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Masculinidade, domínio e cumplicidade: o que está por trás do estupro coletivo

Estou no Instagram: @raissa.franca

Todos os dias nós morremos um pouco: seja através de um novo caso que chega como um verdadeiro soco no estômago (provando que o ser humano pode ser mais cruel do que imaginávamos), seja porque alguém nos aponta como culpadas em um crime que não cometemos. O estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos, em Copacabana, não é apenas mais um caso de violência sexual. Ele é a expressão crua de algo que raramente nomeamos com a força necessária: o pacto da masculinidade violenta.

É assim que morremos um pouco todos os dias.

Quando um crime é cometido em grupo, ele deixa de ser apenas violência individual e passa a operar como ritual de pertencimento. Como assim?

Vamos olhar para a lógica histórica que sustenta isso: homens foram socializados, ao longo dos séculos, a se perceberem como detentores do controle da casa, da terra, do nome da família e, sobretudo, dos corpos femininos. A masculinidade tradicional foi construída sobre a ideia de posse e autoridade. Essa noção de controle e domínio foi sendo reproduzida e reforçada ao longo do tempo, atravessando gerações e moldando comportamentos, expectativas e relações de poder.

Quando essa lógica se desloca para um crime coletivo, o que está em jogo não é desejo: é validação. É provar algo diante de outros homens e com o APOIO de outros homens. É reafirmar uma identidade masculina que se sustenta pelo domínio, pela exposição do corpo feminino como conquista, pela cumplicidade que se constrói no silêncio ou no riso compartilhado.

O grupo funciona como espelho e tribunal. Cada um se reconhece no outro e, ali, confirma que ultrapassar limites não diminui sua masculinidade, ao contrário, a reforça. A violência se torna linguagem, e o corpo dela passa a ser tratado como instrumento de afirmação.

É nesse ponto que o estupro coletivo revela que não é “apenas mais um ataque contra uma mulher”. Ele é a evidência de que existe um pacto entre homens.

Um pacto que não começa na noite do crime. Ele começa muito antes nas conversas que naturalizam a objetificação, nas piadas que desumanizam, na pornografia que ensina que insistência é excitação, na competição velada sobre quem “pegou mais”.

Ele se sustenta na omissão, no amigo que viu e não interveio, no que ouviu e não denunciou. Ele se sustenta naquele que sabe, mas não quer denunciar. O silêncio também é pacto.

Quando ninguém rompe, todos protegem. Quando ninguém confronta, todos legitimam. A violência coletiva só acontece porque há uma confiança prévia de que haverá cumplicidade: antes, durante e depois.

Por isso não podemos tratar o estupro coletivo como exceção monstruosa. Ele é expressão extrema de uma cultura que ainda permite que homens aprendam a validar uns aos outros através do domínio. Enquanto a masculinidade continuar sendo construída como poder sobre, e não como responsabilidade com, o ciclo se repete.

E cada novo caso não será apenas mais uma vítima, será mais uma confirmação de que ainda não tivemos coragem de quebrá-lo.

Foto de Raíssa França

Raíssa França

Cofundadora do Eufêmea, Jornalista formada pela UNIT Alagoas e pós-graduanda em Direitos Humanos, Gênero e Sexualidade. Em 2023, venceu o Troféu Mulher Imprensa na categoria Nordeste e o prêmio Sebrae Mulher de Negócios em Alagoas.
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