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Descanso não é prêmio: a urgência do desapego da “Mulher-Maravilha”

Foto: Imyra Perrelli

Primeiro terminamos o trabalho. Depois organizamos a casa. Respondemos às mensagens. Resolvemos os problemas dos filhos. Lembramos do aniversário da família. Compramos o presente. Marcamos a consulta. Planejamos a semana. Cuidamos dos outros. E, se ainda sobrar tempo, descansamos.

Quantas de nós conhecemos bem esse cenário? O problema é que essa última parte quase nunca chega e, logo, temos que voltar ao trabalho novamente. Há quem chame isso de força ou competência. Há até quem nos chame de mulher-maravilha. Mas, independentemente da nomenclatura, o imperativo de dar conta de tudo é constante, e o cansaço é real.

Existe uma diferença importante entre ser capaz e sentir-se obrigada. Muitas mulheres conseguem administrar múltiplas jornadas, mas isso não significa que deveriam fazê-lo. A competência não pode ser usada como justificativa para a exploração.

A psicologia conhece bem esse mecanismo. Quando uma mulher passa anos sendo reconhecida pelo quanto produz, resolve e sustenta, descansar deixa de ser um direito e passa a provocar culpa, como se parar significasse falhar.

É por isso que tantas mulheres, mesmo estando cansadas, continuam aceitando mais uma tarefa. Sentem-se sobrecarregadas, mas têm dificuldade de delegar ou, quando têm espaço para parar, não conseguem descansar sem pensar em tudo o que ainda precisa ser feito.

Culturalmente, fomos ensinadas que cuidar dos outros é virtude. Que dar conta é motivo de orgulho. Aos poucos, muitas mulheres passaram a acreditar que sua importância estava diretamente ligada à capacidade de sustentar tudo e todos. Mas o que ninguém lembra é que sustentar esse lugar indefinidamente custa caro. O corpo começa a dar sinais. A irritabilidade aumenta, o prazer desaparece, o sono deixa de restaurar. A médio e longo prazo, a saúde mental grita.

E aqui acontece uma coisa curiosa que, como psicóloga, vem chamando minha atenção na clínica de maneira alarmante. Quando chegamos nesse nível, a mulher até procura ajuda, mas ela procura porque acredita que precisa aprender a “render” mais, quando, na verdade, o que ela precisa é aprender a parar.

Há todo um trabalho de compreender que descansar não significa abandonar responsabilidades, nem agir com egoísmo. Essa mulher não está sendo menos mãe, esposa ou dona de casa quando se prioriza. Pelo contrário, a partir do momento em que respeita seus limites, ela se volta muito mais inteira para as demais atividades que deseja realizar.

O reconhecimento desse processo nos leva, inevitavelmente, a um questionamento: quem nos convenceu de que precisávamos dar conta de tudo sozinhas? É aqui que a mágica da terapia acontece, porque ela nos tira desse lugar de alienação e nos ajuda a olhar criticamente para as ideias que tomávamos como naturais. Muitas vezes, aquilo que chamamos de “meu jeito de ser” também é resultado das expectativas que aprendemos a cumprir.

Quando esse olhar crítico se instala, abre-se a possibilidade de escolher outros caminhos. E romper com o ideal da mulher-maravilha é fundamental para nos permitirmos existir para além daquilo que produzimos.

Com carinho,

Raquel Pedrosa

Foto de Raquel Pedrosa

Raquel Pedrosa

Psicóloga clínica formada pela UFAL (CRP 15/3938). Mestre em Psicologia pela Universidade de Fortaleza. Professora universitária no Centro Universitário de Maceió.
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