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O peso de ser a mulher que “deu certo” na família

Por Raíssa França

Existe um peso que muitas pessoas conhecem, sobretudo as mulheres, mas que talvez seja tão difícil de revelar que, muitas vezes, pareça melhor guardá-lo para si ou compartilhá-lo apenas na sessão de terapia. Foi o que fiz por muitos anos. Mas foi durante um café que tomei na semana passada, com uma mulher que ocupa um alto cargo em Alagoas, que nossas dores se encontraram e eu tomei coragem para escrever.

O peso é o de ser uma mulher bem-sucedida, ter seu emprego, ganhar relativamente bem, ter sua casa, começar a construir sua própria família e, ainda assim, continuar sendo o pronto-socorro ou o banco 24 horas da família que você “deixou” quando saiu de casa.

Eu sempre me sacrifiquei, trabalhando em mais de um emprego, porque sentia que tinha a obrigação de cuidar da minha família financeiramente. Quando você vem de uma família marcada por privações e começa a conquistar algumas coisas na vida, dificilmente pensa em crescer sozinha. Você quer que as pessoas que ama também tenham acesso ao que você não teve. Quer aliviar dores antigas, diminuir as preocupações de quem sempre viveu contando moedas e, de alguma forma, retribuir tudo o que fizeram por você.

O problema é que essa vontade, quando não encontra limites, deixa de ser solidariedade e passa a ser responsabilidade. Aos poucos, ajudar deixa de ser um gesto espontâneo e se transforma em uma expectativa permanente. O salário que você ganha começa a ter vários “donos”. E, sem perceber, aquilo que deveria representar liberdade passa a representar obrigação.

Não importa que você também tenha contas, financiamentos, medos, planos ou noites mal dormidas. Aos olhos de muitos, você “consegue”. E quem consegue, ajuda. Quem consegue, empresta. Quem consegue, paga. Quem consegue, resolve. Quase nunca perguntam se você pode.

Essa mulher que citei no começo do texto me disse que vivia a mesma situação. Contou que, sem perceber, havia se tornado a “responsável” financeira por uma parte da família e que isso a fazia comprometer os próprios sonhos, adiar compras que desejava fazer e abrir mão de experiências que gostaria de viver.

É aí que nasce um tipo de culpa muito difícil de explicar. Porque, quando você não consegue resolver um problema, pagar uma conta ou atender mais uma necessidade, sente que está falhando. Não como profissional ou como filha, mas como pessoa.

Só que ninguém consegue sustentar tantas vidas ao mesmo tempo sem que a própria estrutura comece a ceder. Eu conheço várias mulheres que vivem essa situação. Algumas já conseguiram romper esse ciclo, mas isso não significa que a decisão não tenha deixado marcas. Porque estabelecer limites também dói.

Dói ouvir que você mudou, que ficou egoísta, que esqueceu de onde veio. Como se amadurecer significasse abandonar as próprias origens. Como se construir a própria vida fosse incompatível com amar a família.

Passei muito tempo confundindo amor com responsabilidade financeira. Hoje entendo que são coisas diferentes.

Esse assunto tem várias camadas. A culpa é uma delas. A sensação de que você “venceu” na vida e, por isso, precisa levar todo mundo junto, também. Há ainda a obrigação financeira que vai se impondo até que, sem perceber, você se torna o esteio da família. E existe, talvez a mais difícil de admitir, a ideia de que descansar, dizer “não” ou priorizar os próprios planos seja uma espécie de traição.

Não é coincidência que tantas mulheres vivam esse conflito. Desde pequenas, somos ensinadas a cuidar. Primeiro emocionalmente, depois dentro de casa e, quando conquistamos autonomia financeira, muitas vezes também economicamente. O cuidado deixa de ser um gesto e passa a ser uma identidade. Dizer “não” desperta uma culpa difícil de explicar. É como se, naquele instante, deixássemos de ser boas filhas, boas irmãs ou boas mulheres.

Quem cresceu em uma realidade de escassez conhece bem esse sentimento. A ascensão deixa de ser apenas uma conquista individual e passa a carregar uma expectativa coletiva. É como se o seu sucesso tivesse criado uma dívida permanente com todos aqueles que ficaram para trás.

Mas nenhuma pessoa, por mais bem-sucedida que seja, consegue sustentar uma família inteira indefinidamente sem pagar um preço. Esse preço, muitas vezes, não aparece no extrato bancário. Aparece na ansiedade, na exaustão, na culpa constante, nos sonhos adiados e na sensação de que a sua vida está sempre em segundo plano.

E talvez seja justamente por isso que esse seja um assunto tão pouco falado. Porque admitir esse cansaço parece ingratidão, falta de amor, egoísmo. Racionalmente, eu sei que não é. Mas, no meu coração, ainda existe a sensação de que eu preciso dar conta e que sou esse ‘pronto-socorro’.

Talvez tenha sido por isso que aquele café tenha me atravessado tanto. Sentada à minha frente estava uma mulher com uma trajetória completamente diferente da minha. Outra profissão, outra história, outro lugar de poder. Ainda assim, a culpa era parecida. O medo de decepcionar quem ama era parecido. A dificuldade de estabelecer limites também.

Ainda estou aprendendo a colocar limites, sinto culpa quando digo “não”. Ainda me pego acreditando que preciso dar conta de tudo.

Mas talvez escrever este texto também seja uma forma de começar a abandonar essa ideia.

Foto de Raíssa França

Raíssa França

Cofundadora do Eufêmea, Jornalista formada pela UNIT Alagoas e pós-graduanda em Direitos Humanos, Gênero e Sexualidade. Em 2023, venceu o Troféu Mulher Imprensa na categoria Nordeste e o prêmio Sebrae Mulher de Negócios em Alagoas.
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