Curiosamente, a pergunta do título não é sobre números, mas sim sobre medo.
Se você não tem filhos, não terá quem cuide de você. Se você tem um, ele estará fadado à solidão. Dois parecem ser um número mágico e a certeza de companhia um para o outro. Três é demais. Parece que temos o dom de prever o futuro por meio da quantidade de pessoas que colocamos no mundo. Mas será que os laços consanguíneos, por si só, são suficientes para garantir essas relações?
Em 15 anos de clínica, já escutei alguns enredos familiares que se repetem com pequenas variações. São irmãos que não se falam. Filhos que não conseguem conviver com os pais. Primos e amigos que ocupam o lugar de segurança e afeto na vida de um filho único. Irmãos solitários, ressentidos pelo afeto dos pais dispensado a outro irmão. Casais que optaram por não ter filhos e vivem intensamente essa escolha. E há também aqueles que optaram por tê-los, mas precisaram lidar prematuramente com sua perda.
São tantas histórias e versões que seria impossível atribuir a um único modelo uma forma correta de ser e existir em família. Ter mais de um filho não garante companhia, assim como ter apenas um não condena ninguém à solidão. Da mesma forma, ter filhos não assegura cuidado na velhice. Essa talvez seja uma das fantasias mais persistentes da nossa cultura.
Filhos não são um plano de previdência afetiva. Eles não chegam ao mundo para reparar nossos medos, preencher vazios ou garantir que nunca estaremos sozinhos. Vale ressaltar, inclusive, que essa expectativa costuma ser pesada demais para quem a recebe. Quando esperamos que um filho seja nossa companhia permanente, nosso cuidador futuro ou a resposta para a nossa solidão, atribuímos a ele uma responsabilidade que pertence aos adultos, não às crianças.
Nenhuma configuração familiar oferece garantias. Não existe um número capaz de proteger uma família da perda, dos conflitos, da distância ou das escolhas que cada filho fará quando se tornar adulto. Eu sei que isso pode parecer assustador, mas também pode ser profundamente libertador.
Quando abandonamos a ideia de que existe uma fórmula para formar uma família “completa”, abrimos espaço para outra possibilidade: construir a família que faz sentido para aquela história, para aqueles desejos e para aquelas condições. O que torna uma família inteira nunca foi a quantidade de pessoas, mas sim a qualidade dos vínculos que conseguimos construir, incluindo aqueles com pessoas que não possuem laços de consanguinidade conosco.
Antes de nos preocuparmos com a quantidade de filhos que vamos ter, comecemos a questionar se as decisões sobre a maternidade estão sendo tomadas por desejo ou pelo medo de um futuro que ninguém é capaz de prever, porque nenhuma criança deveria nascer com a missão de garantir aquilo que a vida, por definição, jamais promete: certezas.
Com carinho,
Raquel Pedrosa