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O significado por trás do lenço entregue por uma advogada às mulheres em processo de divórcio

Por Raíssa França

O que um lenço tem a ver com uma consultoria que ajuda mulheres?

Existem dores que não aparecem nos processos judiciais. Elas não estão nas audiências, nos documentos assinados ou nas decisões protocoladas. Estão no silêncio de mulheres que passam madrugadas tentando entender como reconstruir a própria vida depois do fim de um casamento. Estão no medo de errar, na culpa que quase sempre recai sobre elas e na tentativa de continuar funcionando enquanto tudo por dentro parece desabar.

Foi olhando para essas mulheres que a advogada alagoana Bruna Sales criou a ReAcordar. E eu não poderia deixar de falar sobre essa consultoria, que eu considero muito mais um método de acolhimento e reconstrução, sem mencionar o kit que ela entrega. Mas, principalmente, o lenço, que parece nos lembrar diariamente do propósito da Bruna.

Porque o lenço não é apenas um presente delicado. Ele carrega acolhimento, cuidado e a sensação de que alguém finalmente enxergou a dor que tantas mulheres tentam esconder enquanto seguem sendo cobradas a permanecer fortes o tempo inteiro.

A ReAcordar nasceu da compreensão de que o divórcio não é apenas um processo jurídico. É também um atravessamento emocional profundo. Muitas mulheres chegam nesse momento sem conseguir pensar com clareza, sobrecarregadas pela ansiedade, pelo medo e pela responsabilidade de proteger os filhos enquanto tentam reorganizar a própria vida.

A consultoria surge justamente para oferecer suporte estratégico para mulheres que estão considerando ou iniciando um divórcio e precisam tomar decisões com mais segurança e consciência.

Mas existe algo muito humano na forma como Bruna construiu esse trabalho. Ela não fala apenas do lugar técnico da advocacia. Sua trajetória passa pela maternidade, pela experiência como doula e pela escuta sensível de mulheres em momentos de transformação. Talvez seja exatamente por isso que os lenços tenham tanto significado dentro da ReAcordar.

Foto: Arquivo Pessoal

Porque existem mulheres que passam anos segurando o choro para não parecerem frágeis. Mulheres que aprenderam que precisam resolver tudo sozinhas. Mulheres que seguem sendo ensinadas a suportar dores em silêncio para não incomodar ninguém. E o lenço parece romper justamente com essa lógica. Como se dissesse que sentir também faz parte do processo e que ninguém precisa endurecer para sobreviver.

Vivemos numa sociedade que romantiza a força feminina, mas oferece pouco acolhimento real quando mulheres enfrentam rupturas profundas. O fim de um casamento ainda carrega julgamentos, culpa e solidão. Algumas mulheres são pressionadas a “seguir em frente” rapidamente. Outras entram em disputas emocionais desgastantes porque não conseguem enxergar possibilidades em meio ao caos. E é nesse cenário que a ReAcordar tenta devolver algo essencial: lucidez.

O próprio método da consultoria fala sobre organização, clareza, prioridades e redução de conflitos. Mas talvez o que mais emocione não esteja apenas na metodologia. Está nos detalhes. No cuidado. Na compreensão de que mulheres não precisam ser tratadas como números dentro de um processo.

E talvez tenha sido isso que mais me atravessou quando recebi o lenço. A percepção de que existem mulheres tentando cuidar de outras mulheres de maneira verdadeira, humana e sensível. Num mundo em que quase tudo se tornou automático, duro e acelerado, encontrar um gesto que transmite presença parece raro. O lenço da Bruna não fala apenas sobre divórcio ou recomeço. Ele fala sobre não precisar atravessar dores sozinha. E acho que, no fundo, é isso que toda mulher gostaria de sentir em algum momento da vida.

Foto de Raíssa França

Raíssa França

Cofundadora do Eufêmea, Jornalista formada pela UNIT Alagoas e pós-graduanda em Direitos Humanos, Gênero e Sexualidade. Em 2023, venceu o Troféu Mulher Imprensa na categoria Nordeste e o prêmio Sebrae Mulher de Negócios em Alagoas.
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