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Quando o medo vira rotina: notas clínicas sobre a violência contra as mulheres

Por Raquel Pedrosa

Nas últimas semanas, algo tem se repetido de forma insistente na clínica que, em 15 anos de prática, eu nunca havia presenciado com tamanha intensidade. Minhas pacientes mulheres vêm apresentando um estado constante de alerta e tensão, chegando, em alguns casos mais graves, a crises de ansiedade e fobia social devido à escalada da violência contra a mulher no país.

Tal como um pano de fundo comum em diferentes mulheres, algumas têm revisitado a própria história e trazido relatos reais de violências sofridas ao longo da vida, como uma forma de elaborar aquilo que extrapola os sentidos; outras se queixam do medo de possíveis acontecimentos iminentes, da irritação e da impotência diante de tantos casos. Em todas elas, observo o sofrimento que a identificação com os casos relatados pela mídia gera.

Uma paciente me disse recentemente: “eu penso antes de tudo, por isso eu evito tudo”. Na ocasião, ela se referia aos cuidados tomados antes de sair de casa e se relacionar com qualquer homem. Em sua escuta, o que ela me mostrou é o quanto a sua vida psíquica girava em torno de uma organização, prevenção e tentativa de controle sobre o seu bem-estar. Como consequência, observamos uma mulher que evita lugares, pessoas e modos de ser ela mesma.

Confesso que, como mulher, esse modus operandi que as minhas pacientes têm me relatado é assustador, digno dos enredos das séries mais angustiantes que a gente tenha visto; como psicóloga, é extremamente desafiador porque não estamos falando de um medo episódico ou de um traço de personalidade, mas sim de um modo de estar e funcionar na sociedade, um padrão comum que atravessa quase todas as mulheres, para não dizer todas, com diferentes histórias, idades e classes sociais.

Ou seja, o que há de comum não é a biografia individual, mas a experiência compartilhada de viver em um cenário onde a ameaça é plausível e iminente.

Entre os efeitos mais comuns desse contexto, é possível citar a hipervigilância. O corpo parece não desligar completamente. Há uma tensão de base que se mantém, mesmo em situações aparentemente seguras. O descanso não é pleno, porque há sempre algo a ser monitorado, o que repercute, por sua vez, em problemas de insônia, de aprendizagem e de memória.

Outro efeito observado é a evitação do contato social ou de situações potenciais de risco. Evitam-se lugares, horários, vestimentas, gestos, falas e olhares. Gradualmente, as mulheres vêm reduzindo seus espaços de circulação e se reduzindo diante do medo de ser a próxima vítima.

Há ainda um terceiro elemento desse contexto que considero ainda mais central na discussão: a internalização da responsabilidade por parte dessas mulheres. Muitas delas operam como se fossem as principais responsáveis por evitar a violência. Elas são as responsáveis por se comportar bem, se vestir bem, andar nos lugares certos. Ou seja, mesmo que nada aconteça, a culpa já está lá.

Esse funcionamento não é espontâneo. Ele é aprendido, repetido, reforçado socialmente dentro da cultura machista em que vivemos. E, do ponto de vista psíquico, produz um tipo de sofrimento que não se resolve apenas com orientação ou informação, porque não se trata de falta de conhecimento, mas sim de um modo de relação com o mundo misógino.

Nesse ponto, a escuta clínica não pode operar na lógica de eliminar o medo, como se ele fosse inadequado, porque, definitivamente, ele não é. Tampouco pode reforçá-lo, como se a vigilância total fosse solução. O medo não pode limitá-la. Estar vigilante não evitará por completo as violências cotidianas.

A psicoterapia possibilita que essa mulher se reposicione frente ao que a atravessa. Que ela possa reconhecer o medo, sem ser inteiramente organizada por ele. Que ela se aproprie de si e dos fatos de outro lugar, inclusive reforçando seu lugar de fala, de força e de direitos.

A clínica, nesse cenário, não corrige. Ela sustenta a possibilidade de pensar para além da violência. E é desse lugar que também quero convocar todas as mulheres a assumirem seu lugar no mundo. Não nos deixemos paralisar por uma cultura cruel. Juntemos as mãos e lutemos por nós, por nossas amigas, mães, irmãs e filhas. Por todas aquelas também que não estão mais entre nós, vítimas da violência.

Com carinho,
Raquel Pedrosa

Foto de Raquel Pedrosa

Raquel Pedrosa

Psicóloga clínica formada pela UFAL (CRP 15/3938). Mestre em Psicologia pela Universidade de Fortaleza. Professora universitária no Centro Universitário de Maceió.
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