Há algo curioso na maternidade contemporânea: a presença constante de uma culpa, que parece surgir ao nascimento de um filho. Culpa por trabalhar demais, por desejar um tempo sozinha, por se sentir cansada e não ter vontade de brincar junto, por não se sentir feliz o tempo todo. Mas afinal, de onde vem essa culpa?
Costumamos experenciá-la como se fosse natural, quase como um instinto psicológico que acompanha o amor pelos filhos. No entanto, quando olhamos com mais atenção para a história da maternidade, percebemos que essa culpa não nasce com o bebê, mas sim de um sistema de expectativas sociais que dita sobre o que uma mãe deve ser.
A sociedade contemporânea construiu um ideal bastante específico de maternidade. Espera-se que a mãe seja emocionalmente disponível o tempo inteiro, profundamente dedicada, capaz de equilibrar carreira, vida doméstica, vida afetiva e cuidado integral com os filhos, tudo isso com afeto, paciência e presença constante. Qualquer desvio desse ideal, rapidamente se transforma em autocrítica.
A culpa, nesse contexto, funciona como um mecanismo de regulação. Ela lembra à mulher, o tempo todo, qual é o lugar que se espera que ela ocupe. A psicanalista Vera Iaconelli chama atenção para esse fenômeno ao discutir o mal-estar que atravessa a maternidade contemporânea.
Em vez de compreender a maternidade como destino natural biológico, Iaconelli mostra que ela sempre foi atravessada por tensões culturais, morais e históricas. Em diferentes épocas, a maternidade assumiu roupagens distintas para objetivos distintos. Do dever religioso à necessidade de sucessão em negócios familiares, é possível observar os diferentes papéis ocupados pelas mulheres e sua missão como mãe.
Na contemporaneidade, a psicanalista problematiza os ideais naturalizados e harmoniosos impostos que se demonstram impossíveis de serem alcançados e, por isso, geram mal-estar. A experiência da maternidade, atravessada pela lógica capitalista, é empurrada para um regime de performance contínua. Por outro lado, a subjetividade materna perde espaço e qualquer ambivalência, passa a ser vivida como falha individual. A mulher que se sente cansada, frustrada ou dividida entre diferentes papéis acredita que há algo errado com ela.
A culpa materna, portanto, não é apenas um sentimento íntimo. Ela é um produto cultural; um efeito das narrativas que definem de maneira arbitrária o que é ser uma “boa mãe” e que raramente levam em conta a complexidade da vida real. O cotidiano é feito de desafios que não encontram encaixes perfeitos nos modelos ditados e, à mulher, cabe um exercício diário de reconhecer que os conflitos, cansaços e dúvidas são inerentes ao amor que ela carrega por seus filhos.
É importante destacar que tal exercício não vai eliminar a culpa, o sistema é grande o suficiente para impedir tal feito, mas com certeza, vai abrir espaço para uma maternidade mais honesta e mais leve.
Com carinho,
Raquel Pedrosa
Referência bibliográfica
IACONELLI, Vera. Mal-estar na maternidade: do infanticídio à função materna. São Paulo: Annablume, 2015.