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Maternidade solo dentro do casamento: o que isso significa

Nem toda maternidade solo acontece fora de um relacionamento. Muitas acontecem dentro dos próprios casamentos. Ou seja, não se trata de uma ausência física de seus parceiros, mas da falta de corresponsabilidade no cuidado com os filhos, o que faz com que a mulher sustente, na prática, esse cuidado como se estivesse só.

Este não é um feito relacionado ao nascimento do filho. Começa muito antes, na forma como o cuidado foi historicamente atribuído às mulheres. A maternidade, ao longo do tempo, foi sendo construída como função central da identidade feminina, enquanto a paternidade permaneceu, em muitos contextos, como participação opcional.

O problema é que a estrutura social mudou, mas a lógica do cuidado não acompanhou na mesma velocidade. Hoje, mulheres trabalham, produzem, sustentam financeiramente suas casas e, ainda assim, continuam sendo socialmente convocadas a ocupar o lugar de principais cuidadoras.

No Brasil, dados do IBGE mostram que mulheres dedicam significativamente mais tempo que homens ao trabalho doméstico e ao cuidado de pessoas. Do ponto de vista psicológico, essa sobrecarga não é neutra. Estudos sobre saúde mental materna indicam que a acumulação de demandas, especialmente quando associada à baixa rede de apoio, está diretamente relacionada a maiores índices de ansiedade, estresse crônico e sintomas depressivos no período pós-natal e ao longo da infância dos filhos.

Para o casamento, os efeitos também são claros. A desigualdade na divisão de tarefas é um dos fatores mais associados à insatisfação conjugal. A relação passa a ser atravessada por ressentimento, sensação de injustiça e distanciamento emocional. Não é raro que o vínculo se transforme em uma parceria funcional, mas com pouca troca afetiva, o que pode ser uma via bastante perigosa para o casamento.

Há ainda um ponto frequentemente negligenciado nesse cenário: o impacto dessa dinâmica no desenvolvimento infantil. A literatura é consistente ao demonstrar que o envolvimento ativo do pai, ou de quem exerça essa função, está associado a melhores desfechos cognitivos, emocionais e sociais. Crianças que crescem em contextos de cuidado compartilhado tendem a apresentar maior segurança emocional, melhor regulação afetiva e maior flexibilidade nas relações.

Diante disso, manter a maternidade como responsabilidade central da mulher ultrapassa uma mera discussão sobre desigualdade de gênero. Não se trata apenas de “ajudar” a mãe. Um pai participativo constitui, junto com ela, um ambiente de desenvolvimento muito mais saudável para seus filhos, além de fortalecer o vínculo familiar.

Por fim, e talvez seja o ponto mais difícil de encarar, a romantização da maternidade ainda opera como um mecanismo que encobre essa ausência paterna. Enquanto se espera que a mulher “dê conta com amor”, pouco se questiona a estrutura que a coloca nesse lugar. A maternidade solo dentro do casamento é um efeito de uma organização social que ainda resiste em implicar o homem em um papel de cuidado e, enquanto isso não for enfrentado de forma mais direta, continuaremos produzindo mulheres exaustas, casamentos fragilizados e crianças privadas de relações mais amplas.

Lutemos contra isso!

Com carinho,
Raquel Pedrosa

Referências
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2022.
FISHER, Jane et al. Prevalence and determinants of common perinatal mental disorders in women in low- and lower-middle-income countries. Bulletin of the World Health Organization, v. 90, n. 2, p. 139–149, 2012.
LAMB, Michael E. (org.). The role of the father in child development. 5. ed. Hoboken: Wiley, 2010.
PLECK, Joseph H. Paternal involvement: levels, sources, and consequences. In: LAMB, Michael E. (org.). The role of the father in child development. Hoboken: Wiley, 2010.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Nurturing care for early childhood development: a framework for helping children survive and thrive. Geneva: WHO, 2018.

Foto de Raquel Pedrosa

Raquel Pedrosa

Psicóloga clínica formada pela UFAL (CRP 15/3938). Mestre em Psicologia pela Universidade de Fortaleza. Professora universitária no Centro Universitário de Maceió.
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