A pior notícia sempre será a próxima. Foi isso que pensei quando soube do feminicídio de Marileide Lopes da Silva, de 42 anos, estrangulada e carbonizada no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, em Alagoas.
Antes disso, no sábado (7), a Polícia Civil divulgou que uma mulher teve os lábios arrancados pelo “companheiro” e foi levada para fazer uma cirurgia no Hospital Geral do Estado (HGE). O que esses dois crimes têm em comum? O ódio, na sua forma mais terrível de existir, de ser.
Deparo-me, na imprensa, com a notícia de Marileide sendo colocada como “por ciúmes, homem mata”. (E sequer temos o nome dele, tá?). Respiro profundamente porque esse tipo de “justificativa” já não é mais aceitável. Ele não apenas matou a Marileide, ele enforcou e carbonizou o corpo dela. Vocês entendem o que isso representa?
Quando um feminicídio é enquadrado como “crime por ciúmes”, não estamos apenas diante de uma escolha infeliz de palavras. Estamos diante de uma narrativa que suaviza a violência masculina e desloca o foco da responsabilidade. Ciúme não mata, o que mata é a ideia profundamente enraizada de posse, a convicção de que a vida de uma mulher pode ser controlada, vigiada e, no limite, eliminada. O ciúme aparece como um álibi cultural, uma tentativa de traduzir brutalidade em emoção humana compreensível.
Esse tipo de linguagem também produz outro efeito perverso: transforma o agressor em protagonista e a violência em um episódio quase passional, como se fosse fruto de um descontrole momentâneo. Mas o feminicídio não nasce do nada, nem explode de forma súbita. Ele é o ponto final de uma sequência de violências: psicológicas, simbólicas, econômicas e físicas. Cada insulto tolerado socialmente, cada ameaça ignorada, cada agressão relativizada abre caminho para o próximo passo.
Quando uma mulher tem os lábios arrancados por um homem que alega amá-la, a sociedade deveria reconhecer imediatamente a dimensão política desse ato. Não se trata apenas de um crime individual, mas da expressão extrema de uma cultura que ainda insiste em disciplinar os corpos e as vozes das mulheres. Arrancar os lábios de alguém é também, simbolicamente, tentar silenciar. É punir quem fala, quem decide, quem existe fora do controle masculino.
E é por isso que a forma como a imprensa narra esses acontecimentos importa tanto. Palavras moldam a percepção pública e ajudam a definir o que será visto como intolerável ou como algo “explicável”. Quando manchetes reproduzem justificativas como “ciúmes”, “briga de casal” ou “crime passional”, acabam participando, ainda que involuntariamente, de uma engrenagem que banaliza a violência de gênero.
O mais inquietante é que esses crimes continuam acontecendo mesmo quando já temos leis, campanhas e datas simbólicas como o 8 de março. O Dia Internacional da Mulher deveria ser um momento de reflexão sobre direitos e conquistas, mas, no Brasil, muitas vezes se transforma em um lembrete doloroso de que ainda lutamos pelo mais básico: o direito de permanecer vivas. A cada novo caso, a sensação é de que estamos sempre reagindo ao próximo horror anunciado.
Talvez por isso a pior notícia pareça sempre ser a próxima. Porque enquanto insistirmos em tratar o feminicídio como tragédia isolada, e não como resultado de uma estrutura de desigualdade e violência, continuaremos presos nesse ciclo.
Eu não conheci Marileide e nem a vítima que teve os lábios arrancados, mas de uma coisa eu sei: elas estão em cada uma de nós. Estão no medo que atravessa nossas rotinas, nas estratégias silenciosas de sobrevivência e na insistência cotidiana de continuar existindo em um mundo que ainda tenta nos calar.
E enquanto a violência contra mulheres continuar sendo explicada, relativizada ou esquecida, nenhuma de nós estará realmente segura.