Começo a coluna da semana avisando que este texto contém spoilers; portanto, se você ainda não assistiu à série do momento, Off Campus, é melhor pular este texto.
Em maio deste ano, estreou no Amazon Prime a série Off Campus e, desde então, minha vida não teve mais sossego. Diariamente, recebia recomendações das minhas alunas de que eu precisava assistir de todo jeito. Confesso que, no início, torci o nariz, esperando encontrar mais uma história clichê. O atleta popular e a garota inteligente que vivem um romance universitário meio truncado, cercado de outros tantos clichês sociais e culturais dos filmes americanos. É o velho roteiro batido em que o homem ocupa o centro da narrativa e a mulher, de alguma forma, acaba sendo transformada por ele.
Para minha surpresa, parece que a autora dos livros em que a série se baseia, Elle Kennedy, também não é fã dos clichês e mostrou que a personagem principal, Hannah Wells, não precisa ser salva e, talvez, seja justamente isso que torna a história mais interessante.
Diferente de muitas protagonistas românticas, ela não está à procura de alguém que resolva seus conflitos, cure suas feridas ou dê sentido à sua vida. Hannah já existe antes da relação. Tem projetos, desejos, opiniões, inseguranças e limites próprios.
Pode parecer pouco, mas, em uma época em que as mulheres precisam sempre estar se provando, uma personagem como Hannah é muita coisa. Durante muito tempo, fomos apresentadas a histórias em que o amor aparece como solução. Geralmente, ele é construído a partir da insistência, da indisponibilidade emocional ou da fantasia de que alguém mudaria pelo outro. Aprendemos a acreditar que amar é suportar e que o desencontro é sinal de profundidade. E, ao fim desse percurso sofrido, seríamos recompensadas com um “felizes para sempre”.
Hannah definitivamente não ocupa esse lugar. Ela carrega suas inseguranças, seus medos e sua história. Mas não entrega ao relacionamento a responsabilidade de resolver aquilo que lhe pertence. O romance faz parte de sua vida, mas não se torna sua identidade, e aqui eu ressalto a grandeza disso porque, como mulheres, fomos ensinadas a ser as principais responsáveis pela construção dos relacionamentos e acabamos nos afastando de nós mesmas. Aprendemos a nos adaptar, a ceder e a esperar.
Hannah nos lembra que não precisamos diminuir nossos projetos para caber na vida de alguém, nem abandonar nossos objetivos para sustentar uma relação. Ela ainda nos convida a refletir que podemos ser maiores do que pensamos e que nossos traumas não nos definem.
Outro aspecto que me chama atenção é sua capacidade de estabelecer limites. Hannah não se deixa conduzir apenas pelo desejo do outro. Ela questiona, recua quando necessário, expressa desconfortos e sustenta posições próprias. Parece simples, mas muitas mulheres sabem o quanto isso pode ser difícil, porque existe uma expectativa de que elas sejam agradáveis, compreensivas e disponíveis. Que acolham mais do que confrontem. Que cedam mais do que negociem.
Hannah não é construída a partir desse ideal. Ela não é perfeita, reconhece isso, mas consegue algo que considero muito mais valioso em todo esse contexto: permanecer em contato consigo mesma enquanto busca as soluções para as suas questões, respeitando os seus limites e impondo seus desejos.
O que Off Campus nos ensina?
Que sejamos autênticas acima de qualquer situação. Que a gente sinta, desagrade, deseje, mas que nunca se perca de vista.
Com carinho,
Raquel Pedrosa