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Talvez ser uma mãe boa o suficiente já seja extraordinário

Quando pensei em escrever algo aqui na coluna para o Dia das Mães, o turbilhão de ideias e possibilidades foi tão grande que acabei entrando em um verdadeiro bloqueio criativo. Eu me cobrava um padrão de perfeição e inovação quase impossível. Queria escrever algo desconstruindo o modelo de maternidade compulsória e romantizada; queria falar sobre direitos, provocar reflexões, entregar o meu melhor. É um tema caro para mim: as maternidades. Então, na minha cabeça, eu não poderia escrever “mais do mesmo”, nem algo “sem gracinha”.

Perdi o prazo de enviar o texto para a Eufêmea. Decidi que não escreveria mais. O tempo me consumiu, e a procrastinação causada pela busca do ideal me paralisou. Talvez por isso eu tenha decidido escrever justamente agora.

Dessa vez, não é a advogada nem a pesquisadora que assume esta escrita. É a mãe. A mulher. Que também é um pouco de tudo isso.

Resolvi escrever de forma livre, a partir da escrevivência, porque eu também faço parte e sou atravessada pelos modelos de maternidade que existem.

Começo me libertando da obrigação de entregar algo maior do que aquilo que meu coração consegue rasgar e oferecer a vocês neste momento. Desprendendo-me do julgamento e da culpa por não conseguir entregar “o texto” que idealizei naquela mente ansiosa e exigente.

E talvez essa cobrança diga muito sobre a forma como nós, mulheres, aprendemos a nos cobrar e a nos culpar simultaneamente, quase sempre de maneira desumana.

Eu sabia que tinha repertório, conteúdo, responsabilidade e comprometimento para escrever algo grandioso. Ainda assim, me sabotei. E talvez eu faça exatamente o mesmo diariamente quando me culpo pelas ausências e pelas falhas no meu maternar.

Me despir aqui foi uma escolha consciente. Uma forma de expor essa maternidade imperfeita que existe em mim e, quem sabe, permitir que outras mulheres também se libertem da obrigação de criar filhos que cumpram todos os “checks” sociais, que andem sempre na linha — ou acima dela.

Maternar três filhos não me torna mais ou menos mãe do que quem materna um, dois ou dez. Mas me proporciona experiências específicas, inclusive diferentes das experiências de outras mães de três filhos. E talvez uma das maiores lições seja justamente entender o poder da imperfeição. O poder de dar o melhor possível, mesmo quando ele parece aquém das nossas expectativas.

Porque, no fundo, essas expectativas muitas vezes nascem de referências que não conhecemos por inteiro.

É aquela mãe que parece ter a rotina perfeita. A pele impecável. Os filhos sempre educados. A alimentação equilibrada. A tarefa escolar em dia. A casa organizada. A paciência inabalável.

Mas essa mãe perfeita e esse filho incrível aparecem na nossa vida apenas por alguns instantes. Nós enxergamos recortes. Pequenos trechos iluminados. Existe sempre um momento em que as luzes se apagam e a gente já não alcança mais.

Existe uma história anterior àquela maternidade: uma infância, relacionamentos, dores, privilégios, violências, renúncias. Experiências completamente diferentes das nossas.

Hoje, a minha vida é atravessada não apenas pela minha maternidade, mas também pelas maternidades de tantas mulheres que caminham comigo: amigas, colegas de trabalho, clientes. Mulheres que me ensinam diariamente muito mais do que imaginam.

E, nessa trajetória tão paradoxal — que carrega, ao mesmo tempo, o que há de mais bonito e mais doloroso na vida — existe algo que atravessa quase todas nós: o desejo desesperado de sermos boas mães.

E foi preciso muito tempo para entender que a melhor mãe para os meus filhos sempre serei eu mesma. Com meus trejeitos, minhas fragilidades, minhas limitações e meu jeito de amar.

Isso não significa que eu jamais vá errar. Nem que você não vá.

Mas significa entender que ninguém deveria exigir de uma mulher mais do que o melhor que ela consegue oferecer naquele momento, com tudo o que tem.

Por isso, hoje, eu reverencio todas as mães e cuidadoras. As que estão exaustas. As que se sentem insuficientes. As que carregam culpa até quando descansam.

Você vai errar. Vai perder a paciência. Vai esquecer um compromisso importante. Vai dizer coisas das quais talvez se arrependa. Vai se perguntar inúmeras vezes se está fazendo o suficiente. Vai precisar de ajuda. Vai sentir medo. Vai se sentir perdida.

E, em algum momento de fúria, talvez ainda ouça do próprio filho que não é uma boa mãe.

Mas também vai acertar.

Vai ser abrigo. Vai ser colo. Vai ser porto seguro de alguém. Vai rir de coisas completamente sem sentido. Vai chorar vendo uma apresentação desajeitada na escola. Vai sentir amor apenas observando seus filhos dormirem em silêncio.

As formas de maternar já são duras demais conosco. Muitas vezes, maternar é existir em um estado permanente de ausência de si.

A sociedade nos cobra o tempo inteiro. Os grupos de mães. A escola. O trabalho. A vida. Cobram que amemos antes mesmo de conhecer. Que sejamos pacientes mesmo exaustas. Que sejamos produtivas, bonitas, emocionalmente equilibradas e disponíveis o tempo inteiro. Como se fôssemos máquinas programadas para cuidar de todos, menos de nós mesmas.

Mãe continua sendo mulher. Mulher que sonha, deseja, erra, se frustra e também precisa ser cuidada.

Então, neste Dia das Mães, eu desejo que você consiga se enxergar com mais gentileza. Que perceba a mulher que vem tentando sobreviver, aprender e se reinventar em meio a tantas dores e exigências.

Talvez ser uma mãe boa o suficiente já seja extraordinário.

Eu desejo, visceralmente, que todos se permitam abandonar esse ideal de mãe perfeita, heroína e incansável, que romantiza sofrimento e transforma exaustão em virtude.

Talvez a maior homenagem às mães seja justamente enxergá-las como humanas. E que o mundo aprenda não apenas a celebrar as mães, mas, principalmente, a cuidar delas.

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