Isabelle Caracristi tinha 22 anos quando morreu em Fortaleza. Era estudante de Direito, tinha uma família, amigos, planos e uma vida que, como acontece com qualquer pessoa, era muito maior do que aquilo que hoje cabe nas manchetes. Como todos, tenho acompanhado as notícias sobre a morte dela e uma coisa, particularmente, tem me incomodado bastante.
Em meio às dúvidas sobre o que aconteceu, sobre as circunstâncias da sua morte e sobre as relações que atravessavam sua vida, parece que existe uma necessidade quase imediata de descobrir quem era aquela mulher. E, mais do que isso, de julgá-la a partir das escolhas que fez.
Fala-se das dívidas que ela tinha com um ex-namorado, dos conflitos familiares, de possíveis dificuldades financeiras, de negócios nos quais teria se envolvido. E eu fico pensando: por que, diante da morte de uma mulher, sentimos tanta necessidade de reconstruir sua biografia como se estivéssemos procurando alguma coisa que explicasse por que aquilo aconteceu?
É claro que a vida pregressa de alguém pode ser relevante para compreender uma morte. Sei que relações, conflitos, circunstâncias financeiras podem fazer parte de uma investigação. Mas quero destacar a rapidez com que uma mulher morta deixa de ser uma vítima e passa a ser um conjunto de escolhas que podemos examinar até encontrar uma forma de culpá-la pelo seu destino.
Uma dívida vira desonestidade. Um relacionamento com um homem casado vira imoralidade. Um conflito familiar passa a compor a narrativa sobre sua instabilidade psíquica. E, pouco a pouco, quando a gente menos espera, a gente sai da pergunta “o que aconteceu com ela?” para “que tipo de mulher era essa?”.
Essa mudança de pergunta não é inocente. Pelo contrário, ela é perversa e evidencia bem o machismo estrutural que vivenciamos cotidianamente. Mas o fato é que as pessoas erram. Elas se envolvem em relações complicadas, fazem escolhas das quais se arrependem e têm dívidas, conflitos, dificuldades emocionais e momentos de vulnerabilidade. Nada disso transforma uma pessoa em alguém menos digno de cuidado.
É importante que entendamos que o machismo não está somente nas agressões, nas ameaças ou nos assassinatos. Ele vai além do óbvio. Ele também está nas histórias que contamos depois. Está na necessidade de encontrarmos alguma inadequação na mulher para tornar sua história, no caso de Isabelle, sua morte, mais aceitável.
E sabe o que é pior? Nós fazemos isso com mulheres o tempo inteiro. Primeiro perguntamos como elas viveram. Depois decidimos se aprovamos a maneira como viveram. Só então, talvez, nos permitimos olhar para aquilo que lhes aconteceu. Como se a morte delas por si só não fosse suficiente para interromper a necessidade que sentimos de avaliá-las.
É justamente desse contexto que vem meu incômodo. Em meio a tanta midiatização do caso, tantas versões e opiniões, parece que estamos esquecendo a coisa mais dramática dessa história toda. Uma mulher morreu. Ela tinha 22 anos e uma vida inteira pela frente. Uma mãe também perdeu sua filha e com ela, foram enterrados os sonhos e as expectativas de um futuro que jamais chegará.
E, enquanto ainda existem perguntas sem respostas sobre o que aconteceu, sugiro que possamos resistir à tentação de preencher os espaços vazios com julgamentos. Nem toda história precisa terminar com uma explicação confortável. Às vezes, o mínimo que podemos fazer diante da morte de uma mulher é não transformar a vida dela em argumento contra ela mesma. Ela não precisa ser uma vítima perfeita para que sua morte importe.
Antes de perguntar se Isabelle fez boas escolhas, deveríamos nos perguntar por que ainda sentimos tanta necessidade de encontrar algum erro em uma mulher antes de reconhecer que ela foi vítima de uma história que ainda estamos tentando compreender.
Com carinho para Isabelle e sua família,
Raquel Pedrosa 🌷