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Não é atraso: é o peso de uma trajetória sem privilégios

Quando eu me deparo com uma vaga de edital que pede inglês fluente, volto a ser a criança que fui. Aquela que sonhava em aprender outro idioma, mas não podia porque em casa não havia dinheiro para isso. Diziam para tentar uma vaga gratuita. Na prática, isso significava madrugar, dormir em fila, disputar poucas cadeiras como se estudar fosse um prêmio e não um direito.

Essa exigência aparece no formulário como um item técnico. Para mim, ela carrega o peso da ausência, do que eu nunca consegui ter. E, quando, por descuido, olho para a grama da vizinha e percebo que ela já tem mestrado, doutorado e especializações acumuladas antes dos 35 anos, nasce uma vontade quase automática de me impor mais uma meta.

Como se a minha rotina já atravessada por trabalho, sobrevivência, cuidado, criação, comportasse mais essa cobrança. Como se o tempo dela e o meu fossem feitos da mesma matéria. Não sou de comparar trajetórias, mas, às vezes, dou essa espiada. E, por um segundo, sinto que estou atrasada demais.

Depois, respiro.

Lembro que a minha vida não foi pavimentada por privilégios. Lembro que estudar, para mim, nunca foi apenas estudar. No terceiro ano do ensino médio, enquanto muitos colegas pensavam no vestibular, eu era jovem aprendiz em uma empresa quase 100% masculina e lidava com o assédio como parte silenciosa da rotina.

Eu sonhava em fazer intercâmbio. Mas como transformar esse sonho em plano se, na minha família materna, ninguém sequer tinha andado de avião? Há aprendizados que não vêm da escola. Vêm do ambiente, das referências, do repertório de possibilidades. E eu cresci em um lugar onde sobreviver vinha antes de projetar o mundo.

Não aprendi muitas coisas na infância e na adolescência, não por desinteresse, mas por falta de oportunidade. Eu estava ocupada demais tentando me manter de pé.

Hoje, a minha vida é outra. Reconheço conquistas que nasceram do meu trabalho e do meu estudo. Mas também reconheço que eu ainda pago o preço de ter atravessado a juventude em modo sobrevivência.

Esse preço não aparece nas fotos, nem nas legendas de currículo. Ele aparece no cansaço acumulado, na pressa constante, na dificuldade de simplesmente descansar sem culpa. Aparece na sensação de que estou sempre correndo atrás de algo que outras pessoas tiveram tempo de construir com mais calma.

Algumas trajetórias (pode ser a sua, que está lendo agora) não foram feitas de atalhos. E talvez seja isso que editais, formulários e exigências técnicas não conseguem enxergar: há pessoas que não começaram do mesmo ponto. Há quem tenha passado boa parte da vida tentando alcançar a linha de largada.

Talvez eu não esteja atrasada.

Talvez eu tenha ficado exausta de medir o meu tempo com a régua de quem nunca precisou sobreviver antes de sonhar.

Foto de Raíssa França

Raíssa França

Cofundadora do Eufêmea, Jornalista formada pela UNIT Alagoas e pós-graduanda em Direitos Humanos, Gênero e Sexualidade. Em 2023, venceu o Troféu Mulher Imprensa na categoria Nordeste e o prêmio Sebrae Mulher de Negócios em Alagoas.
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