problema sério de saúde emocional”, pontua.

Margareth ressalta que palestras de conscientização são importantes para empresas que estão iniciando esse processo, mas não são suficientes. O acesso à psicoterapia também deve ser incentivado, já que, em um mundo marcado por mudanças rápidas, ela se tornou uma ferramenta essencial de cuidado emocional. Além disso, investir no desenvolvimento de líderes por meio de mentorias é, segundo ela, uma estratégia eficaz.

No entanto, a psicóloga é direta ao apontar o que considera fundamental. “Precisa existir uma vontade genuína da empresa, por meio dos líderes, de criar uma cultura de desempenho com saúde, e não de resultado a qualquer preço”, afirma.

Segurança emocional se constrói no dia a dia

Criar um ambiente emocionalmente seguro não depende de grandes campanhas, mas de ações cotidianas. Margareth avalia que muitas práticas tóxicas se mantêm porque ninguém questiona modelos antigos de liderança.

Ela alerta que o famoso “sempre fizemos assim” costuma ser um gatilho para comportamentos ultrapassados e pouco saudáveis. Entre as mudanças urgentes, estão a organização do trabalho e o dimensionamento correto das equipes, para evitar jornadas excessivas e horas extras constantes.

A psicóloga chama atenção para falas que funcionam como ameaças veladas, como “depois não reclama do que pode acontecer”, e para a necessidade de coibir piadas preconceituosas, fofocas e microviolências. Para ela, comportamentos inadequados precisam estar claramente definidos e não podem ser tolerados em nenhum nível hierárquico. Isso deve valer do CEO ao estagiário, sem exceção.

Tecnologia sem humanidade gera adoecimento

Com o avanço da automação e da inteligência artificial, o medo da substituição e da sobrecarga tem afetado emocionalmente muitos trabalhadores. Margareth avalia que o problema não está na tecnologia em si, mas na forma como ela é implementada.

Ela afirma que a automação não elimina postos de trabalho, mas transforma funções. Por isso, a comunicação clara é essencial. “É preciso explicar os planos da empresa, como a tecnologia será implementada e como cada pessoa será impactada”, orienta.

Outro ponto fundamental é deixar explícitos os investimentos no desenvolvimento humano para que as equipes aprendam a usar essas ferramentas. Segundo a psicóloga, as pessoas tendem a aceitar mudanças quando se sentem parte do processo. “O ser humano não lida bem com surpresas. Para evitar sofrimento emocional, é preciso evitar surpresas desnecessárias”, reforça.

O que será indispensável em 2026

Olhando para o ano que chegou, Margareth acredita que reter talentos e evitar o adoecimento das equipes passará, obrigatoriamente, por uma comunicação mais transparente. Para as empresas, ela destaca a importância de comunicar estratégias e planos de execução com clareza e de forma contínua ao longo do ano.

Já para os líderes, o desafio será dedicar tempo de qualidade para ouvir as equipes, compreender dificuldades e se comprometer com as entregas. Ela critica posturas de delegar sem acompanhamento e reforça o valor da escuta ativa.

A psicóloga também lembra que a responsabilidade por um ambiente saudável não é exclusiva da liderança. “Cada integrante da equipe pode contribuir, sinalizando conflitos de demanda, sendo mais colaborativo e buscando alinhamento com colegas e gestores para definir prioridades”, diz.

Foto de Raíssa França

Raíssa França

Cofundadora do Eufêmea, Jornalista formada pela UNIT Alagoas e pós-graduanda em Direitos Humanos, Gênero e Sexualidade. Em 2023, venceu o Troféu Mulher Imprensa na categoria Nordeste e o prêmio Sebrae Mulher de Negócios em Alagoas.
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