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O 8 de março foi domesticado

Todos os anos, o 8 de março reaparece acompanhado de duas narrativas muito convenientes: a da homenagem e a da tragédia isolada. De um lado, flores, descontos e mensagens bonitas que transformam a data em celebração. De outro, a repetição quase automática da história de mulheres que teriam sido queimadas dentro de uma fábrica, como se o Dia Internacional das Mulheres fosse apenas um memorial de vítimas.

Essas duas versões têm algo em comum: ambas ajudam a domesticar o sentido político da data.

O Dia Internacional das Mulheres não nasceu para ser uma homenagem nem um ritual de luto. Ele surgiu no início do século XX, no contexto das lutas das mulheres trabalhadoras por direitos políticos, melhores condições de trabalho, redução da jornada e direito ao voto. Foi um marco de mobilização coletiva, articulado por movimentos operários e feministas que denunciavam a exploração econômica e a exclusão política das mulheres.

Reduzir essa história a uma tragédia específica, muitas vezes contada de forma imprecisa ou romantizada, cumpre um efeito político silencioso: transforma uma data de luta em uma narrativa de sofrimento passado. E sofrimento passado não exige transformação presente.

Algo semelhante acontece quando o mercado captura o 8 de março. Ao substituir reivindicação por homenagem, o capitalismo transforma uma data de contestação em mais uma oportunidade de consumo. Flores, presentes e campanhas publicitárias passam a ocupar o espaço que antes era destinado à denúncia das desigualdades estruturais.

Mas a realidade insiste em lembrar por que essa data continua necessária.

Mulheres seguem sendo assassinadas pelo simples fato de serem mulheres. Permanecem sub-representadas nos espaços de poder ou, muitas vezes, colocadas em posições simbólicas que não alteram as estruturas decisórias. Continuam assumindo, de forma desproporcional, o trabalho de cuidado e doméstico, enquanto a desigualdade econômica limita sua autonomia e mantém muitas presas a relações abusivas.

Também não queremos ser chamadas de guerreiras. Não queremos que a força seja romantizada como se fosse escolha. Nenhuma mulher deveria precisar vestir armaduras todos os dias apenas para garantir o mínimo de dignidade, respeito ou segurança. A ideia de que precisamos ser sempre fortes muitas vezes apenas normaliza o peso desproporcional que carregamos. O que se espera não é heroísmo; o que se espera é justiça.

Ainda assim, há uma esperança que atravessa essa história: a esperança de que as novas gerações possam viver em um mundo em que essa data já não seja necessária. Um mundo em que meninas não precisem aprender desde cedo a se defender de desigualdades estruturais, em que mulheres não precisem lutar pelo que deveria ser básico, e em que dignidade, segurança e liberdade sejam condições ordinárias da vida, não conquistas extraordinárias.

Por isso, o 8 de março não deveria ser um dia confortável. Ele existe justamente para produzir incômodo.

Talvez o verdadeiro desafio seja este: desdomesticar o 8 de março.

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