Por Raíssa França – @raissa.franca
Há algo que acontece com frequência quando mulheres chegam aos espaços de poder: parece que nunca basta discordar delas. Não basta questionar uma decisão, criticar um governo ou confrontar uma proposta. Quando se trata de mulheres, especialmente daquelas que ocupam ou disputam espaços na política, o ataque muitas vezes vai além.
Não é sobre o que elas fazem. É sobre quem elas são, vivem, como se comportam, se relacionam, exercem a maternidade e, em alguns casos, até sobre aquilo que lhes causou dor.
É nesse lugar que se encontra o episódio envolvendo a governadora de Pernambuco e candidata à reelaição, Raquel Lyra. Neste domingo, ela publicou um vídeo após a circulação de imagens de cartazes que fazem referência à morte de seu marido, Fernando Lucena, vítima de um infarto em 2022.
Foi uma escolha de atingir uma mulher a partir de uma das experiências mais difíceis de sua vida: a morte do esposo durante a campanha eleitoral dela. E sabe o que talvez seja ainda mais cruel? Não bastou transformar a morte dele em uma acusação contra ela. “Ela matou o marido para ganhar a eleição”, diz um cartaz.
Nos cartazes que começaram a ser registrados neste domingo, 30 de agosto, em diferentes pontos do Recife Antigo, Raquel Lyra também aparece ao lado de outras mulheres acusadas de matar os próprios maridos: Elize Matsunaga e Flordelis.
É difícil não parar diante dessas imagens. Não sei se dói mais perceber que a sociedade está fadada ao fracasso ou que algumas pessoas já morreram por dentro, porque isso não é política. É preciso dizer isso sem medo de parecer exagerada: há algo de profundamente perverso em olhar para a morte de um homem e decidir transformá-la em uma arma para atingir a mulher que ficou.
Alguém precisou pegar uma fotografia de Raquel Lyra, lembrar que seu marido morreu durante uma campanha eleitoral e concluir que aquela morte foi causada por ela. Depois, alguém decidiu ir além. Decidiu colocá-la ao lado de mulheres acusadas de assassinar os próprios maridos.
Isso diz muito sobre o lugar ao qual ainda tentam empurrar as mulheres quando elas ocupam o poder: para derrotá-las, não basta enfrentar o que elas fazem. É preciso destruí-las. E, se possível, tirá-las do caminho da política.
Porque imaginemos o que acontece com uma mulher que vive uma experiência como essa enquanto ocupa um espaço político. O que ela pensa? Será que pensa que não dá mais para continuar? Que o preço para permanecer é alto demais? Que talvez seja mais seguro sair?
Um recado de que ocupar espaços de poder pode significar abrir a própria vida para ataques, que seus relacionamentos podem ser revirados, que seus filhos podem ser envolvidos e que suas dores podem ser expostas. A violência política contra as mulheres também opera assim: tentando fazer com que elas desistam.
É assim que muitas formas de violência política de gênero operam. Não necessariamente pelo confronto direto com as ideias de uma mulher, mas pela tentativa de deslegitimá-la como pessoa. Porque, quando não se consegue ou não se quer enfrentar uma mulher no campo das suas escolhas políticas, tenta-se retirar dela a própria condição de sujeito político.
Ela deixa de ser uma governadora, uma candidata, uma parlamentar ou uma liderança com ideias que podem ser debatidas. Torna-se a mulher que precisa ser ridicularizada, sexualizada, desacreditada, chamada de louca, incompetente, fria, desequilibrada ou, como neste caso, uma assassina.
As mulheres foram historicamente afastadas dos espaços de poder sob o argumento de que seriam incapazes de exercer a racionalidade, a autoridade e o controle exigidos pela política. Quando finalmente ocupam esses lugares, continuam sendo submetidas a uma vigilância que ultrapassa o exercício de suas funções.
Há uma armadilha permanente na qual as mulheres precisam provar, ao mesmo tempo, que são humanas, mas não humanas demais para exercer o poder. Precisam demonstrar sensibilidade, mas não podem parecer frágeis. Precisam ser firmes, mas não duras demais. Se choram, sua capacidade pode ser questionada. Se não choram, são chamadas de frias. Se expõem a própria dor, essa dor pode ser usada contra elas. Se a escondem, alguém pode decidir contar a história por elas.
E, quando encontram uma ferida, não basta tocá-la. Eles abrem para que doa tanto, que o peso se torne tão insuportável, que ela pense em pedir para sair.
Quanto de uma mulher precisa ser destruído até que ela decida sair da política? Quanto da sua vida precisa ser exposto, distorcido e transformado em arma até que permanecer pareça mais doloroso do que desistir?
Talvez essa seja uma das perguntas que deveríamos fazer diante de cada ataque que ultrapassa o debate político e invade a vida, os afetos e as feridas de uma mulher.
E, quando uma mulher sai da política porque foi levada ao limite, todas as outras recebem o mesmo recado. Talvez seja exatamente esse o recado que precisamos nos recusar a aceitar.
Raquel, não te conheço. Não conheço a mulher que existe para além da governadora, da candidata e da figura pública que vemos. Mas sei que não há mais tempo para que mulheres continuem saindo dos espaços de poder porque alguém decidiu que, para derrotá-las, era preciso destruí-las.
Não há mais tempo para pedir que recuemos. Se querem que as mulheres saiam da política porque não suportam mais o preço de permanecer, talvez seja hora de fazer exatamente o contrário: ficar, ocupar, enfrentar, continuar. Já nos roubaram espaços demais.