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Nós só queríamos viver: Por que nossa única pauta como mulheres ainda é não morrer?

Tenho sentido que estamos morrendo o tempo todo. Ontem, antes de dormir, um pensamento amargo me visitou: nós só encontramos outras mulheres para falar sobre enfrentamento, prevenção, defesa pessoal… Poxa, a gente só queria viver. Vocês já perceberam que nos reunimos pouco para falar sobre as coisas boas da vida? Sobre a radical e, por vezes, proibida alegria de simplesmente existir?

No patriarcado, o corpo feminino é lido como um território de disputa ou um alvo em potencial. Como consequência, nossa agenda política e pessoal foi sequestrada pela urgência da autodefesa, do fugir, do sobreviver. Passamos tanto tempo construindo trincheiras que esquecemos como se cultiva um jardim.

Estamos o tempo todo sendo violentadas e lutando… assediadas, e lutando… É um ciclo sem fim onde a resistência se torna a nossa única forma de respiração. Só que, honestamente, era pra gente ter que lutar TANTO para simplesmente existir?

Hoje, mais um caso doeu e chocou. Em Itumbiara, um homem matou os dois filhos e o “motivo” seria uma suposta traição da esposa. É preciso parar e encarar o absurdo dessa narrativa: já imaginou se fôssemos matar todos os homens que traíram e cujas esposas descobriram? O mundo estaria em silêncio.

Ele não matou por causa de uma suposta traição; ele matou porque a lógica vigente é a de que a mulher é PROPRIEDADE do homem. E, na lógica da propriedade, se o “dono” perde o controle sobre o objeto, ele se sente no direito de destruí-lo e de destruir tudo o que ela ama junto.

Em vez de focarmos na barbárie de um homem que assassina os próprios filhos para punir a mãe, a pergunta que ecoa na internet e nas rodas de conversa é: “Onde ela estava?” ou “O que ela fez para ele chegar a esse ponto?”.

Essa inversão de valores é o que a escritora e teórica feminista Rita Segato define como a “Pedagogia da Crueldade”. Para Segato, o sistema precisa transformar a mulher em culpada para que o homem nunca seja visto como o único responsável por sua própria violência.

Quando a sociedade foca na conduta da mãe, ela está, na verdade, protegendo a estrutura patriarcal. Estão dizendo que a violência masculina é uma “reação natural” e que o comportamento feminino é que deve ser policiado.

Essa é a razão pela qual não conseguimos apenas “falar sobre as coisas boas da vida”. Como relaxar, se até o nosso luto é transformado em julgamento? Como cultivar o jardim, se a cada notícia somos lembradas de que nossa liberdade, nosso trabalho ou até nossos erros são usados como sentença de morte para nós e para quem amamos?

Será que um dia sentaremos juntas para celebrar o nosso direito de existir sem medo? De falar sobre as nossas conquistas e sobre as coisas boas da vida sem que o “estar viva” seja uma exceção ou um milagre?

Queremos, sim, o direito de defesa, mas, acima de tudo, reivindicamos o direito sagrado e urgente de, simplesmente, viver.

Estou no Instagram: @raissa.franca

Foto de Raíssa França

Raíssa França

Cofundadora do Eufêmea, Jornalista formada pela UNIT Alagoas e pós-graduanda em Direitos Humanos, Gênero e Sexualidade. Em 2023, venceu o Troféu Mulher Imprensa na categoria Nordeste e o prêmio Sebrae Mulher de Negócios em Alagoas.
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