Foto: Imyra Perrelli
O casamento não passa intacto pela chegada dos filhos. Ele é atravessado e tudo o que é atravessado precisa se reorganizar para continuar existindo. Onde antes havia apenas um casal, agora passa a existir também uma criança e, com ela, novas identidades emergem: nasce uma mãe e um pai. Papéis diferentes, afazeres diferentes, tempos diferentes. É nesse novo contexto, até meio caótico, eu diria, que o casal precisa reaprender a existir.
A chegada dos filhos costuma deslocar o eixo da relação. O amor não desaparece, mas muda de forma. O desejo, muitas vezes, silencia por um tempo. O diálogo se torna mais funcional, voltado à logística da vida cotidiana. Os gestos de cuidado se concentram no filho. E, sem que se perceba, o casamento começa a ocupar apenas os intervalos do dia, quando sobra tempo, energia e disposição.
Do ponto de vista da saúde mental, esse período é marcado por lutos pouco reconhecidos: o luto do casal que tinha espontaneidade; do tempo a dois sem interrupções; da leveza possível antes da vigilância constante. Quando esses lutos são negados, a relação tende a adoecer. Quando são reconhecidos, o vínculo ganha a chance de se transformar sem se romper.
Os dados brasileiros ajudam a contextualizar essa travessia. Segundo o IBGE (2025), em 2024, mais da metade dos divórcios judiciais no país envolveu casais com filhos menores. Isso não significa que os filhos “causem” separações, mas indica que muitos rompimentos acontecem justamente quando a parentalidade está mais exigente e o casal mais sobrecarregado.
Entre as tarefas necessárias, uma merece atenção especial: a carga mental. Planejar, prever, organizar, lembrar, sustentar. Mesmo quando há parceria, essa gestão ainda recai, em grande parte, sobre a mulher. O resultado costuma ser exaustão crônica, irritabilidade e uma sensação de solidão dentro do próprio casamento. Não raro, o casal até funciona bem, mas, a longo prazo, pode haver um distanciamento.
Ainda assim, casamentos atravessados pela chegada dos filhos não precisam ser enfraquecidos. Pelo contrário, podem se aprofundar em comparação ao que eram antes, mas isso exige uma decisão mútua e cotidiana de não se perderem um do outro enquanto cuidam de alguém que depende tanto deles.
Exige reconhecer que o vínculo conjugal também precisa de espaço e cuidado. Um lugar reconstruído ativamente a dois, onde o casal não desapareça, mas se reencontre, talvez mais cansado, mas ainda assim vivo, porque entre o que fomos e o que ainda podemos ser existe uma janela de possibilidades que só se abre quando o casal aceita atravessar junto.
Referência
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Estatísticas do Registro Civil 2024. Rio de Janeiro: IBGE, 2025. Disponível em: Agência de Notícias IBGE. Acesso em: 7 fev. 2026.