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“Vou fazer concurso pro IML”: a desumanização das mulheres em sua forma mais cruel

Hoje pela manhã, eu vim pensando no quanto o mundo não foi construído para as mulheres. Talvez eu diga isso e você leia me achando uma mimizenta, uma chata problematizadora. Tenho tentado levar a minha vida com mais leveza. Tenho tentado não me envolver tanto em certos casos porque, no ano passado, esse envolvimento me deixou com a saúde mental abalada e me desorganizou como pessoa e profissional.

O caso, por si só, já é terrível, doloroso. Maria Eduarda, de 21 anos, saiu para viver uma experiência, fazer algo que provavelmente a deixava feliz, e não voltou para casa. Segundo as investigações, a jovem foi arremessada sem que o equipamento de segurança estivesse devidamente conectado ao seu corpo.

Mas o que veio depois me fez pensar que existe uma violência que insiste em sobreviver até mesmo à morte. Enquanto uma família chorava a perda de uma filha, homens ocupavam as redes sociais para fazer “piadas” sobre estupro, necrofilia e o corpo daquela jovem. Vocês estão conseguindo compreender? Sobre o corpo dela.

Você sente vontade de vomitar ao ler os comentários. Eu só soube do que estava acontecendo porque vi que a deputada federal Erika Hilton acionou a Polícia Federal para denunciar perfis nas redes sociais que estariam propagando mensagens de ódio e comentários criminosos envolvendo a morte da jovem.

A antropóloga Rita Segato escreve que a violência contra as mulheres não é apenas um ato individual. Ela é uma mensagem, uma demonstração de poder e uma forma de reafirmar hierarquias.

Quando homens transformam o corpo de uma jovem morta em objeto de desejo, não estão apenas fazendo comentários cruéis. Estão reafirmando uma velha lógica patriarcal: a de que o corpo feminino existe para ser apropriado, consumido e violado. Mesmo depois da morte.

Silvia Federici mostrou, ao analisar séculos de perseguição às mulheres, que o controle sobre nossos corpos sempre esteve no centro das estruturas de poder. Mudam as épocas, mudam as ferramentas, mas permanece a mesma lógica: a mulher não é vista como sujeito pleno. Ela é vista como algo que pode ser disciplinado, controlado ou utilizado.

Quando leio comentários celebrando a possibilidade de necrofilia contra uma jovem recém-falecida, não vejo apenas homens cruéis. Vejo o resultado extremo de uma cultura que falhou em reconhecer a humanidade das mulheres. Não estamos seguras em nenhum lugar…

A Bell Hooks disse que o patriarcado ensina a dominação como linguagem. Talvez seja por isso que tanta gente ainda confunda violência com humor, humilhação com entretenimento e misoginia com liberdade de expressão. Estamos falando de indivíduos que olharam para a morte de uma mulher e encontraram ali uma oportunidade para fantasiar violência sexual.

A mulher perde a vida e alguns homens conseguem transformar até o seu cadáver em objeto de desejo e violência.

Se isso não nos assusta, talvez o problema seja muito maior do que imaginamos. E eu não quero estar entre as pessoas que aprenderam a conviver com essa violência como se ela fosse normal. Quero estar entre aquelas que a denunciam, a enfrentam e se recusam a aceitar que mulheres sejam desumanizadas em vida e depois da morte.

(Se você tiver estômago, leia alguns dos comentários)

Foto de Raíssa França

Raíssa França

Cofundadora do Eufêmea, Jornalista formada pela UNIT Alagoas e pós-graduanda em Direitos Humanos, Gênero e Sexualidade. Em 2023, venceu o Troféu Mulher Imprensa na categoria Nordeste e o prêmio Sebrae Mulher de Negócios em Alagoas.
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