Até pouco tempo atrás, a maternidade era discutida essencialmente como um evento biológico e fisiológico. Apesar dos avanços das ciências psicossociais, a dimensão psicológica continua subestimada, tanto na prática clínica quanto nas narrativas sociais. Quando a pauta é “saúde mental”, a conversa costuma ficar restrita à depressão pós-parto ou ao baby blues.
Os dados, no entanto, mostram que a saúde mental materna é um continuum que se estende da gravidez ao período pós-natal, com repercussões que vão muito além do pico hormonal e dos primeiros meses após o nascimento.
Diversos estudos epidemiológicos indicam que transtornos mentais comuns, como ansiedade e depressão, não são raros nesse período. Cerca de 15% a 20% das mulheres apresentam sintomas de depressão materna durante a gravidez e após o parto, com trajetórias estáveis de sintomas ao longo do período perinatal quando não há intervenção adequada (Kee et al., 2023).
Outro olhar importante vem de pesquisas que identificam fatores de risco associados a desfechos negativos da saúde mental materna. História prévia de transtornos psiquiátricos, baixa rede de suporte social e vivências de violência estão entre os aspectos associados ao sofrimento psicológico perinatal (Satyanarayana, 2011). Esses achados têm implicações diretas para a prática clínica, pois não se trata apenas de trabalhar comportamentos e emoções, mas de compreender e mapear contextos de vida que amplificam vulnerabilidades.
É importante salientar que a depressão pós-parto não é um fenômeno isolado, mas parte de um espectro de sofrimento que pode incluir ansiedade, estresse e outros transtornos afetivos. Estudos recentes sugerem que mais de um terço das mães no período pós-natal apresentam sintomas depressivos significativos, com variações conforme fatores socioeconômicos e demográficos (Ojomo et al., 2025).
O impacto da saúde mental materna transcende a mulher. Há evidências consistentes de que o sofrimento psicológico materno, quando persistente ou não avaliado adequadamente, está associado a menores níveis de vinculação mãe-filho, padrões de cuidado menos responsivos e, em algumas situações, efeitos negativos no desenvolvimento emocional e comportamental da criança (Satyanarayana, 2011). Isso não significa determinismo, mas reforça que o bem-estar da mãe é central para o bem-estar de toda a família.
Há uma verdade clínica frequentemente esquecida: a mãe não é apenas um corpo que gestou. Ela é uma pessoa com história, crenças, emoções e necessidades. Quando o olhar se restringe à dimensão física, perde-se grande parte da experiência da maternidade. Cuidar da saúde mental materna implica reconhecer sinais antecipatórios de sofrimento, oferecer apoio psicossocial contínuo e ir além de intervenções pontuais quando a crise já está instalada.
A prática clínica e as políticas de saúde têm avançado, mas ainda existem lacunas importantes. Falar sobre saúde mental materna é falar de cuidado integral. Triagens precoces durante a gravidez, acompanhamento psicológico no pós-natal e o fortalecimento de redes de suporte social geram impactos reais, reduzem o sofrimento e melhoram os desfechos para mães e crianças.
Referências
KEE, M. Z. L. et al. Perinatal depressive symptoms trajectories across pregnancy and postpartum: a multi-cohort analysis. JAMA Network Open, 2023.
OJOMO, O. et al. Scoping study of postpartum mental health problems. Springer, 2025.
SATYANARAYANA, V. A review of maternal mental health and perinatal outcomes. PMC, 2011.