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Por Raíssa França – Estou no Instagram: @raissa.franca
Tenho acompanhado de perto o cenário político em Alagoas e a forma como as articulações para as eleições deste ano estão sendo construídas. Observadora que sou, não consigo deixar de perceber o quanto os veículos de comunicação e os perfis políticos seguem dando destaque, quase exclusivamente, aos homens que devem disputar as eleições de 2026.
O foco tem se concentrado, principalmente, na corrida pelo Governo do Estado, o que é compreensível diante do peso político do cargo. Mas existem outras disputas tão estratégicas quanto a do Executivo estadual, como as eleições para a Câmara e a Assembleia Legislativa, que impactam diretamente a vida da população por meio da criação de leis e da construção de políticas públicas.
E mesmo sabendo que já existem mulheres se articulando e colocando seus nomes como pré-candidatas, onde elas estão no debate público?
Porque, até agora, o noticiário político parece repetir um roteiro antigo: homens analisando homens, entrevistando homens, apostando em homens e tratando candidaturas femininas quase como notas de rodapé.
Em 2022, quatro estados não elegeram nenhuma deputada federal: Alagoas, Amazonas, Paraíba e Tocantins. Leia de novo. Nenhuma. Das nove vagas que o estado tem na Câmara dos Deputados, todas foram ocupadas por homens. Num estado onde mulheres formam a maioria do eleitorado, isso não é coincidência, é resultado de um sistema que combina sub-representação histórica, falta de financiamento de campanha e apagamento midiático.
E aqui vale uma pergunta importante: como uma mulher consegue consolidar uma candidatura competitiva se ela sequer aparece nas análises políticas, nas rodas de debate e nas especulações eleitorais? E, quando aparece, quase sempre é colocada em posição de rivalidade com outra mulher ou vira alvo de críticas sobre comportamento, personalidade e postura, algo que raramente acontece com homens na mesma proporção.
Enquanto homens são apresentados como “nomes fortes”, “articuladores” e “lideranças naturais”, mulheres ainda precisam provar competência o tempo inteiro para serem consideradas viáveis eleitoralmente. Muitas vezes, precisam apresentar currículo, experiência, resultado e trajetória impecáveis para receber metade da atenção dada a homens que, em alguns casos, sequer possuem histórico político consolidado.
Não basta defender participação feminina apenas no discurso do 8 de março. É preciso discutir financiamento, visibilidade, incentivo partidário e enfrentamento à violência política de gênero durante todo o ano.
E talvez seja justamente por isso que seguimos insistindo em criar espaços para essas mulheres serem vistas, escutadas e debatidas para além das disputas superficiais e das narrativas já prontas. Inclusive, estamos construindo uma ideia voltada exatamente para isso: colocar mulheres que pretendem disputar as eleições no centro do debate político, falando sobre propostas, trajetórias, visão de estado e projetos para Alagoas.
E, sinceramente? Existe uma grande chance de não conseguirmos financiamento ou apoio justamente porque é um projeto pensado para mulheres. Porque falar sobre liderança feminina ainda incomoda. Dar visibilidade às mulheres na política ainda parece menos “interessante” para determinados espaços de poder e investimento.
Porque democracia também se constrói com informação, diversidade de vozes e participação. E isso passa, necessariamente, por fazer a sociedade olhar para essas mulheres, pesquisar quem são, conhecer suas trajetórias, entender suas propostas e acompanhar o que defendem para Alagoas.