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A autorresponsabilidade começa quando termina a vitimização

Existe uma pergunta que mudou completamente a forma como eu enxergo a vida:

Qual é a minha responsabilidade em tudo isso?

Porque, por mais doloroso que seja admitir, quase sempre temos mais participação naquilo que vivemos do que gostaríamos de reconhecer.

Nosso cérebro é extremamente inteligente. Ele cria maneiras de nos proteger da dor. E, muitas vezes, uma dessas formas de proteção é fazer parecer que o problema está sempre do lado de fora.

É mais confortável acreditar que ninguém nos entende, que somos sempre injustiçados, perseguidos, rejeitados, invejados ou maltratados. Afinal, se a culpa é sempre do outro, nunca preciso olhar para mim.

Mas existe uma armadilha nisso.

Na Terapia do Esquema, entendemos que a postura de vitimização pode funcionar como uma forma de hipercompensação: uma defesa construída para evitar o contato com feridas profundas. Enquanto permaneço convencido de que o mundo é o único responsável pelo meu sofrimento, não preciso encarar a parte que me cabe na construção de uma vida diferente.

Essa defesa também pode assumir uma forma sutil de manipulação — nem sempre consciente. É uma tentativa de transferir ao outro a responsabilidade de suprir necessidades que, hoje, pertencem ao meu Adulto Saudável.

“É porque ninguém me ama.”

“É porque ninguém me respeita.”

“É porque sempre fazem isso comigo.”

Mas será que a pergunta não deveria ser outra?

Com quem você tem escolhido caminhar?

Quais limites deixou de estabelecer?

O quanto comunica aquilo que sente?

O quanto se respeita para também exigir respeito?

O quanto é confiável nas suas relações?

A responsabilidade pela violência, pela maldade ou pelas escolhas do outro nunca será sua. Mas a responsabilidade por permanecer em ambientes que violam constantemente quem você é, por não estabelecer limites, insistir em relações que adoecem ou esperar que alguém faça por você aquilo que cabe ao seu Adulto fazer… essa, sim, é sua.

Reconhecer o que sua criança viveu é fundamental. Ela sofreu, teve necessidades emocionais importantes que não foram atendidas e merece acolhimento.

Mas ela não pode continuar dirigindo a sua vida.

Seu Adulto Saudável é quem precisa assumir o volante.

É ele quem aprende a comunicar necessidades, estabelecer limites, construir relações saudáveis, pedir ajuda, dizer “não”, desenvolver autonomia emocional e fazer escolhas coerentes com os próprios valores.

Enquanto permanecemos presos à culpa, à reatividade e à necessidade de provar que estamos certos, continuamos entregando nossa vida às circunstâncias.

Assumir o protagonismo não significa negar a dor do passado.

Significa dizer:

“Isso aconteceu comigo. Mas não continuará definindo quem eu sou.”

Porque existe uma enorme diferença entre compreender a própria história e usá-la para justificar permanecer exatamente onde sempre esteve.

Sua infância explica muita coisa.

Mas é o adulto que você é hoje quem decide o que fará com essa história.

A verdadeira liberdade começa quando deixamos de esperar que alguém venha reparar a nossa vida e entendemos que essa tarefa agora é nossa.

Talvez esse seja um dos maiores atos de amor que podemos oferecer à nossa criança: mostrar a ela que, finalmente, existe um adulto capaz de protegê-la.

Foto de Natasha Taques

Natasha Taques

Psicóloga clínica (CRP-15/6536), formada em Terapia do Esquema pelo Instituto de Educação e Reabilitação Emocional (INSERE), Formação em Terapia do Esquema para casal pelo Instituto de Teoria e Pesquisa em Psicoterapia Cognitivo-Comportamental (ITPC).
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