Estou no Instagram: @raissa.franca
Acordei hoje e me deparei com o meu algoritmo do Instagram me entregando vários vídeos da participante Ana Paula, do Big Brother Brasil 26, sabendo da morte do pai, e do Tadeu Schmidt também dizendo para ela que estava vivendo o luto pela morte do irmão, há poucos dias. Foi automático: senti as lágrimas caindo e uma falta de ar. Acho que isso acontece com quem já passou pelo luto.
Eu costumo dizer que o luto é um processo muito individual e que não tem jeito certo ou errado, ele apenas aparece. E ele pode aparecer em qualquer dia. Como naquele 11 de abril de 2026, nos Lençóis Maranhenses, quando eu estava almoçando, escutei uma música do Djavan, uma música que meu tio ouvia. As lágrimas começaram a cair no meio do restaurante e ficaram molhando a comida que estava no meu prato. Meu esposo ficou olhando para mim sem entender nada e eu apenas chorava, chorava… era uma saudade imensa!
Um dia desses também, eu estava pensando em comer um pudim, e lembrei da minha tia, que faleceu no ano passado e sempre fazia pudim quando eu ia visitá-la. Não tive coragem de comer pudim ainda. O pudim me lembra muito ela. Também me recordo que, quando ela faleceu, eu estava vivendo um momento importante: estava palestrando, pela primeira vez, fora de Alagoas. Eu estava feliz e, ao mesmo tempo, profundamente triste. Parece uma coisa louca, mas é só a vida acontecendo, atravessando a gente sem pedir licença.
A questão é que esse luto explícito da Ana Paula e do Tadeu (e aqui não vou entrar na problemática de um reality exibindo essa dor) atravessa a gente de um jeito que faz parecer injusto que o mundo continue girando.
Eu nunca vou esquecer de uma das sessões da minha terapia, depois da morte do meu tio e, 27 dias depois, da esposa dele. Eu disse à minha psicóloga o quanto parecia errado que as pessoas simplesmente continuassem vivendo enquanto eu carregava uma dor no peito e precisava de tempo para organizar tudo aquilo. Eu não queria que as pessoas continuassem, sabe? Queria que elas parassem para que eu também elaborasse o que tinha acontecido.
A verdade é que, no máximo, a vida e a própria sociedade nos dão um dia para enterrar quem a gente ama e seguir. No dia seguinte, vêm as cobranças do trabalho, as mensagens, as reuniões, as pessoas falando com a gente como se nada tivesse acontecido. E, por dentro, a gente se força a continuar, porque “não dá para parar”.
Mas talvez o que ninguém diga com clareza suficiente é que a gente precisa, sim, parar, mesmo que o mundo não pare com a gente. Parar não necessariamente no sentido de abandonar tudo, mas de se permitir não funcionar direito por um tempo. De aceitar que a produtividade vai cair, que a memória falha, que o corpo pesa. De entender que responder uma mensagem pode exigir uma energia que você simplesmente não tem naquele dia.
A gente foi ensinada a ser forte, a “seguir em frente”, a “não deixar a peteca cair”. Mas pouco se fala sobre o direito de sentir. Sobre o direito de se recolher, de chorar, de saber que não dará conta naquele dia que a saudade vai pesar muito. O luto não é sobre quem se foi, mas sobre quem a gente era com aquela pessoa e que também, de alguma forma, deixa de existir.
E isso tudo leva tempo: e não existe um tempo certo para viver esse luto. Talvez o exercício mais difícil e mais necessário, seja o de se autorizar a viver esse tempo. Sem se cobrar tanto, sem se comparar com quem parece ter “superado rápido”, sem transformar a dor em algo que precisa ser escondido para caber na rotina.
Porque o luto não é uma pausa que a gente dá na vida. Ele é a vida também e, se a gente não se permite senti-lo, ele encontra outras formas de aparecer: no corpo, no cansaço, nas lembranças que vêm sem aviso, no choro que insiste em escapar.
Então, no meio de um mundo que segue, que cobra, que não espera, talvez o gesto mais radical seja esse: respeitar o próprio tempo.