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A casa dos homens e o espetáculo da admiração masculina

Foto: freepik –

por Bruna Sales Moura e Nívea Rocha

Chegamos a uma constatação empírica, quase científica: homens gostam de homem. E não se trata de achismo. É observação reiterada da cena social. E nós vamos te provar!

Basta olhar um estádio de futebol lotado. Milhares de homens pagando caro para ver outros homens correndo atrás de uma bola, suando, se empurrando, caindo, levantando-se, errando, acertando e, eventualmente, “metendo no gol”. Eles choram. Eles gritam. Eles se abraçam. Eles se comovem profundamente. Emoções que, curiosamente, costumam dizer que não sabem expressar, quando estão fora do campo.

O espetáculo não acaba ali. Depois do jogo, eles seguem consumindo homens: vão para programas esportivos, mesas-redondas, debates intermináveis, análises frame a frame do desempenho…de homens. Homens comentando homens, julgando homens, exaltando homens. Um ecossistema inteiro dedicado a observar, avaliar e venerar homens.

Aí vem a explicação clássica: “não, é porque homem gosta de futebol”. Mentira. Existem mulheres jogando futebol. Com técnica, preparo físico, talento e história. Mas não existem estádios lotados por homens para vê-las. Não existem programas dedicados exclusivamente a comentar o desempenho delas. Não existem horas e horas de análise apaixonada sobre seus erros, acertos ou emoções. Ou seja, o objeto do amor não é o futebol. É o homem.

O futebol masculino não é só um esporte — é um altar. Um espaço onde homens podem admirar outros homens sem que isso seja questionado, porque vem embalado de virilidade, tradição e “paixão nacional”. Já quando mulheres entram em campo, o encanto desaparece. O interesse evapora. O investimento some.

Então não, não é sobre bola, nem sobre gol. É sobre quem ocupa o centro do palco, quem merece ser visto, exaltado e levado a sério. E essa constatação, longe de ser ofensiva, é apenas reveladora: O futebol masculino funciona como um espaço social específico, onde a admiração entre homens é não apenas permitida, mas incentivada. Um território legitimado de afeto, identificação e pertencimento, protegido por narrativas de virilidade, tradição e paixão nacional. Ali, o vínculo emocional não precisa ser justificado. Ele já nasce autorizado.

Essa dinâmica dialoga com o que a psicóloga Valeska Zanello descreve como a “Casa dos Homens”. Em seus estudos sobre os dispositivos de gênero, Zanello aponta que homens são socializados para buscar validação, reconhecimento e espelhamento prioritariamente entre pares masculinos. Trata-se de um espaço simbólico onde a emoção circula, desde que mediada por códigos aceitáveis de masculinidade.

Nesse contexto, o futebol não é apenas esporte. É cenário. É ritual. É linguagem. Um lugar onde homens podem admirar outros homens em um ciclo de homo-afetividade, sem que isso seja colocado em questão, justamente porque essa admiração está revestida de performance, disputa e pertencimento coletivo.

Quando mulheres entram em campo, a lógica se altera. Não porque o esporte perde qualidade ou sentido, mas porque o dispositivo central da cena se desloca. O foco deixa de ser o espelho masculino e, com ele, diminuem o investimento, a narrativa e o interesse cultural. Não se trata de comparação direta, mas de compreensão de onde a atenção foi historicamente ensinada a repousar.

Por isso, talvez seja mais preciso dizer que o amor nunca esteve no gol. Nem mesmo na bola. É o excesso de homens apaixonados por homens — e chamando isso de normalidade cultural. E enquanto a Casa dos Homens seguir sendo o principal palco dessa admiração, ela continuará nos contando muito sobre afetos masculinos, mesmo quando o discurso insiste em chamar isso apenas de paixão pelo futebol.


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