Essa semana, ao final de uma aula e após uma discussão sobre parentalidades, uma aluna esperou todos saírem e me disse algo que costuma ser um tabu. Falou com ressentimento, quase como quem explode depois de muito tempo segurando: “Professora, a verdade é que ser mãe é ruim. Me arrependi (…) queria ter dado para adoção”.
A frase veio carregada. Não era provocação. Era exaustão. Existe uma diferença enorme entre o ideal de maternidade propagado pela cultura e a experiência real de algumas mulheres. Quando essa diferença se torna grande, o que aparece nem sempre é tristeza. Às vezes é ressentimento. Às vezes é uma vontade de desfazer o que não pode mais ser desfeito — o tal do arrependimento.
O ressentimento não nasce do nada. Ele costuma surgir quando a realidade vivida não encontra reconhecimento. Quando a mulher percebe que a vida mudou radicalmente, que perdeu partes importantes de si, que se sente sozinha na tarefa e, ainda assim, precisa sustentar um discurso de gratidão permanente.
Há algo de muito solitário na maternidade quando ela não foi plenamente desejada ou quando foi idealizada de maneira irreal. E quanto mais a sociedade insiste que “ser mãe é a melhor coisa do mundo”, mais violento pode ser, para algumas, admitir que, para elas, não está sendo.
O que me marcou naquela fala não foi apenas o conteúdo. Foi a coragem de sustentar algo que sabe que será socialmente julgado. Porque uma mulher que diz que a maternidade é ruim corre o risco de ser vista como monstruosa. Mas talvez o que ela esteja tentando dizer seja outra coisa: “eu estou sobrecarregada”, “eu me sinto presa”, “eu não me reconheço mais”, “eu não dou conta”.
A raiva, muitas vezes, é o idioma possível da dor. Silenciar esse tipo de fala não protege ninguém. Ao contrário, o sofrimento que não pode ser dito tende a se transformar em culpa crônica, em endurecimento afetivo, em distanciamento emocional. E não, essa fala não significa ausência de amor. Amor e ambivalência podem coexistir. Cuidado e ressentimento também. A psicanálise já nos ensinou que a maternidade nunca é pura. Ela é atravessada por desejo, frustração, perdas, expectativas e, sobretudo, ambivalências.
O que aquela mulher trouxe foi incômodo e acredito que esse seja o ponto. Enquanto só aceitarmos narrativas doces, continuaremos produzindo mães silenciosamente esmagadas por um ideal inalcançável. Escutar a raiva sem moralizar é um gesto clínico. E talvez seja também um gesto político. Porque admitir que, para algumas mulheres, a maternidade dói é o primeiro passo para que elas não precisem gritar sozinhas.
O texto desta semana é dedicado a essa aluna e a todas as mulheres que não podem falar o que sentem em voz alta. Para você, minha querida aluna, obrigada por ter confiado a mim algo tão pesado. Isso me dá sinais muito positivos sobre como sou vista como docente e psicóloga. Espero ter sido acolhedora do tamanho da sua coragem.
Com carinho da professora,
Raquel Pedrosa